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Julio Le Parc orquestra duas mostras em São Paulo

Arte
- Exposição

Trabalhos reunidos na retrospectiva 'Julio Le Parc: da Forma à Ação', no Instituto Tomie Ohtake, e na mostra '9+3+ RV', na galeria Nara Roesler, atestam a elegância formal do mestre argentino na captação da luz e do movimento
Leonor Amarante
Publicado em: 01/12/2017 - 01:53Alterado em: 12/12/2017 - 17:01
"O Longo Caminho" 1974 - Julio Le Parc. Foto: PR

Julio Le Parc é um maestro da arte contemporânea que, desde a década de 1950, faz com que linhas dancem sob a luzes, evoquem forma vibratória de energia, continuidade, alegria e envolvam o público numa experiência óptico-cinética única. Sua obra seduz e magnetiza logo ao primeiro olhar. São Paulo vive um momento mágico com duas exposições simultâneas: a retrospectiva Julio Le Parc: da Forma à Ação, no Instituto Tomie Ohtake e a mostra 9+3+ RV, na galeria Nara Roesler.

A luz é a matéria prima que reverbera, como fio condutor, por toda retrospectiva. O conjunto atesta sua elegância formal ao capturar a luz, trabalhar com projeções, objetos e ambientações. Com curadoria de Estrellita B. Brodsky e consultoria artística de Yamil Le Parc, a retrospectiva abrange várias décadas, reunindo mais de cem obras de diferentes fases, desse precursor e ator maior da arte cinética e da optical art. Le Parc trabalha jogos luminosos, criando planos e gravitações com desenhos que provocam um certo frenesi visual. Sua atitude poética se mantém independente, desde os tempos em que esteve ligado ao grupo GRAV, (Groupe  de Recherche dArt Visuel), criado em 1960, em Paris. Durante uma apresentação no Museu Albright-Knox, de Búfalo, o coletivo repete o que já havia afirmado em 1961, na sua criação: “Basta de mistificações. A arte atual é um formidável bluff”.

A retrospectiva está dividida em três núcleos que revelam várias implicações e possibilidades ao mapear a produção e o pensamento de Le Parc. O primeiro, Da Superfície ao Objeto, apresenta o uso da cor como meio de desestabilizar a superfície bidimensional. Os trabalhos são da década de 50 e, em sua grande parte, preparam o visitante para o segundo núcleo: Deslocamento; Contorções; Relevos, que exibe os revolucionários labirintos-instalação, com direito a uma experiência sensorial desorientadora no público. O terceiro, coloca o visitante cara a cara com o Jogo & Política de Participação, que aborda questões sobre os muros físicos e ideológicos separando o espectador, a obra de arte e a instituição.

Desde o início, Le Parc não se atém exclusivamente à arte, mergulha em programas sistemáticos para colocar a forma em movimento e abordar a questão da luz. Na coletiva do Tomie Ohtake fica claro que espaço/lugar é um binômio polêmico dentro da experiência perceptiva. As salas se interligam pelo elegante pluralismo óptico em que tudo se move ou cria uma mobilidade imaginária. Toda a complexidade da produção de Le Parc envolve dominantes naturais ou culturais na perseguição da luz como discussão poética e revelação.

Paralelamente ao Instituto Tomie Ohtake, a galeria Nara Roesler organiza uma mostra com notável interação entre nove pinturas recentes da série Alchimie (2016/2017), três esculturas do conjunto Torsion (2004) e a projeção Alchimie Virtuel, que ocupa espaço central na exposição. A obra virtual exibida pela primeira vez na América Latina, atualiza a questão da virtualidade que Le Parc explora há mais de 50 anos, assim como nas pinturas Réels et virtuels / serie Surface noir et blanc (anos 50), Volume Virtuel (anos 70), e nas esculturas Cercle Virtuel (anos 60.

Julio Le Parc - Alchimie 366 2017 - acrílica sobre tela - 200 x 200 cm

 

Julio Le Parc - Alchimie 357 2017 - acrílica sobre tela - 200 x 200 cm

 

Julio Le Parc - Alchimie 341 2017 - acrílica sobre tela - 200 x 200 cm

 

Le Parc nasce em 1928, em Mendoza, Argentina e cursa a Escola de Belas Artes de Buenos Aires. Como sonho natural de todo artista da época fixa-se em Paris em 1958, onde dois anos depois participa do Grupo de Pesquisa de Artes Visuais (GRAV). Buscando uma  maneira de implementar o ideal de engajamento político e social do espectador, Le Parc desenvolve uma abordagem sistemática que coloca a cor, as formas, os deslocamentos e a luz em ação. Logo após sua chegada a Paris começa a experimentar, com combinações sequenciais de formas geométricas em preto e branco ou em cores, uma composição baseada em grade. Essa prática tornou-se a base da ideia de animar a superfície e desestabilizar a experiência do espectador.

Apesar das exposições frequentes e críticas positivas, o impulso efetivo à sua produção acontece quando recebe Prêmio de Pintura, na 33ª Bienal de Veneza de 1966. Com a dissolução do coletivo GRAV em 1968, Le Parc continua trabalhar individualmente e com coletivos internacionais. Se engaja na militância política e denuncia regimes políticos totalitários. Em meio aos tumultos de Maio de 1968 ele é expulso de Paris por suas atividades junto a outros artistas latino-americanos, e por sua cobertura sobre os eventos do coletivo argentino Tucumán Arde, um dos mais importantes da América Latina.

Le Parc sempre atuou com firmeza em várias frentes. A curadora Estrellita B. Brodsky, que acompanha sua produção há muitos anos, salienta no catálogo da retrospectiva que o artista tem desafiado de modo consistente a autonomia da obra de arte, ao mesmo tempo em que denuncia o elitismo da pintura tradicional. “Ele propôs novas relações radicais entre o artista, público e obra, criando encontros inéditos e desestabilizadores que colocam em movimento não apenas as formas geométricas e cores, mas também o próprio espectador”.

 

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