Brasileiros

O salto no abismo: a aventura de Leonilson

Arte
Livros

Catálogo Raisonné do artista, com mais de quatro mil obras, dá a dimensão da sua produção frenética
Leonor Amarante
Publicado em: 29/08/2017 - 18:17Alterado em: 26/10/2017 - 15:11
Patrocinado pela Fundação Edson Queirós Universidade de Fortaleza, catálogo de três volumes é uma realização do Projeto Leonilson

A grandeza, a fugacidade, os lapsos de sonho, o conflito e as ideias em movimento constante dão a dimensão épica das obras de José Leonilson Bezerra e sua aventura existencial. O Catálogo Raisonné do artista, com três mil e quatrocentas obras distribuídas em três volumes, nos leva a experimentar o “salto no abismo” que ele se propôs a realizar.

O tamanho da publicação parece desproporcional para um artista jovem, que morreu aos 36 anos, em 1993. São doze anos ininterruptos de trabalho que se mostram como um análogo tonal de sua vida emotiva. Leonilson produziu freneticamente, cerca de 300 obras por ano, envolvido em uma “viagem” entre a realidade e suas divagações de artista inquieto e libertário.

O conjunto de obras está perpassado de silêncios, pequenas narrativas, às quais não temos acesso absoluto, mas nos dão uma visão diacrônica das diferentes fases, técnicas, temas, linguagens, tendo como fio condutor sua vida e o entorno. O discurso visual, poético e intelectualizado, repleto de tensões, tem o mérito de ajustar o desenho à dimensão histórica, provocando seu renascimento e o transformando em poesia.




“Herói humilhado”, 1988, de Leonilson (Foto: Rubens Chiri/Projeto Leonilson)

Leonilson entende a pintura como um campo aberto de experimentações sensuais e potentes, que tanto pode pulsar com pinceladas espessas impregnadas pelo expressionismo como também por gestos mais suaves e sintéticos. Seu código de comunicação é feito na projeção da sedução, na experiência sensorial entre ele e o espectador. Seus impulsos estéticos carregados de conteúdos biográficos e ficcionais, notícias misturadas a episódios da sua vida privada, estendem-se por desenhos, pinturas, bordados, algumas esculturas, instalações e cenografia.

Em 1991, ao se descobrir portador do HIV, o artista não se intimida e, dentro de um cenário de tragédia de uma época, segue produzindo e insiste no problema do homem no mundo. Há uma variedade infinita de temas e estilos na obra de Leonilson, que bebeu em muitas fontes, e a aparente simplicidade formal esconde um mundo de conotações sofisticadas que emergem com o Catálogo Raisonné, que exigiu mais de 20 anos de pesquisa.

O levantamento e registro das obras foram produzidos pelo Projeto Leonilson, coordenado por sua irmã, Ana Lenice Dias, fundadora do Projeto, com patrocínio da Fundação Edson Queiroz. No primeiro volume (1971-1980), Leonilson surge como um artista prematuro, adolescente, com pinturas e desenhos delicados, quando vive a curtição natural das coisas. Então, tudo explode.  




José Leonilson Bezerra (Foto: Eduardo Brandão/Projeto Leonilson)

Na evolução posterior, já na década seguinte, prestes a ingressar no circuito de arte, navega contra a maré das grandes exposições que tipificam as obras superdimensionadas como agente vitalizador da forma. Mantém-se intimista e a fúria expressiva parece associar o desenho e a pintura ao corpo e a alma, em uma correspondência entre o homem e o mundo, da qual a arte é uma das chaves.

Leonilson realiza seu trabalho, sem concessões, sob sua ótica do mundo, experimenta e vê que as portas da percepção podem se abrir para o infinito. Amor e alienação, tumulto e paz, esperança e frustração são uma perpétua orgia que liga o caráter personalista e lírico à sua obra. Isso tudo emerge mais densamente no segundo volume (1981-1989) quando Leonilson desponta na chamada Geração 80, formado por artistas vindos da FAAP- Fundação Álvares Penteado, em São Paulo, onde Leonilson estudou por um período, e da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. Sua breve existência, com uma quantidade de recursos em jogo, tornou-se referência para muitos artistas emergentes.

Mas de que forma sua arte tem sido assumida por outras gerações? A energia criadora de Leonilson, a essência de seu trabalho que promove a demolição da arte linear e a sua substituição pela produção em mosaico contamina muitos artistas, jovens ou não.

A figuração, um dos traços de sua produção, traz uma variedade de mudanças de linguagem que se enriquece com a introdução da costura, bordados, botões e pedras semipreciosas. Esse universo é familiar para Leonilson, filho de um comerciante de tecidos e de uma dona de casa que ele via bordar. A palavra, tecida em panos coloridos, surge naturalmente inspirada na frágil condição humana, dor, verdade, solidão, a incomunicabilidade.

São deste período sua participação na Bienal de São Paulo, de 1985, e na emblemática exposição de 1989, Anotações de Viagem, na Galeria Luisa Strina, em São Paulo, em que ele coloca em xeque a relação entre a arte, a imagem e o conceito. Neste momento, reforça a presença de formas orgânicas que emergem em seus desenhos e pinturas, muito próximas à cartografia do corpo.

O terceiro volume (1990-1993) é marcado pela doença e adaptação a uma nova realidade que paulatinamente é assimilada pelo real, tornando a obra mais forte na repactuação com o biográfico. Suas manifestações tornam-se mais complexas e aparecem manchas de sangue, desenhos de procedimentos médicos em uma espécie de erupção de um novo sentimento cósmico.

No ano de sua morte, são realizadas duas exposições simultâneas, uma na galeria São Paulo e outra na Thomas Cohn Arte Contemporânea. Ainda em 1993, o artista projeta seu último trabalho: Instalação sobre Duas Figuras, na Capela do Morumbi, que ele não conseguiu ver montado. Com tecidos brancos e leves, Leonilson marcou sua despedida com uma instalação que poderia ser um tributo a si mesmo e a todos paraísos artificiais que ele experimentou.




O catálogo,  uma peça gráfica impecável

Assine e Colabore

Precisamos do seu apoio. Por menos de um café com pão de queijo, você garante jornalismo com rigor editorial.

X

Acesso restrito a assinantes e cadastrados

Você atingiu o limite de 5 REPORTAGENS por mês

Identifique-se para continuar e ler 10 Reportagens por mês

Cadastre-se

ou

Conecte-se com o Facebook

já sou cadastrado

Colabore conosco!
Colabore com o futuro do jornalismo de qualidade.
Assine agora e tenha acesso ilimitado

Aproveite nossa promoção de lançamento e pague apenas R$ 1,90/mês*

Quero Assinar * Promoção válida até 31 de Dezembro de 2017