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Arte
- Editorial

Um ano de ataques aos caminhos civilizatórios nos países 'civilizados'
Patricia Rousseaux
Publicado em: 03/12/2017 - 16:34Alterado em: 05/12/2017 - 14:12
DETALHE DA OBRA S/TÍTULO (DAVI TUPI), 2017, DA SÉRIE NUPTIAS. TÉCNICA MISTA SOBRE FOTOGRAFÍA, 31 X 2
Detalhe da obra 'Davi Tupi' (2017), de Rosângela Rennó, trabalho que integra a série 'Nuptias'. Foto: Divulgação

Tem um livro pequeno, do filósofo e pensador brasileiro Vladimir Safatle, Só Mais um Esforço, da editora Três Estrelas, que deve ser lido, se tivermos intenção de compreender o mar de incertezas e retrocessos em que estamos imersos nos últimos anos e que se aceleraram, para surpresa dos que ainda não tinham sido avisados, no último ano.

A ARTE não por acaso foi alvo ou mediadora, em diferentes momentos, de inúmeros conflitos onde ataques, seja às diferenças de gênero, de classe ou religião, vem se intensificando em escala global.

Nos iludimos. Achávamos que, em tanto e enquanto conseguíssemos um certo equilíbrio econômico e social (até a crise que começou em 2008), aqueles que detinham um tipo de poder econômico e ideológico compreenderiam, como o fez a burguesia liberal inglesa e francesa, do século XIX, a importância de dividir melhor o bolo. De defender a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Que poderíamos alcançar um modelo de conciliação da democracia liberal.

Pois bem, nem isso aconteceu.

Não apenas não conseguimos aprofundar o caminho do equilíbrio social, do respeito pelo outro, como voltamos atrás em ritmo acelerado. Que o digam as palavras do milionário Warren Buffet: “Quem disse que não há luta de classes? É claro que há uma, e estamos vencendo”.

É verdade que quem não perdeu poder aquisitivo e participação no capital social, continua comprando arte, mas o verdadeiro apreciador da arte também está perdendo.

A arte perde quando se torna objeto ou se submete a ser, e não é de hoje que ocorre, “vampirizada”, “pasteurizada”, para dar conta de valores determinados. E anda, exatamente na linha contrária do seu valor por excelência: o expressar a liberdade de cada sujeito e de quem se encontra com ela.

Só no primeiro trimestre, Trump nos EUA, com sua política anti-imigração, foi condenado por vários movimentos e instituições artísticas que desde sempre defenderam a inclusão de toda e qualquer nacionalidade nos elencos. Doria, o prefeito escolhido para gerenciar a cidade de São Paulo, no segundo dia de mandato saiu “limpando” paredes (não esgotos a céu aberto dos que a cidade tem vários) cerceando o trabalho de grafiteiros, uma expressão existente já desde os anos 1970 e que foi crescendo e se desdobrando em diferentes linhas de intervenções nas cidades, e até uma tendência, a Street Art.

No segundo semestre, grupos de católicos, evangélicos, neofascistas e não tão fascistas saíram batendo em funcionários que defendiam exposições, como no caso do MAM-SP, com a performance de um corpo nu, ameaçando juridicamente ou nas redes, e conseguindo que as próprias instituições se autocensurassem, como foi o caso do Santander Cultural, que fechou a mostra Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte, em Porto Alegre, e do Masp, em São Paulo, que colocou restrições etárias para a visitação da exposição Histórias da Sexualidade por conter supostas imagens provocadoras.

ARTE!Brasileiros criou espaços e produziu durante este ano simpósios e inúmeros artigos sobre o lugar da arte como resistência e como lugar de fala, em defesa da sua própria sobrevivência.

É necessário defender a arte e a cultura como potências geradoras do que melhor tem o indivíduo, sua capacidade de expressar seus conflitos, seja através da beleza de um corpo nu, da cor ou do sinistro da morte.  É sobre isso e muito mais que você vai ler nas páginas

MAIS 

Veja abaixo a capa da edição 41 de ARTE!Brasileiros, disponível nas melhores livrarias.

Leia reportagem de Leonor Amarante sobre as duas mostras de Julio Le Parc em cartaz em São Paulo 

Leia análise sobre a decisão do Masp de derrubar a restrição etária para a mostra Histórias da Sexualidade 

Leia reportagem de Maria Hirszman sobre a mostra José Pancetti - Navergar é Preciso 

Leia reportagem de Felipe Molitor sobre a mostra Nuptias, de Rosângela Rennó, na Galeria Vermelho

Leia entrevista exclusiva do novo diretor da Pinacoteca de São Paulo, Jochen VolzUm respeitável currículo em defesa da diversidade

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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