Brasileiros

“Na prisão, jovem será adotado pela criminalidade” diz Rosely Sayão

Página B - Brasil

À Brasileiros, psicóloga estabeleceu vínculos entre o comportamento das crianças e adolescentes e as diretrizes educacionais praticadas nas escolas brasileiras
Alex Tajra
Publicado em: 20/09/2017 - 17:49Alterado em: 25/09/2017 - 13:50
(Foto: Reprodução/YouTube)

Consagrada como uma das maiores psicólogas do País, a paulistana Rosely Sayão é enfática quando se trata da punição ao indivíduo com restrição de liberdade: “Nós temos uma estratégia de punição que é comprovadamente ineficaz”, diz à Brasileiros.

Com mais de três décadas de experiência em clínica, supervisão e docência, Rosely se tornou uma das principais referências em relações familiares e educação no Brasil. A psicóloga questiona: “Se [o sistema punitivo] não funcionou com os adultos, por que funcionaria com os jovens?”

Autora dos livros Família: Modos de Usar (Editora Papirus, 2006) e Como Educar meu Filho?(Publifolha, 2003), a psicóloga é uma grande crítica dos métodos educacionais predominantes no País os quais, segundo ela, estão completamente equivocados. “A escola é monótona, não é provocativa, não oferece condições para que os alunos conquistem autonomia de pensamento”. 

Em entrevista à Brasileiros, como parte da nossa série especial sobre a redução da maioridade penal, Rosely estabeleceu vínculos entre o comportamento das crianças e adolescentes e as diretrizes educacionais praticadas nas escolas brasileiras. Para ela, a redução da maioridade penal, pleiteada pela PEC 171/93, só agravará o problema das penitenciárias do País, que se transformaram em verdadeiras escolas do crime: “Na prisão, o jovem será adotado pela criminalidade.”

Brasileiros – Como a senhora enxerga o atual momento político do País, com as pautas conservadoras ganhando força?
Rosely Sayão:
 O que eu mais sinto falta neste momento é do espírito crítico – de quem escreve, de quem lê, em todos os sentidos. É por isso que eu invisto tanto na educação, por que eu acho que temos que ter uma geração jovem mais política, mais antenada e com maior formação cultural.

E em relação à redução da maioridade penal, qual a sua visão?
Eu penso que é melhor ir pelo lado positivo do que pelo negativo. A criminalização de crianças e adolescentes não deu certo em diversos países.  No nosso País, em especial, a gente sabe que a cadeia é principalmente para negros e pobres. Temos adolescentes hoje, das classes mais pobres, que cometem crimes e nós vemos um estardalhaço a respeito. Quando são os adolescentes de classe média e alta que cometem crimes, fazem um silêncio em torno disso. Os pais seguram a onda, pagam à polícia, este tipo de coisa. Então eu não sou nem um pouco favorável à redução da maioridade penal.

Na sua experiência como psicóloga, tratando principalmente de crianças e adolescentes, existe a possibilidade de apontar o que leva um menor de idade a cometer um crime?
No mundo contemporâneo é muito difícil compreender isso. Nossas referências são ainda do mundo moderno, e algumas coisas mudaram. Uma coisa é certa, eu sempre penso que, para entrar na civilização, a gente tem de abrir mão, abdicar, renunciar de uma série de coisas. Em compensação a essa renúncia, há a possibilidade de convívio social, de crescimento, de conhecimento. Vejo que as pessoas de origem mais simples não têm esta compensação, então eles não têm nada a perder. Eles vão renunciar a esses impulsos em nome de quê? Dos outros?  Já os adolescentes de classe média e alta entram nessas em busca de desafios. Um filme baseado em fatos reais e que retrata muito bem isso é o Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013), no qual jovens ricos assaltavam as mansões de celebridades. A gente não pode falar em outra coisa que não seja a busca pelo risco, pelo desafio. Parece que a vida dos mais novos hoje anda muito entediante.

A senhora acha que a desigualdade social ainda é um fator preponderante para a juventude mais pobre entrar para o crime?
Não tenho uma opinião formada sobre isso. Às vezes eu penso que sim, e às vezes eu penso que não. Nós temos um contexto sociocultural hoje que estimula esse tipo de coisa, não diretamente, mas indiretamente. Eu lembro da época em que nós observamos os ‘rolezinhos’. Os jovens de classe média sempre circularam pelos shoppings sem problemas. Já quando os jovens de classe mais humilde começaram a frequentar, e precisaram ir em números maiores para criar coragem, virou caso de polícia e intimidação. O recado que esses jovens estão passando é: ‘vivemos em uma sociedade de consumo e também queremos nosso espaço para consumir’.

Como a senhora disse, a juventude negra e pobre é a mais atingida pelo sistema prisional. Uma eventual redução da maioridade penal só agravaria este problema?
Sim, só agravaria.

Outra questão que está sendo discutida é uma reforma no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) para que o tempo de internação do menor infrator seja aumentado.
Não vejo nada no ECA que precise ser reformado ou alterado, nada que influencie ou tenha responsabilidade no quadro que nós vemos. Não vejo essa necessidade. Nós temos dois tipos de jovens que entram na vida marginal: os jovens que fazem isso por desafio, necessidade ou ganância, e temos os casos patológicos, não há dúvida alguma. Para os casos patológicos já existe essa previsão no ECA. Estes casos são totalmente diferente dos demais, e merecem por isso um tratamento diferente, como o caso que o Champinha vem recebendo.

Uma possibilidade também levantada é a redução da maioridade penal apenas para crimes hediondos. Qual a visão da senhora sobre isso?
Nossa grande questão é que a gente fica apostando na criminalização, apostando na punição, achando que esta é a melhor possibilidade de reduzir a criminalidade, dos mais novos principalmente, mas não investimos em educação. Na série de documentários Educação.doc a gente vê isso. Lá mostra que algumas comunidades pelo Brasil investiram muito em uma escola, mas este investimento é altíssimo e não é no sentido monetário, é no sentido de trabalho, de tentar compreender e tentar mudar. Parece que, para isso, nós não temos disposição para fazer. Agora, para aprovar leis nós temos disposição, e isso me deixa um tanto quanto frustrada, pois não adianta a gente criminalizar se não oferecemos a perspectiva positiva que seria a educação. A educação não salva todo mundo, mas dá grandes oportunidades para muitos destes garotos não entrarem ou saírem desta cena marginal. 

Em um artigo de 2010 a senhora começava com o título: “As Escolas Já Não São Mais os Templos do Saber”. Qual o principal déficit na educação do Brasil atualmente?
A escola é um parêntese que se abre na vida destes jovens que não têm comunicação nenhuma com o mundo que eles vivem. Então tudo depende do contexto sociocultural que ele está inserido. A escola é monótona, não é provocativa, não oferece condições para que os alunos conquistem autonomia de pensamento. Então a nossa maior carência é na formação, não é no conteúdo. Nós investimos muito em conteúdo, mas sem a formação crítica deste conteúdo e sem ensinar o aluno a conquistar este conteúdo por ele mesmo. Os alunos não sabem mais nada do que aprenderam depois de seis meses.

Qual a melhor forma de ressocializar um jovem que cometeu crimes?
Primeiramente fazendo ele entender na prática da vida dele o que significa o convívio social, o que é uma sociedade, quais são seus integrantes, ensinar a questão da solidariedade e do respeito, tudo isso que deveria ser ensinado na escola e as escolas não ensinam, pois esperam que estes alunos já saibam isso. Mas eles não sabem, e a família é uma pequena sociedade com eixo nos afetos, e, na vida, não existe este eixo. Na vida o eixo é a impessoalidade, e, portanto, a ética é outra.

E, com relação à família, qual o papel que ela exerce em torno da possibilidade de um jovem entrar para a criminalidade?
A família tem um papel importante na formação de todos os jovens, não só daqueles que entram na criminalidade. Ela tem a função de acolher, amparar, apoiar e dar um norte no sentido dos valores e dos princípios. Contudo, hoje é muito difícil das famílias entenderem isso, porque socializar ganhou um caráter diferente. Socializar não é mais conviver, é estar em redes sociais, em grupos grandes e muitas vezes os jovens chegam a estes grupos grandes sem saber conviver com grupos menores. Então, a família é fundamental nisso. Mas sinto que olhamos a família hoje de uma maneira bastante preconceituosa, pois a gente acha que elas não estão fazendo o seu papel. Elas estão tentando, e, se não estão conseguindo, é porque o contexto sociocultural mudou muito. A família não é a única instituição a ter influência sobre os jovens, existe a televisão, a internet, as propagandas, muitas coisas hoje influenciam os mais novos, não só família e escola.

A senhora enxerga grandes diferenças entre a formação do jovem na família de classe alta e na de classe baixa?
Não, não vejo grandes diferenças. Eu vejo diferenças na maneira destes jovens terem acesso à determinadas coisas.

E este anseio pelo consumo não leva os jovens a buscarem produtos de forma incessante, inclusive utilizando de meios ilícitos?
Alguns sim, mas não todos. Alguns certamente serão muito influenciados por isso, outros serão influenciados por aquela perspectiva que já comentei, a de ‘não tenho nada a perder mesmo’. Eles já não têm nada, então o que pode acontecer? Eles podem perder a vida, mas a vida dos mais pobres não tem um valor reconhecido. Não acho que a gente tenha uma grande causa que leve a isso, pois nossos jovens são muito diferentes. Mesmo em grupos que nós achamos que são mais homogêneos, eles são muito diferentes.

E a cobertura da imprensa sobre esta questão?
De modo geral, a maioria da imprensa parece ter uma perspectiva favorável à redução da maioridade penal. Não vejo a imprensa com uma opinião solidamente construída a partir de suas próprias convicções.

Como psicóloga, a senhora acha que o Estatuto da Criança e do Adolescente contempla os jovens da melhor maneira?
Sim, foi um grande avanço. A minha maior preocupação é que nós somos um País que precisa  de um estatuto para proteger a criança e o adolescente. Isso diz muito a nosso respeito. Há uma leitura muito equivocada do estatuto, que diz que ele ofereceu poderes aos jovens e crianças. Isso não é verdade, é uma visão errada.

O que a senhora imagina destes jovens inseridos no sistema carcerário brasileiro?
Eles vão piorar muito no sentido social. Na prisão ele terá uma educação de acordo com o contexto que ele vai viver, que nós não oferecemos em outra possibilidade aqui fora. Ele vai ser adotado pela criminalidade, ele vai aderir mais ainda à criminalidade, eu não vejo grandes escapatórias. A redução só vai agravar o principal problema.

O que precisamos melhorar no tratamento dado aos jovens em geral?
Eu venho insistindo em um ponto nas minhas colunas que é o nosso olhar moralizante sobre os mais novos. As mesmas coisas que nós fazemos, quando são os jovens que fazem, nós criticamos, julgamos. É muito difícil a vida deles. Eles olham para o que acontece no mundo adulto, aprendem conosco, e, quando vão repetir no mundo deles, são tratados com punição, criminalização, castigo. Pelo o que eu tenho lido e estudado, sempre tivemos conflitos de gerações, e estes conflitos são salutares para o desenvolvimento dos mais novos. O que eu vejo agora não é um conflito, é uma negação dos mais novos. O mundo adulto parece que fez um pacto social contra os mais jovens.

Um argumento muito utilizado nessa discussão é de que o jovem se transformou com o passar dos anos, ou seja, atualmente ele seria mais desenvolvido e, por isso, teria de ser punido como tal. O jovem realmente mudou?
Não, nem um pouco, nem as crianças e nem os jovens. O que acontece é que as crianças não têm tido oportunidade de serem crianças, elas já nascem e entram no mundo jovem diretamente, em todos os sentidos. Os adultos não sabem mais conversar e ouvir as crianças, e é a mesma coisa com adolescentes. Eles podem ter hoje mais informações do mundo adulto, isso eles têm. A infância e a adolescência não estão mais protegidas do mundo adulto. Contudo, pelos resultados que estamos vendo, isso não faz bem a eles. Eles estão entrando neste mundo de maneira imatura. Podem ter mais conhecimento e mais informações, mas no sentido emocional e pessoal eles continuam crianças e adolescentes, ou seja, imaturos ainda. Nós adultos deveríamos ter a disponibilidade de colocar fé nos mais novos, nós não temos isso. Aquele filme, O Contador De Histórias (2009), mostra pra nós que desistimos muito precocemente dos jovens e, quando não desistimos, como acontece com o protagonista do longa, vimos no que deu.

E o que a senhora pensa do sistema punitivo em geral?
Eu te respondo com uma outra pergunta: tem funcionado com os adultos? Por que iria funcionar no mundo dos jovens?

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