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O desemprego pode acabar com uma geração

Página B - Brasil
Desemprego

IBGE de novembro: 13 milhões de desempregados, 63% são pretos ou pardos e jovens
Paulo Motoryn
Publicado em: 31/08/2017 - 19:57Alterado em: 17/11/2017 - 12:21
(Foto: Mídia NINJA)

A taxa de desemprego no Brasil atingiu 13% da população economicamente ativa, mas para os jovens de 18 a 24 anos já chega a 27,3%, segundo os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Não trata-se de uma grande novidade.

Todo jovem já ouviu a pergunta traiçoeira: “Qual sua experiência?” Ora, como terão experiência se lhes forem negadas as oportunidades?

“Se, para todas as vagas que abrirem, as empresas exigirem alguém com três ou quatro anos de experiência, quando que vão me contratar? Eu saí da faculdade há menos de um ano e não consegui nenhum emprego. Desse jeito, nunca vou conseguir”, lamenta Victória Góes. Formada em administração de empresas, a jovem de 22 anos tem no currículo apenas duas experiências de estágio.

O jornalista Victor Velasco, de 24 anos, também vive uma situação delicada: “No início, me incomodava ficar pra trás na minha profissão, atrapalhando minha recolocação e dificultando o que eu esperava pra minha carreira. Só que agora eu estou sem um emprego fixo desde 2015 e decidi morar com a minha namorada, então as despesas da casa estão me incomodando muito. Isso me tira o sono”.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS




Medina foi secretário de Juventude (Foto: Reprodução)

“Os estudos têm demonstrado que a recuperação lenta da economia e a leve recuperação no mercado de trabalho não dão conta de absorver os mais precarizados. Quem são eles? Os mais jovens, os pobres e os negros”, explica Gabriel Medina, ex-secretário nacional de Juventude, em entrevista ao páginaB!. Ele comandou o órgão, responsável por elaborar políticas voltadas ao público de 15 a 29 anos, durante o ano de 2015.

Medina também chama atenção para o fato de que a taxa de desemprego mais elevada entre os jovens não é exclusividade brasileira. Na Espanha, a taxa de desemprego da juventude fica em 50%, enquanto a taxa para o restante da população é de 22%. “O que ocorre no Brasil é que, além de tudo, estão desmontando as políticas que impactam diretamente a juventude. O congelamento das verbas para educação é um exemplo. Como que faz a reforma do ensino médio sem dinheiro?”, comenta.

“Os 75% dos recursos dos royalties do petróleo do Pré-Sal, que seriam destinados para a educação poderiam significar um boom, um verdadeiro salto que nos permitiria dialogar com o bônus demográfico que vivíamos há alguns anos, mas que agora está em descenso. O que estamos vivendo hoje é uma barbárie. Trata-se de uma situação de desalento, de abandono total dos jovens”, lamenta. Ele também coloca as reformas da previdência e trabalhista como vetores da precarização dos jovens no médio prazo.




Henriques é referência no debate (Divulgação)

O economista Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, em entrevista recente ao Valor, comentou o aumento do investimento na formação universitária, que pulou no começo da década de 2000 de 7% da população jovem matriculada na universidade para 18% em 2010: “Fizemos um processo de massificação do ensino sem estar atento a um padrão de qualidade que, na época, o mundo contemporâneo estava colocando. Investimos em qualidade no sistema de ensino só no topo universitário”.

Ainda segundo Henriques, “a projeção para a juventude em 2030 ou 2040 pode ser de uma posição de limbo irreversível”. O economista argumenta que, à margem das demandas da sociedade do conhecimento, e com pouca ou nenhuma capacidade de adaptação às condições objetivas do mundo do trabalho desta época, é real o risco de termos uma geração impactada com índices sociais preocupantes.

EXISTE SAÍDA?

Mesmo que a maioria dos especialistas apostem que os impactos do desemprego na atual parcela da juventude são enormes, alguns deles argumentam que é sim possível reverter o quadro. “Há condições de fazer coisas inovadores e criativas em termos de políticas concretas para a juventude. A começar, por exemplo, com um fundo do BDNES para startups e iniciativas criativas da juventude, um fundo para financiar empreendimentos de cultura, comunicação e tecnologia dos jovens brasileiros”, sugere Medina, que lamenta o pouco tempo que esteve no cargo de secretário de Juventude – sua passagem foi abreviada pelo processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT).

“O BNDES tem muito dinheiro, mas financia apenas grandes empresas e não se conecta com a produção da juventude, que faz coisas interessantes. Teriam muitos caminhos possíveis, mas até o Ciências Sem Fronteiras foi cortado e olha que era uma opção para jovens que tinham desenvolvido bastante sua trajetória na educação. O grande problema é que nada disso está no radar nesse governo”, conclui.

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