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PCC: o que está por trás dos 24 anos da maior facção criminosa do Brasil

Página B - Brasil

Qual a participação da mídia e do Estado no surgimento e crescimento do PCC? Autores de dois livros sobre o tema refletem sobre o assunto
Carolina Piai
Publicado em: 29/08/2017 - 13:49Alterado em: 05/09/2017 - 14:38
Inscrição em uma parede de penitenciária em SP (Foto: Marco Gomes/Flickr)

Na próxima quinta-feira (31), o Primeiro Comando da Capital (PCC) completa 24 anos de existência e, de acordo com reportagem publicada no portal UOL na último dia 22, “para ‘comemorar aniversário’, o PCC planeja matar juiz, procurador, delegado e agentes”. Mesmo que diversos outros veículos tenham repercutido a notícia na internet, a TV Globo, maior emissora de televisão do Brasil nem sequer cita o nome da facção, assim como a maior parte das emissoras de rádio.

Em entrevista à páginaB!, Josmar Jozino, jornalista que acompanha o PCC há mais de 12 anos, discorda da postura da cobertura da imprensa sobre o tema: “A população tem direito de saber sobre o assunto crime organizado. É notícia como qualquer tema de esporte ou política. Os segmentos da mídia que não falam o nome e a sigla da facção acreditam que é sinônimo de glamourizar o crime organizado”.

“Aí eu pergunto: será que daqui alguns anos também eles vão deixar de falar o nome de um partido político envolvido em corrupção ou que tem vários integrantes presos e investigados? Será que eles vão falar ‘o partido que domina o Congresso’? Será que um dia vai acontecer isso? Essa é uma dúvida que eu tenho”, provoca, em referência à disparidade da mídia ao lidar com a criminalidade em diferentes esferas sociais.

COBRAS E LAGARTOS

Jozino trabalha atualmente na Ponte Jornalismo e é autor do livro Cobras e Lagartos, que conta a história do PCC e lhe garantiu menção honrosa do prêmio Vladimir Herzog. A obra foi publicada em 2005 e relançada neste ano. Na reedição, entre outros temas, conta como a facção se expandiu para além das fronteiras do estado de São Paulo nos últimos anos.




Josmar Jozino, repórter policial (Foto: Reprodução)

A noticiada possível “comemoração” do aniversário do PCC nos remete à última grande crise da segurança pública, quando, em janeiro, rebeliões e massacres aconteceram em presídios do Norte e Nordeste. “Essa disputa do PCC com o Comando Vermelho já vem desde 2015, por causa da expansão do PCC na maioria dos estados da federação. Eles são maioria tanto nas ruas, como nas prisões, então existe uma briga pela hegemonia do tráfico de drogas. Isso teve consequências nas prisões, com várias mortes com requintes de crueldade. Em alguns estados, muitas mortes nas ruas são consequência dessas brigas, não só do PCC com o Comando Vermelho, mas com outras facções”, conta o autor. Foi o que aconteceu no primeiro semestre deste ano em Alagoas, no Ceará e no Rio Grande do Norte, que tiveram alta em seus níveis de homicídio de, respectivamente, 11%, 25,4% e 22,4%.

O que se revela por trás dessa história, para Jozino, é a omissão do Estado. “Tudo isso a Polícia Federal já havia alertado que poderia acontecer e nenhuma providência foi tomada”. Para ele, desde o surgimento do PCC, o Estado não cumpriu o papel de impedir seu crescimento. “O governo não admitia a existência do grupo, sempre falava que era uma ficção”, lembra. No entanto, o Primeiro Comando da Capital, que surgiu em 31 de agosto de 1993 vigora até hoje, “crescendo a cada dia que passa”, segundo o especialista, e tomando proporções internacionais.

DIAS MELHORES NÃO VIRÃO?

Outro indício de má gestão está no modo como os líderes do grupo foram dispersos, depois que finalmente foi admitida a existência do comando pelo governo. Iuri Salles, repórter da Revista Vaidapé e autor de outro livro sobre o tema, PCC: Dias melhores não virão, em entrevista à páginaB!, conta: “Um fato que eu não vejo muito na mídia é que essa nacionalização do PCC se deu por um erro de gestão de segurança em São Paulo, que pegou os principais membros da facção e espalhou pelo Brasil na tentativa de desarticular. Na verdade, articulou mais. Não é só responsabilidade deles, mas o governo facilitou”.

Além da relação com as últimas gestões tucanas em São Paulo, Salles pontua que os meios de comunicação falham ao tratar do assunto de forma binária e pouco profunda. Para ele, não há contextualização, por exemplo, do nascimento do PCC e de sua presença nas periferias.




Iuri Salles, repórter da Vaidapé (Foto: João Miranda)

“O PCC, além desse lado capitalista do narcotráfico, é uma organização que tem um lado social entre os seus próprios membros. Um cara que não tá bem, vai ter uma ajuda do PCC. O PCC não nasce para ser um grupo de tráfico de droga, nasce no intuito de reivindicar opressões dentro do sistema penal. Mas deu no que deu”, comenta Salles.

Passados 24 anos, é essencial recordar a origem do PCC. A facção surgiu de dentro da Casa de Custódia de Taubaté, a partir de um time de futebol, chamado Comando da Capital, de onde veio o nome do grupo. Na época, não havia completado nem um ano que acontecera o Massacre do Carandiru, de 1992, resposta brutal da Polícia Militar a uma rebelião na Casa de Detenção do Carandiru, ocorrida em 2 de outubro daquele ano, onde foram mortos pelo menos 111 presos (até hoje ninguém cumpriu pena por esses homicídios).

Jozino explica o surgimento do comando: “Eles [fundadores do PCC] se organizaram dentro da prisão para evitar um novo massacre e protestar contra uma série de maus-tratos que havia nos presídios paulistas. Muitos presos ficavam seis anos sem visita lá, eram torturados e espancados. Então, se organizaram e criaram o PCC. Como são criminosos, eles viram que isso aí poderia gerar negócios”.

O ENCARCERAMENTO EM MASSA IMPULSIONA O CRIME?

A situação prisional no Brasil continua caótica. De acordo com relatório da ONU, 24% dos presídios brasileiros tem taxa de ocupação maior do que 200%. Um exemplo é a Cadeia Pública Desembargador Raimundo Vidal Pessoa, um dos centros de detenção provisória visitado pelas Nações Unidas, em 2015. Lá, 691 indivíduos aguardavam julgamento, ainda que a capacidade fosse de 250 vagas.

Segundo o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen), publicado em dezembro de 2014, a população prisional é de 622.202 pessoas e o sistema possui 371.884 vagas. Além disso, segundo o Portal da Saúde, do Ministério da Saúde, pessoas privadas de liberdade têm uma chance 28 vezes maior de contrair tuberculose, por exemplo.

“As condições do sistema prisional falido só favorecem o crescimento deles [facções criminosas]”, conta Jozino, que considera o fim do PCC como um futuro muito distante, pois o grupo se expande diariamente. “Superlotação, falta de assistência médica, falta de assistência jurídica, falta de assistência à saúde, tudo isso a facção mesmo cuida para o preso. Em vez de o Estado fazer isso, vem o crime organizado, pega essa brecha e oferece tudo para o preso. Em troca, o cara se filia à facção e vira mais um soldado desse grupo”. 

LEIA MAIS

Cobras e Lagartos, de Josmar Jozino. Editoria Via Leitura. 2ª edição, 2017.

PCC: dias melhores não virão, de Iuri Salles e Pedro Cerantula. Faça o download aqui. 1ª edição, 2013.

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