Brasileiros

Um ditador equilibrista

Página B - Brasil

O portentoso documentário Imagens do Estado Novo 1937-45 mostra como Getúlio Vargas oscilou entre a Alemanha e os Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial e só se decidiu pelos Aliados quando não podia mais manter a equidistância
Alex Solnik
Publicado em: 05/09/2017 - 14:03Alterado em: 06/09/2017 - 08:45
Getúlio Vargas em cena exibida em Imagens do Estado Novo 1937-45 (Foto: FGV/CPDOC – Divulgação)

“Brasil, tu és o berço doirado
Do índio civilizado
E abençoado por Deus...
Brasil, és terra de toda gente                     
Gigante do continente,
Orgulho dos filhos teus”...
(
Brasil, de Benedito Lacerda e Aldo Cabral, 1939)

Se é verdade que, de 15 em 15 anos o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos 15 anos, como proclamou o filósofo pasquiniano Ivan Lessa, é imprescindível que, de 80 em 80 surja um documentário para nos lembrar o que aconteceu nos últimos 80 anos em nosso País.

Esta missão é cumprida com louvor pelo irrepreensível Imagens do Estado Novo 1937-45, realizado por Eduardo Escorel (diretor) e Cláudio Kahns (produtor), com quatro horas de duração. Depois da estreia nos cinemas, o filme será exibido na televisão em cinco episódios.

Sustentado em pesquisa de proporções monumentais, no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos, como jamais se viu no cinema brasileiro, e enriquecido por trilha sonora que traduz fielmente o ufanismo da era Vargas, além de apresentar uma narração sóbria e fartamente documentada, o filme reconstitui o apogeu e o crepúsculo do período que passou para a história como Estado Novo e não ditadura, o que de fato foi.

Carnaval de outubro

As surpresas começam por imagens captadas por um cineasta amador não identificado que registrou as cenas de rua protagonizadas pelos cariocas quando Vargas e seu exército expulsaram do Palácio do Catete, em outubro de 1930, o presidente Washington Luís, que guardava o lugar para o sucessor já eleito, Júlio Prestes.

É um golpe de Estado clássico, sem tirar nem pôr, o assassinato do regime democrático, algo que seria visto como traumático por uma população minimamente politizada. Há todos os sinais de que seria o preâmbulo de uma ditadura de caráter civil e militar, já que ninguém derruba um presidente sem armas.

No entanto, as ruas do Rio são tomadas por um inexplicável carnaval fora de época. As pessoas vestem fantasias e se deixam filmar dançando e cantando a valer, como se houvesse algo a comemorar. Automóveis lotados de foliões que exibem objetos gaúchos ocupam as principais avenidas, saudando o futuro ditador como se ele fosse o salvador da Pátria.

Em São Paulo ninguém festeja a ascensão de Vargas. Em dois anos estoura a Revolução Constitucionalista de 1932, a resposta armada da oligarquia e do povo paulistas, logo sufocada por bombardeios governistas, mas que pressiona o caudilho ainda sem definição precisa – não era tido como presidente da República, nem como ditador – a encenar a primeira de suas farsas no estilo “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”: autoriza uma Assembleia Constituinte a elaborar uma Constituição e a “elegê-lo” presidente da República, em julho de 1934, em uma solenidade grandiosa, como viria a ser a marca de seu mandarinato.

Concidentemente, 1934 foi também o ano em que Adolf Hitler e o nazismo chegam ao poder na Alemanha.




Bandeiras com suástica em festa no Sul do Brasil, onde existia Partido Nazista (Foto: Imagens do Estado Novo)

Chuva de pétalas de rosas

No dia da “posse” de Getúlio (muito elegante, de fraque e cartola), cai uma chuva fina, o que não impede a presença maciça de populares, contidos na calçada do Congresso Nacional por cordões de isolamento, exibindo rostos severos, completamente opostos às expressões de euforia flagradas em outubro de 1930. Já não havia ninguém fantasiado, nem corsos animados. Em quatro anos o clima de irresponsável comédia é tingido por cores cinzentas características dos dramas.

Saudado por uma chuva de pétalas de rosas, nas dependências do Senado Federal, Vargas jurou com voz potente cumprir a Constituição, que determinava a impossibilidade de sua reeleição e a realização de eleições diretas em janeiro de 1938. No entanto, logo ao chegar à residência oficial, o Palácio Guanabara, de volta da cerimônia, ele próprio escreve em seu diário que a Constituição “será um entrave e não uma solução”.

Suásticas no Rio

O período “democrático”, logo maculado por banhos de sangue nas ruas do Rio em razão dos conflitos entre comunistas e integralistas, que culminam com a Intentona Comunista de 1935, esgota-se rapidamente, com a supressão dos direitos civis englobados na Lei de Segurança Nacional, elaborada pelo ministro da Justiça, Vicente Ráo. Decreta-se ainda censura à imprensa e o estado de guerra. O anticomunismo torna-se o principal prato do cardápio getulista, tal como aconteceu na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler.

O nazismo, até então restrito a cidades menores do Sul, como Blumenau, onde funciona uma sucursal brasileira do Partido Nazista, ganha espaço.

Na capital federal, marinheiros de um navio-escola alemão desfilam portando bandeiras com a suástica na Praia do Flamengo, palco também das paradas grotescas dos integralistas, que tentam copiar os alemães, mas – como bem mostram as imagens – nem seus uniformes improvisados têm o mesmo brilho daqueles em quem se espelham. Na Gávea, acontece uma disputada corrida de rua, entre o piloto italiano Carlo Pintacuda e o barão austríaco naturalizado alemão Hans Stuck, conhecido como “Flecha Diabólica”.

Miniatura de Goebbels

Getúlio procura manter equidistância entre os dois polos do alto escalão de seu governo, dividido entre os aliados dos americanos e os simpatizantes do nazismo. Em 1934, o chefe de gabinete, José Simões Lopes, visita Berlim e escreve uma carta a Getúlio, relatando as maravilhas do regime de Hitler:  

“O que mais me impressionou” escreve José Simões Lopes, “foi a propaganda sistemática, metodizada do governo e do sistema nacional socialista. Não há, em toda a Alemanha, uma só pessoa que não sinta, diariamente, o contato do nazismo ou de Hitler, seja pela fotografia, pelo rádio, pelo cinema ou através da imprensa alemã. A organização do Ministério da Propaganda fascina tanto que eu me permito sugerir a criação de uma miniatura no Brasil. O ministério da Propaganda é uma espécie de superministério. O ministro Goebbels é uma grande figura de homem dinâmico”.

É a gênese do DIP - Departamento de Imprensa e Propaganda –, que seria criado em 1939 com duas funções principais: promover o culto à imagem de Vargas e censurar estreitamente todos os meios de comunicação, sejam jornais, livros ou filmes. E, é claro, colocar em prática a máxima de Goebbels mais conhecida: repetir a mentira até transformá-la em verdade.

Dois anos depois do juramento à Constituição, Vargas começa a rompê-lo, já se coloca em campo e consulta vários governadores acerca da ideia de prorrogar seu mandato. Um dos que se opõem à ideia é o governador paulista Armando de Salles Oliveira, seu ex-aliado. Em janeiro de 1937, Salles enfatiza a sua discordância lançando-se à Presidência da República.




Getúlio com o presidente americano Franklin Roosevelt, em escala de viagem no Rio (Foto: Imagens do Estado Novo)

“Os próprios cegos as veem”

A campanha do “magrinho elétrico”, patrocinada certamente pela elite industrial paulista, é faraônica. O ex-governador (ele deixou o cargo) oferece banquetes de mil talheres nos Theatro Municipal de São Paulo, coroados por discursos em que proclama frases grandiloquentes como essa:

“A nossa campanha está aberta. E as suas perspectivas são tais que os próprios cegos as veem”.

Em clima de provocação explícita, discursa ao lado de Macedo Soares e de Vicente Ráo, dois ministros de Vargas.

Apesar do sorriso permanente que exibe – e que talvez seja um dos motivos pelos quais não seja visto como ditador, já que ditadores nunca sorriem – Vargas acompanha a ascensão de Salles com desdém e disfarçada indiferença, que se transforma em preocupação quando o candidato da UDB – União Democrática Brasileira – reúne uma multidão de 50 mil pessoas no estádio do América F.C., na capital federal, por ocasião do terceiro aniversário da Constituição de 1934 (que Vargas, apropriadamente, prefere esquecer).

A paciência dele se esgota quando o ex-governador paulista é recebido entusiasticamente em Porto Alegre por um mar de gaúchos liderados pelo governador Flores da Cunha, que Vargas julgava ser seu aliado e que, além de administrar pessoas e vastos capitais, comanda uma brigada militar de grande envergadura e poder de fogo.

Vargas não se importa com os rumos da campanha presidencial que descreve, em seu diário, como “guerra”. Movimenta-se para aprovar sua reeleição no Congresso Nacional e lança, ao mesmo tempo, o escritor José Américo de Almeida, seu ex-ministro, em oposição a Salles. A campanha, no entanto, é tão pobre e sem prestígio que nem registros cinematográficos deixou. E seu discurso, que contraria os planos de Vargas, soa cada vez mais desconfortável ao regime, em especial quando proclama que o povo irá votar para presidente “mesmo debaixo de bala”.

O terceiro presidenciável é o pai dos integralistas, chamados pelo povo de galinhas verdes, o fascista Plínio Salgado, também aliado de Vargas. Simpatizantes do integralismo integravam tanto o governo quanto as Forças Armadas.

“Palhaços da política”

Marchas integralistas com mais de dez mil galinhas verdes se intensificam na Praia do Flamengo, acendendo a luz amarela no Palácio do Catete. A fim de não perder o controle da situação, Vargas, que chama os integralistas de “palhaços da política”, convoca Salgado, o líder franzino, “um caipira astuto”, como o define, e que lembra fisionomicamente o personagem Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, para uma conversa a sós no Palácio do Catete.

A essa altura, o galinha verde-mor já está por dentro do segredo guardado a sete chaves: o secretário da Educação do Distrito Federal já elabora, a pedido do presidente, a nova Constituição, que irá substituir a de 1934.

Salgado é seduzida por duas promessas tentadoras: a Ação Integralista será o partido oficial do regime em gestação, que emergirá da nova Constituição, e seu líder, ministro da Educação.

Em agradecimento às duas melhores notícias da sua vida, Salgado organiza um gigantesco desfile em frente ao Palácio Guanabara, presenciado por Vargas do alto de uma sacada, com 20 mil mal uniformizados fascistas brasileiros. E abandona a candidatura.

A “Macedada”

Em outra frente, o ditador, que nunca demonstra qual será o próximo lance de sua partida de xadrez, determina ao ministro Macedo Soares, que sucedera Vicente Ráo na pasta da Justiça, libertar os 308 comunistas presos desde a Intentona de 1935 e levantar a censura à imprensa e o estado de guerra.

A anistia ganha o apelido pejorativo de “Macedada” e opõe liberais e conservadores. Em meio às comemorações dos legalistas, que interpretam as decisões como a capitulação de Vargas aos ditames da Constituição, o ministro da Guerra Eurico Gaspar Dutra envia uma esquadra de aviões ao Ceará para bombardear um agrupamento de beatos na localidade de Caldeirão, uma reedição de Canudos, sob o pretexto de que lá se escondiam comunistas cearenses da tentativa de putsch de 1935.

Apesar de não estarem sob censura, os jornais preferem minimizar o episódio que termina com 500 mortos. Todos beatos, nenhum comunista. Qualquer semelhança com o bombardeio nazista de Guernica não é mera coincidência.

“Plano tenebroso”

No dia 1º de outubro de 1937, manchetes garrafais azedam o bom humor habitual dos cariocas com frases bombásticas:

“As instruções do Komintern para a acção de seus agentes contra o Brasil”.

“O tenebroso plano foi apprehendido pelo Estado Maior do Exército”.

“Trata-se de uma série de instrucções destinadas a preparar e levar a efeito um golpe comunista conforme se verá no resumo que a seguir divulgamos”.

Dias depois, novos detalhes conferem contornos assustadores ao “tenebroso plano”:

“As reivindicações violentas, dizem eles, não dão resultado porque a maioria dos operários é de gente pacífica, temerosa de conflitos e não adextrada na luta. Fala-se, então, em explorar a carestia de vida e que essa circunstância absolutamente incompreensível (sic) para as massas nos fornece as principais armas para a agitação proletária”.

“Nos bairros”, segue o relato, “as massas deverão ser conduzidas aos saques e às depredações, nada poupando para aumengtar cada vez mais a sua excitação que deve ser mesmo conduzida a um sentido nitidamente sexual a fim de attrahil-as com facilidade; convencidos de que todo aquele luxo que os rodeia – prédios elegantes, carros de luxo, mulheres etc – constitui um insulto à sua sordidez e falta de conforto e que chegou a hora de tudo aquilo lhes pertencer sem que haja o fantasma do estado para lhes tomar conta”.




Carnaval de rua é uma das cenas do cotidiano mescladas às fotos e filmes oficiais  (Foto: Imagens do Estado Novo)

Guerra de papel

No dia 4 de outubro, A Noite fura O Globo, noticiando em primeira mão que, devido à descoberta do “tenebroso plano” e no intuito de “salvar a Pátria” os ministros militares fizeram apelo ao presidente da República para aprovar o estado de guerra.

“Acima de tudo está a salvação da pátria”

“Exposição de motivos com que os ministros militares general Eurico Gaspar Dutra e almirante Aristides Guilhem solicitaram, há dias, ao presidente da República, a imediata decretação do estado de guerra. Trata-se de um documento impressionante, pelos fatos graves que revela e pelas conclusões a que chega quanto à extensão e profundidade da propaganda comunista. Tendo obtido, com primazia, este importante documento, A Noite já o publicou em edição anterior. Nelle os ministros acentuam que acima de tudo está a salvação da Pátria e pedem por isso a medida excepcional”.

Com base num documento apócrifo e delirante, de conteúdo duvidoso chamado Plano Cohen (atribuído propositadamente a um suposto comunista de sobrenome judaico) que, descobriu-se mais tarde, fora produzido pelo capitão integralista Olympio Mourão Filho e vazado à imprensa pelo Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, Goes Monteiro, e não pelo Komintern, o governo engendra um clima de paranoia, aproveitando-se do ambiente que prevalece na Europa às vésperas da II Guerra Mundial com o propósito de golpear-se a si próprio. O ditador Vargas prepara um golpe contra o presidente Vargas. Mas sem jamais abrir mão do trâmite legal.  

Os parlamentares não solicitam os originais do suposto documento, não pedem explicações mais detalhadas a Goes Monteiro, tangidos pela urgência do momento, que exige decisões rápidas, “antes que o inimigo ataque”. A honrosa exceção é o deputado Octavio Mangabeira, que tenta trazer os colegas de volta à lucidez com um discurso histórico:

“A Câmara sabe o que esta medida significa? O que esta medida representa? Está a Câmara devidamente informada dos fatos que a justificam? Que satisfação dará ao país votando imediatamente, como se pretende, medida de tal gravidade sem ao menos ter salvo as aparências nem ao menos ter dado a impressão de que examinou devidamente as peças ou os documentos que lhe foram apresentados, sem sequer os ter lido”?

O estado de guerra é decretado a toque de caixa, com fundamento numa ameaça de papel, na qual todos acreditaram. Não foram encontradas armas, não foram apontados os supostos participantes da conspiração e, no entanto, a ideia pegou. “Alguém” tinha declarado guerra ao Brasil. Era preciso reagir à provocação. Volta a censura à imprensa. Os direitos civis fundamentais são suprimidos. Todos estão sujeitos à prisão, dentro e fora de suas casas. Guerra é guerra.

General sem tropa

Se havia alguma dúvida das intenções por trás do decreto ela é dirimida no dia seguinte, quando o ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra, ordena deslocamento de tropas para a fronteira com o Uruguai.

Assim que chegam a Porto Alegre, o comandante do batalhão comunica ao governador Flores da Cunha que, por ordens superiores e devido ao estado de guerra, sua brigada militar deixa de ser sua, passa ao comando federal.

Não resta outra opção ao mais importante aliado de Armando Salles de Oliveira, agora um general sem tropa, senão renunciar ao posto de governador e partir para o exílio antes que seja preso. A candidatura do favorito à sucessão de Vargas murcha da noite para o dia.

O documentário deixa claro que o principal objetivo do golpe era impedir que o candidato paulista ganhasse as eleições de 1938, nas quais era o favorito, reeditando as de 1930, quando outro paulista, Júlio Prestes, também favorito, venceu nas urnas, mas Vargas e militares aliados o acusaram de fraude e tiraram do poder, manu militari, o presidente Washington Luís, outro paulista, que guardava o lugar para ele – naquele tempo a distância entre a eleição (janeiro) e a posse (novembro) era muito grande –  o que foi definido por historiadores e sociólogos como a Revolução de 1930. Só que, na prática e na teoria de todos os manuais políticos, foi um golpe de Estado na acepção da palavra.

O cancelamento das eleições de janeiro de 1938 é iminente. Até mesmo por absoluta falta de candidatos. Cada vez mais próximo da vitória, Vargas decide com seus aliados mais próximos e fieis, Goes Monteiro, Eurico Gaspar Dutra e Filinto Muller, todos em maior ou menor medida simpatizantes de Hitler, marcar o golpe para 15 de novembro, uma data escolhida para passar a mensagem de que seria uma nova proclamação da República.

As articulações em busca de apoio dos governadores do Nordeste ao golpe, levadas a efeito pelo deputado Negrão de Lima, vazam para a imprensa, provocando uma reação indignada de Vargas, que se queixa, em seu diário, dos censores que deixaram passar essa bola no meio das pernas. Diz que o golpe de Estado é irreversível e antecipa a data.




Trecho de carta elogiosa ao regime de Hitler enviada a Getúlio por seu chefe de gabinete (Foto: Imagens do Estado Novo)

O golpe invisível

Na madrugada de 10 de novembro de 1937, a cavalaria do Distrito Federal cerca os prédios do Congresso e do Senado. Ouve-se o barulho das ferraduras batendo nos paralelepípedos misturado a cantos de bem-te-vis. É a prova de que a cúpula do Exército é aliada no golpe. Não há imagens do fato, seja em fotos, seja em filme. A imprensa está de novo sob censura. Nenhum cinegrafista amador registra o acontecimento.

Quando chegam para mais um dia de trabalho, deputados e senadores são impedidos de entrar. Oitenta deles correm ao Palácio do Catete para aplaudir a manobra. Eles ainda não sabem que a nova Constituição, redigida por Francisco Campos, promovido de Secretário da Educação do Distrito Federal a Ministro da Justiça, delega todos os poderes ao presidente da República, Getúlio no caso, que é quem irá designar os governadores, agora chamados de interventores. E sem Câmara dos Deputados nem Senado para atrapalhar. Nem partidos políticos. Getúlio se transforma numa espécie de imperador, primeiro e único; soberano e incontestável. E proclama um regime sui-generis: a ditadura sem partido.

Os acontecimentos se desenrolam de forma inesperada e rápida, silenciosa e invisível: não há protestos, a população não se dá conta do que ocorre, os alunos vão às aulas, as donas de casa fazem compras, enquanto os maridos estão nas fábricas ou escritórios.

Na tarde de 10 de novembro de 1937, Francisco Campos lê a nova Constituição no Palácio do Catete para colher as assinaturas dos ministros. O paulista Odilon Braga, da Agricultura recusa-se a assinar e se demite ali mesmo.

“Regimen democrático”

À noite, Getúlio reúne o ministério e lê, em cadeia nacional de rádio, o seu discurso mais cínico e hipócrita, no qual justifica o golpe invisível com perturbações da ordem que ele próprio atiçou com o Plano Cohen (*): 

“Entre a existência nacional e a situação de caos, de irresponsabilidade e desordem em que nos encontrávamos, não podia haver meio termo ou contemporização. Quando as competições políticas ameaçam degenerar em guerra civil é sinal de que o regime constitucional perdeu o seu valor prático, subsistindo apenas como abstração. A tanto havia chegado o país. A complicada máquina de que dispunha para governar-se não funcionava. Não existiam órgãos apropriados através dos quais pudesse exprimir os pronunciamentos da sua inteligência e os decretos de sua vontade”.

Numa demonstração de que não havia motivo para mudar a agenda, Getúlio embarca, a seguir, no carro oficial com a mulher e a filha rumo à embaixada argentina, comparecendo ao jantar previamente marcado com o embaixador.

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(*) Dado que o autor do falso plano era um integralista de quatro costados é plausível supor que ele tenha recebido encomenda de Plinio Salgado, em acordo com Getúlio; além disso, quem vazou o plano para a imprensa foi o ministro Chefe do Estado Maior do Exército, Goes Monteiro.

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No dia seguinte, o comércio funciona normalmente, tal como os bancos, as escolas, as bancas de jornais, as feiras e os açougues.

O Globo publica na primeira página em letras garrafais mensagem do ministro Eurico Gaspar Dutra, na qual adverte o distinto público interno e a população em geral que tudo continua como dantes no quartel de Abrantes, a democracia ficara intacta e quem contestasse a nova ordem seria classificado como “inimigo da Pátria”. A mensagem, intitulada “O ministro da Guerra dirige-se ao Exército”, é contundente. “Qualquer perturbação da ordem será uma brecha para os inimigos da Pátria, para os adversários do regimen democrático que nos congrega” afirmou o general Gaspar Dutra.

Ditadura sem partido

“Médico e monstro” da vida real, Vargas se supera na arte de produzir maldades com uma de suas “personas” e “bondades” com a outra.

O “médico” avisa ao povo inculto, maltrapilho e feio que daquele momento em diante tudo será diferente. Partidos e políticos foram descartados porque com eles não teria ordem e sem ordem não haveria progresso, como reza a cartilha positivista que adotava. A mesma, aliás, que rege o governo Temer.

Tanto melhor, prometia Vargas. Sem o empecilho dos indesejáveis intermediários, o povo ganhara um canal direto com ele. Ele alçara o povo ao poder. Estimula os atarantados brasileiros, e em especial os cariocas, a lhe enviar cartas com quaisquer reivindicações que desejassem e ele os atenderia na medida do possível.

A população, crédula e esperançosa, atende à proposta. A caixa de correios do Palácio do Catete passa a lotar com pedidos desde os mais singelos, como o apelo de eliminar dois turnos para os funcionários públicos que levam prejuízo tendo de almoçar na rua, em vez de fazê-lo em casa, até recomendações contrárias à criação do salário mínimo, temendo desemprego.

O “médico” também cria despachos pessoais com os zés ninguém, um dia por semana, como fazia Dom Pedro II, em razão do que se formam longas filas na calçada da rua do Catete. Donas de casa, desempregados e desocupados atravessam horas intermináveis sentados em cadeiras lendo jornal ou jogando conversa fora, à espera da sua vez de falar com o presidente em carne e osso.




O plano fictício, que justificou a decretação do Estado Novo, na página do jornal (Foto: Imagens do Estado Novo)

Filinto “assim” com Getúlio

O “monstro” manda prender Jorge Amado e José Lins do Rego a 9 de novembro de 1937 e no dia 11 seus livros, supostamente “comunistas”, são queimados em praça pública, repetindo fogueiras que Hitler organizava em Berlim.

O “monstro” dá carta branca para Filinto Muller, o superchefe de polícia, que obtém confissões e delações sob torturas tais como:

1) arrancar unhas com alicate;

2) enfiar alfinetes sob as unhas;

3) espancar mulheres e filhos de presos;

4) queimar testículos com maçarico;

5) extrair dentes com alicate;

6) introduzir arame aquecido na uretra;

7) queimar as pontas dos seios com charutos ou cigarros.

Filinto Muller está sempre presente ao lado de Getúlio, em todas as ocasiões, festivas ou administrativas, aparece mais em filmagens do que qualquer ministro, e mais até do que dona Darcy, a mulher de Vargas, apesar de ser apenas o chefe da polícia.

O contraste entre os dois é flagrante. Filinto é sempre, em todas as rodinhas, em qualquer evento social, o mais alto e o que tem mais cara de poucos amigos; em todas as rodas em que aparece, Getúlio é sempre o mais baixo, e nunca deixa de sorrir, quando não gargalha. Jamais foi flagrado pelas câmeras do DIP com a cara fechada ou preocupada.

Ritual piromaníaco

Embora tenha assumido dessa vez sem cerimônia de posse com pétalas de rosas nem juramento à Constituição, 17 dias depois do golpe Vargas começa a cumprir aquela que foi definida por Oswaldo Aranha, em carta a seu irmão, como “a Constituição de um anormal”.

Em grandioso evento na Praia do Flamengo, com missa solene comandada num imenso altar pelo cardeal Sebastião Leme – aquele que em outubro de 1930 convencera o então presidente Washington Luís a abandonar o Palácio do Catete cercado pelas tropas de Vargas – e um coro de dezenas de senhoras compenetradas regido pelo maestro Heitor Villa-Lobos, todas as bandeiras estaduais são queimadas numa pira, por um grupo de moças bonitas, numa demonstração de que daí em diante, como determinava a Constituição de inspiração fascista, haveria uma só bandeira tremulando nos mastros e nas mãos dos escolares: a bandeira nacional.

“Uma só bandeira, um só hino e um só líder” – proclama Francisco Campos em discurso na cerimônia barroca e surrealista, muito semelhante à Primeira Missa descrita por Pero Vaz de Caminha.

O corolário da nova ordem é a proibição de que imigrantes alemães, japoneses ou italianos falem no seu idioma em público, todas as escolas são obrigadas a ensinar exclusivamente em português, as bandeiras nazistas são vetadas e a sucursal do Partido Nazista em Blumenau, fechada – nenhum partido é nenhum partido.

A notícia não deve ter sido bem digerida em Berlim.

 “O governo foi deposto”! 

Nem todos estão satisfeitos com o novo regime. As promessas a Plínio Salgado – de que a Ação Integralista seria preservada e ele viraria ministro – não foram cumpridas.

Na madrugada de 11 de maio de 1938, assim que Vargas se recolhe para dormir, uma tropa de galinhas verdes assemelhada a um “Exército de Brancaleone” perpetra mais um de seus ataques tragicômicos: invade o Palácio Guanabara, residência oficial de Vargas com o intuito de “tomar o poder”. E matá-lo, é claro, só assim poderiam ocupar a sua cadeira.

“Não havia ainda adormecido” escreve Getúlio no diário “quando sobressaltou-me cerrada fuzilaria e descargas de metralhadora. O palácio, entregue à defesa precaríssima de alguns investigadores de polícia, do policial de serviço e de pessoas da família”.

No sufoco, a filha de Vargas, Alzira, pede ajuda aos ministros e se surpreende com a falta de reação, como escreveria depois em seu diário:

“Goes Monteiro me disse nada poder fazer porque também estava cercado em seu apartamento. Francisco Campos transmitia palavras de solidariedade admirativa e passiva. Filinto Muller confirmou o prévio envio de tropas e espantou-se de que não houvessem chegado ao destino”.

“Não fiquei sabendo como nem porque”, relatou Alzira em suas anotações, “o general Eurico Gaspar Dutra foi o único membro do governo que conseguiu atravessar a trincheira integralista. Não pude apurar também o que aconteceu depois que se retirou, novamente transpondo o cerco do inimigo. Aconteceu muita coisa mais que eu soube, que me contaram, que descobri, que li. Mas não vá o sapateiro além do sapato. Eu não vi”.

Num comunicado, à uma da manhã, um porta-voz do grupo anuncia vitória via rádio:

“Tomamos o poder! O governo foi deposto! Brasileiros, a postos”!

Somente quatro horas depois da invasão chegam as tropas de Filinto. Sete integralistas são executados a tiro de revólver nos jardins do palácio. Severo Fournier, o ex-tenente que lidera o movimento apesar de não ser integralista, é encarcerado numa masmorra úmida.

Mais de 1500 pessoas são presas nos dias seguintes, fossem ou não integralistas. Octavio Mangabeira, que contestara a instauração do estado de guerra; o ex-presidenciável Armando Salles de Oliveira e Júlio de Mesquita Filho, dono de O Estado de S. Paulo, são obrigados a partir para o exílio.

Plínio Salgado, no entanto, presumível mentor do putsch não é processado na Lei de Segurança Nacional. Segue intocável em seu exílio voluntário em Portugal.




Como na Alemanha nazista, Estado Novo envolveu queima de livros em praça pública (Foto: Imagens do Estado Novo)

Sou neutro

O “médico” presenteia os “trabalhadores do Brasil”, jargão usado em seus discursos, com a carteira de trabalho e a CLT – Consolidação das Leis do Trabalho; mas o “monstro” manda copiá-la da Carta di Lavoro do regime fascista de Mussolini e não do trabalhismo inglês, por exemplo.

Depois de 1939, quando a guerra estoura na Europa, o “monstro” tenta manter a neutralidade:

“Não há motivo, moral ou material, para tomar partido por qualquer dos povos em luta. O que nos cumpre é manter estrita neutralidade ativa e vigilante na defesa do Brasil. Ninguém pode dominar a consciência alheia e, em consequência dela, cada qual pode ter as suas simpatias, mas a obrigação de todo brasileiro patriota é conduzir-se de modo a preservar o Brasil da guerra”.

Quando os nazistas invadem Paris, Vargas faz discurso que remete ao poderio da Alemanha de Hitler:

“Os povos vigorosos, aptos à vida, necessitam seguir o rumo das suas aspirações, em vez de se deterem na contemplação do que se desmorona e tomba em ruínas. Marchamos para um futuro diverso de tudo quanto conhecíamos em matéria de organização econômica, social e política e sentimos que os velhos sistemas e fórmulas antiquadas estão em declínio. Assistimos à exacerbação dos nacionalismos, as nações fortes impondo-se pela convicção da própria superioridade”.   

A declaração choca as autoridades americanas, que tentam se reaproximar do governo brasileiro, que no período de Vargas se transformou em principal parceiro comercial da Alemanha.

Por sugestão de Oswaldo Aranha, embaixador nos Estados Unidos, Vargas tenta desmentir a versão então disseminada de que seria germanófilo, mas apenas repete que o Brasil deve permanecer neutro na guerra que Hitler promove contra os vizinhos europeus.

Em outras palavras, Vargas evita até onde pode aliar-se aos americanos para derrotar o nazismo. A neutralidade era a melhor posição para ele porque sabia que, apoiando qualquer dos dois lados, a tendência seria perder.

Apoiar a Alemanha por meio de um pacto não seria viável; apoiar os Estados Unidos, que representavam o lado democrático do mundo, poderia ser uma armadilha para o seu governo.

Muy amigos

Os alemães e italianos impõem a Vargas a necessidade de se definir, pois passam a torpedear navios brasileiros, primeiro mercantes e depois de passageiros, provocando mais de 600 mortes.

A população, enfurecida, vai às ruas exigir a declaração de guerra contra a Alemanha. Espaços públicos da capital federal são invadidos por multidões de homens e mulheres, jovens e adultos, de todas as camadas sociais, carregando cartazes toscos contra Alemanha. A pressão é enorme. Embora fossem espontâneas, as demonstrações precisam de autorização do chefe de polícia. Uma delas, organizada por estudantes dispostos a ridicularizar os dois ditadores, alemão e italiano, abre uma crise no governo. Filinto Muller proíbe a passeata, mas Oswaldo Aranha a libera. Filinto pede demissão. Getúlio, afastado do governo devido a um acidente de automóvel, não participa desses acontecimentos.

“Brazil” e outras bossas. Há também o poder de sedução de Washington. Vargas é paparicado de todas as formas, recebe homenagens em banquetes, os americanos lançam ao mar um navio chamado Brazil, uma linha direta entre Nova York e o Rio de Janeiro, com a função específica de transportar mercadorias e passageiros da elite brasileira. Em retribuição, Vargas oferece 300 mil sacas de café de presente para as tropas americanas que lutam na Europa.

A simpatia por Hitler é mitigada em razão dos ataques nazistas no mar, Vargas não resiste à sedução do presidente americano Franklin Delano Roosevelt e, em troca de uma base americana em Natal, de onde os aviões americanos decolariam para os combates na Europa, ganha de presente a usina siderúrgica de Volta Redonda.

Roosevelt lhe oferece ainda um bônus extra. Envia ao Brasil, em 1942 o consagrado escultor John Davidson para esculpir o seu busto em bronze. Getúlio confessa ao diário que posa meio a contragosto, suavemente constrangido, mas está sorridente na cena registrada pelas câmeras do DIP.

É o reconhecimento oficial da ditadura Vargas pelo presidente do país que se torna o mais poderoso do mundo.




Em outubro de 1945, Getúlio deixa o Palácio da Guanabara após renunciar ao poder (Foto: Imagens do Estado Novo)

“Otário” por “operário”

A máquina de propaganda do DIP, comandada por Lourival Fontes, trabalha a todo vapor. Obras de contestadores do regime, como Graciliano Ramos e Monteiro Lobato, são banidas das bibliotecas e das livrarias e os autores, encarcerados.

Compositores são estimulados a fazer sambas e marchinhas ufanistas, com elogios ao patriotismo e a Vargas. Ataulfo Alves é obrigado a mudar os versos “o bonde de São Januário leva mais um otário, sou eu que vou trabalhar” para “o bonde de São Januário leva mais um operário, sou eu que vou trabalhar”. Filmes como O Grande Ditador, de Charles Chaplin são proibidos, tal como ocorreu na Alemanha.

A nova e grande avenida que começa a rasgar o centro do Rio é batizada com o nome Presidente Vargas. É a primeira vez em que se dá a uma avenida o nome de uma autoridade viva. Todas as cidades do País passam a ter ao menos uma rua Getúlio Vargas. Menos São Paulo.

Multidões saúdam o ditador nas grandes festas nacionais, como a de 7 de setembro, em São Paulo, onde ele desfila em companhia do interventor Adhemar de Barros, que alguns anos depois ficaria conhecido nacionalmente como aquele que “rouba, mas faz”.

“À feição de Jesus”.  O ditador passa a ser objeto de adoração, como se lê numa carta enviada pelo Sindicato dos Bancários de Bagé, em que é comparado a Jesus Cristo:

“V.Excia, bom, magnânimo e justo, mas, acima de tudo, magistrado sem mácula, sem ódio e sem medo, à feição de Jesus, pregando o bem e ensinando o amor serenamente, estoicamente e convictamente para que o Brasil seja, de fato e de direito a Terra de Santa Cruz e os brasileiros os apóstolos da fraternidade moral, cívica e intelectual concederá que lhe façamos um apelo e lhe dirijamos uma solicitação porque cremos, pia e fortemente nos salutares e magnânimos propósitos que sempre e em toda parte inspiraram V.Excia”.    

O Brasil não pode e não deve se esquecer disso hoje e pelos próximos 80 anos.

“Brasil, tu és o berço doirado
Do índio civilizado
E abençoado por Deus...
Brasil, és terra de toda gente
Gigante do continente,
Orgulho dos filhos teus”...

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