Brasileiros

Um “eu” que fala mais alto

Página B - Brasil

Há apenas quatro meses Walleria Suri, de 39 anos, se submeteu à cirurgia de readequação sexual. Deficiente visual em decorrência de uma doença degenerativa, ela se aposentou no setor bancário e hoje faz palestras de capacitação sobre identidade de gênero
Walleria Suri
Publicado em: 19/06/2016 - 00:00Alterado em: 27/10/2017 - 18:42
Walleria Suri diz que é preciso ajustar o corpo à mente para eliminar a inadequação existencial.

Quando pensamos no ser homem e no ser mulher, estabelecemos a separação mais fundamental de classificação dos seres humanos. Por ser óbvia e se fazer constatada logo no nascimento – e até antes. “Parabéns, mamãe, esse é seu filho.” Ou: “Essa é sua filha”. E daí os pais ou responsáveis se encarregam de ensinar a vida apropriada à menina e a vida apropriada ao menino. E isso deveria seguir dessa forma sem complicações para ninguém. Mas tem um “eu” na história. Um “eu” com vontades, desejos, instintos e elaborações de si mesmo. Elaborações que lhe dão a capacidade de reconhecer o gênero que condiz de forma mais harmoniosa e represente com maior autenticidade seus instintos, vontades e desejos.  Dessa forma, ser homem ou mulher ultrapassa a anatomia física do nascimento. E ultrapassa também os condicionamentos sociais convencionais. É algo inerente ao autorreconhecimento do indivíduo.

Eu não sou mulher porque pinto as unhas, uso saltos e tenho vagina. Sou mulher porque todas as minhas elaborações existenciais me associam ao feminino. Por isso é algo que está além do corpo, e não determinado por ele. Minha identidade de gênero é definida por um sentimento de encontro com meus impulsos vitais. A influência do meio pode conduzir as possibilidades de vivência e manifestação da minha identidade de gênero, mas também não é o suficiente para determiná-la. A identificação do meu gênero se dará por meio do reconhecimento dos elementos que me constituem. Reconheço o que sinto como legítimo de minha concepção como ser. Reconheço o que penso como uma elaboração legítima daquilo que sinto. E preciso reconhecer meu corpo como meio de expressão legítima de todos os meus sentimentos pensados e elaborados, na forma de vontades, desejos e emoções.

Então, só poderei vivenciar uma identidade de gênero de forma saudável quando meu sentir, meu pensar e meu expressar (corpo) apontarem para a mesma direção. Não importa qual seja a direção. Basta que esses elementos estejam em harmonia para haver uma identidade de gênero saudável. Pois o grande sofrimento interior das pessoas transexuais é ter de conviver com a constante inadequação existencial, causada por uma imensa sensação de desconforto dentro de si.

Por isso a transformação física é tão necessária e importante para as mulheres transexuais e homens trans. Não há problemas com o sentir e o pensar. Esses funcionam satisfatoriamente. Por isso não dá para falar em transtorno, ou atribuir qualquer tipo de patologia, para essa forma de construção psíquica. Apenas há de se adequar o corpo com o gênero da autoidentificação. Pois o sentir e o pensar se estabelecem de uma forma impossível de serem compulsoriamente modificados. Mesmo que os papéis de gênero sejam construções culturais humanas, o que estabelece a identificação do indivíduo com um determinado gênero, ou com nenhum, é uma escuta interior que foge ao alcance cultural. Diz respeito aos mais profundos instintos humanos que se formam de maneira totalmente livre. Podendo ser por uma vida toda reprimidos, mas nunca condicionados. 

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