Brasileiros

O nazismo e a “arte degenerada”

Opinião - Coisas da História

Tudo que não se encaixasse nos critérios de “beleza” e “superioridade” da raça ariana entrou para a exposição-denúncia de Hitler
Luiza Villaméa
Publicado em: 03/10/2017 - 14:26Alterado em: 05/10/2017 - 15:13
Fila para a mostra das grandes obras execradas pelos nazistas (Foto: Reprodução)

A fila dobrava o quarteirão. Tinha até criança entre o público ávido por visitar a mostra Arte Degenerada (Entartete Kunst), aberta em junho de 1937 em Munique. Espalhadas por dez salas, encontravam-se 600 obras incompatíveis do ideal nacional-socialista. Apreendidas em 32 museus alemães, estavam expostas de forma desordenada, às vezes junto a comentários sarcásticos ou imagens de pessoas com deformidade física.

“Venha e julgue por você mesmo”, anunciou na abertura Adolf Ziegler, presidente da Câmara de Artes Plásticas do Terceiro Reich. “Vemos ao nosso redor os fetos da loucura, do descaramento, da incompetência e da degeneração.” Pintor predileto de Hitler, Ziegler tinha ficado encarregado de organizar a exposição, depois de vasculhar museus e confiscar toda a arte “decadente” que encontrasse pela frente.

Entre os criadores da “arte degenerada” exibida na mostra estavam os alemães Emil Nolde, Ernst Barlach e Ernst Ludwig Kirchner, além de estrangeiros, como Marc Chagall, Paul Klee e Wassily Kandinsky. Levada depois a outras cidades, a mostra recebeu mais de dois milhões de visitantes. O curioso é que, em paralelo, os nazistas promoveram uma mostra ao gosto “ariano”, que atraiu apenas um quarto do público.




Hitler diante de instalação crítica ao dadaísmo, na exposição de 1937
(Foto: Reprodução)

No ano seguinte, a conturbada relação entre o nazismo e as artes envolveu uma ordem para destruir cinco mil peças de “arte degenerada” na sede do Corpo de Bombeiros de Berlim. “Nenhum quadro será poupado”, registrou em seu diário Joseph Goebbels, ministro de Propaganda do Terceiro Reich. Até hoje não se sabe se a destruição de fato ocorreu, pois, ao contrário da queima de livros de 1933, não há testemunhas nem fotos do episódio.

O fato é que, em junho de 1939, um leilão promovido pelos nazistas movimentou a cidade suíça de Lucerna. Foram a pregão 108 quadros e 17 esculturas de “arte degenerada”. Entre as obras leiloadas, estavam preciosas telas de Henri Matisse, Marc Chagall, Paul Gauguin e Pablo Picasso, que escaparam da devastação na Europa ao serem integradas a grandes coleções americanas ainda antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial.

No pós-guerra, Ziegler, o organizador da mostra Arte Degenerada, caiu no mais absoluto ostracismo. Quanto a Hitler, passou a ser lembrado pela barbárie e crimes contra a humanidade. No campo das artes, a grande referência é que, por duas vezes, em 1907 e 1908, o líder nazista tentou entrar na Academia de Belas Artes de Viena. Nas duas ocasiões, foi barrado no exame de admissão.

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