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A volta por cima de Kay Graham

Opinião - Coisas da História

Publisher do The Post deu uma guinada na vida aos 46 anos, quando se tornou a mulher poderosa retratada no novo filme de Steven Spielberg
Luiza Villaméa
Publicado em: 06/02/2018 - 15:49Alterado em: 06/02/2018 - 15:51
Bradlee e Kay comemoram vitória do jornalismo sobre governo Nixon – Foto: Reprodução/The Washington Post

Katherine “Kay” Graham nunca pensou em comandar o The Washington Post, jornal adquirido em 1933 pelo pai, o financista Eugene Meyer. Em 1946, quando Meyer colocou Phil Graham, marido de Kay, na presidência do The Post, ela nem pestanejou. Achou que estava certíssimo.

Kay também não pestanejou quando Phil virou sócio do jornal. Naquela altura, ela atuava apenas como a anfitriã perfeita de festas disputadas pela elite americana, a começar pelo casal Jackie e John Kennedy. Fora isso, dedicava-se à criação dos três filhos – Elizabeth, Don e Stephen.

E a vida seguiu repleta de glamour até que Phil pediu o divórcio para ficar com uma jovem jornalista. Kay decidiu que abriria mão do marido, mas não do jornal. Contou à amiga Luvie Pearson que buscava uma forma de segurar o The Post até os filhos estarem prontos para assumir.

- Não seja boba, querida. Você pode fazer isso, respondeu Luvie.

- Eu? Impossível. Eu certamente não poderia fazer isso.

- É claro que pode. Tem todos os genes... Vem sendo colocada para baixo durante tanto tempo que não reconhece o que você pode fazer, argumentou Luvie.

O diálogo, transcrito na autobiografia Uma História Pessoal, pela qual Kay ganhou o Prêmio Pulitzer em 1998, reflete o baixo conceito que ela fazia de si mesma. Ao mesmo tempo, sinaliza a posição praticamente nula da mulher no mundo empresarial da época.

Phil, que no passado superara fortes crises de depressão, saiu de casa. Ao voltar, meses depois, passou por nova crise e acabou se matando, com um tiro de espingarda, na fazenda da família, na Virgínia. Era agosto de 1963. Aos 46 anos, avessa à ideia de vender o jornal, Kay assumiu o The Post.

Não demorou a contratar o editor Ben Bradlee, com quem fez uma parceria marcante na história do jornalismo. Em junho de 1971, quando a Justiça proibiu o concorrente The New York Times de publicar papéis comprometedores para o governo, Bradlee colocou sua turma para apurar.

Conhecidos como “Documentos do Pentágono”, os relatórios revelavam como o governo vinha mentindo sobre a participação americana na Guerra do Vietnã. Um dos principais interessados em barrar a publicação era o secretário de Defesa Robert McNamara, amigo do peito de Kay.

Bradlee, por sua vez, dependia do sinal verde de Kay para publicar as informações, que seguramente desencadeariam a ira do governo Richard Nixon. No filme The Post – A guerra secreta, Steven Spielberg mostra os bastidores da apuração e os riscos envolvidos na empreitada.

Kay dava uma festa em sua casa, quando mandou rodar as máquinas, como relatou em sua autobiografia: “Assustada e tensa, tomei um grande gole e disse: ‘Vá em frente, vá em frente, vá em frente. Vamos, vamos publicar’ ”. O resto é história, a começar pela demolidora reportagem que se seguiu, sobre o Watergate, que acabou por provocar a renúncia de Nixon.

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Veja o trailer oficial de The Post - A guerra secreta

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