Brasileiros

AI-5, Verocai e o nó na garganta

Cultura
- Quintessência

Lançado em 1972 e cultuado somente três décadas mais tarde, o primeiro álbum solo do maestro Arthur Verocai é um retrato pungente de dias sombrios, combatidos com lirismo e astúcia
Marcelo Pinheiro
Publicado em: 15/12/2017 - 16:31Alterado em: 18/01/2018 - 15:40
O maestro Arthur Verocai em foto de bastidores da produção do álbum de 1972. Foto: Fernando Bergamaschi / Divulgação Continental

Em 1972, auge da barbárie promovida depois do advento do AI-5, decretado às vésperas do governo do general Emílio Garrastazu Médici, maestro sórdido de um período marcado por torturas, desparecimentos, exílios, mortes, arbitrariedades de toda sorte e opressão máxima às manifestações culturais do País, curiosamente, a MPB, astuta, driblava censores e o cálice amargo do silêncio imposto por decreto para, assim, empreender os primeiros passos de sua consolidação histórica como gênero aglutinador da canção popular produzida no Brasil pós-bossa nova.

O advento da MPB, estabelecido sobretudo com a produção de um sublime quarteto de compositores – Caetano, Gil, Chico e Milton – instaurou também um significado bruto de capitulação de uma era. Adeus M.P.M. Música Popular Moderna. Rótulo, a meu ver mais certeiro, que antecedeu o famigerado MPB, nascido em berço icônico. Como bem definiu a letra de Ronaldo Bastos para a canção de Milton Nascimento lançada em Clube da Esquina, de 1972, mesmo ano em que foi às lojas o álbum homônimo de Arthur Verocai, tema de hoje em Quintessência: nada seria como antes. E o que havia ficado para trás, no olhar consistente do retrovisor de nossa música, não era pouco…

O surgimento da bossa nova como gênero – consolidado, em 1959, com Chega de Saudade, ápice da experiência prévia de outros pioneiros da seara, como Johnny Alf, Luiz Bonfá, Dick Farney e João Donato – não legou tão somente revoluções ao cancioneiro popular do Brasil, mas à seara instrumental produzida no País. Em uma década, os anos 1960, nossa música de acento mais democrático passou por um turbilhão de informações e transformações jamais visto, ou melhor, ouvido. Foi da bossa ao samba-jazz; da jovem guarda à pilantragem; da canção de protesto à tropicália; do rock, pueril e americanizado, ao rock “bandido” dos anos 1970; dos deuses do Olimpo da MPB aos ídolos da chamada música brega, de campeões de vendas, como Odair José, Luiz Ayrão e Antônio Marcos. Até a chegada da respeitosa sigla MPB, milhares de horas de estúdio foram necessárias para registrar esse mar de transformações. E este 2014, que agora ensaia os primeiros passos, marca o cinquentenário do golpe militar de 1964, fato determinante para a dinâmica veloz dessas mutações, como veremos.

Antes do fatídico 31 de março de 1964, a juventude moderna do País vivia ainda deslumbrada com o novo mundo estabelecido com a chegada da bossa nova. Basta lembrar que somente a derivação instrumental do movimento, o samba-jazz, ou bossa-jazz, como preferem alguns, mereceu registro fonográfico em dezenas de álbuns, hoje clássicos, lançados naquele mesmo ano e até 1967, quando o espectro sombrio do golpe já havia impulsionado uma urgente tomada de consciência. Para a juventude que outrora se deixava seduzir pela crônica idílica de um País tropical, se rebelar em articulações-relâmpago passou a ser mais do que questão de opinião, como defendeu Nara Leão e Zé Keti. Rebelar-se era algo irrecusável e inadiável para muitos. Seguir a contramão da história e dar as costas para o que acontecia no País, no mínimo, denotaria alienação ou reacionarismo.




Capa do LP lançado em 1972 pela Continental

Em 1972, esses dias obtusos, derivados de 1964, eram ainda mais turvos. Já em 1964 compositores antes afeitos às minúcias extáticas do Rio de Janeiro do sol, do céu, do mar e do barquinho, como Edu Lobo e os irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle, passaram a devotar temáticas autorais a questões distantes de suas realidades, como a seca que afligia o povo do Nordeste e as mazelas sociais de outros rincões do País. Crônica honesta de artistas que, para alguns críticos mordazes, viviam as delícias de uma existência abastada na Zona Sul carioca e difundiam um discurso demagógico e retórico. Pouco antes de também demonstrar indignação ao que acontecia com o País, em seus versos, o próprio Paulo Sergio Valle, um dos letristas mais brilhantes de sua geração, provocou essa condição paradoxal em canções como A Resposta, que contém a estrofe “Falar do morro morando de frente pro mar Não vai fazer ninguém melhorar”.

Essa tomada de consciência chegou ao ápice com a chamada canção de protesto, ou canção de participação, cujo ícone maior foi Geraldo Vandré. E o recrudescimento da repressão militar fez com que este fosse caminho irreversível para a música popular melhor representada pela bossa nova, que definhou a cada novo acorde maior empunhado em violões que faziam o papel de arma, como o célebre instrumento de Woody Guthrie que carregava a frase “esta máquina mata fascistas”.

De 1965 em diante, haveria pouco espaço para as intrincadas harmonias da bossa; tampouco para as inventivas experiências instrumentais do samba-jazz. No ano seguinte, a consolidação da jovem guarda e da tríade Roberto-Erasmo-Wanderléa, para alguns historiadores e artistas do período, jogaria a última pá de terra na intensa movimentação egressa do final dos anos 1950.

Em entrevista a Brasileiros, o pianista Dom Salvador lembrou os dias que se sucederam ao lançamento do primeiro álbum de seu Rio 65 Trio: “O disco saiu no final de 1965. No ano seguinte, essa cena toda de samba-jazz havia morrido e as noites no Beco (o Beco das Garrafas, em Copacabana) tinham acabado. Roberto Carlos e iê-iê-iê para todos os lados…”.

Também em entrevista a este repórter (leia), Marcos Valle reiterou a irreversível tomada de consciência, em oposição ao que muitos consideravam alienação da jovem guarda: “Quando lancei o Samba Demais (seu primeiro álbum), em 1963, vivíamos os últimos anos de Brasil democrático. Ainda havia aquele espírito de um País moderno, herdado de Juscelino, e a expectativa de transformações ainda maiores com o Jango. Quando chegou a ditadura, começou a haver uma obrigação de posicionamento, porque o momento exigia isso. Nossa liberdade estava cerceada e a gente tinha, de alguma maneira, que combater aquilo”.

O caminho de não resignação chegou ao ápice com as anárquicas provocações da Tropicália, surgida às vésperas do AI-5. Depois de 13 de dezembro de 1968, quando foi imposto o mais temido ato in(cons)titucional da ditadura, as aspirações de toda uma geração sucumbiram às trevas e ao beco sem saída da clandestinidade. Caetano e Gil, artífices do movimento brevemente “enterrado” por eles, mas que, no entanto, legou o álbum-manifesto Tropicália ou Panis et Circensis, foram presos e, depois, exilados em Londres. Quem por aqui ficou experimentou ostracismo, ou fez frente de guerrilha, como Gal Costa, escoltada pelo poeta Waly Salomão no contundente espetáculo Fatal – Gal a todo vapor.

Foi nesse contexto sombrio que um ex-estudante de Engenharia, Arthur Verocai, jovem compositor, com experiência anterior em diversos festivais estudantis, integrante do carioca MAU (Movimento Artístico Universitário) e arranjador celebrado, legou ao Brasil álbum dos mais luminares do período, seu primeiro LP autoral, uma preciosidade, plena de proposições musicais requintadas e impregnado de um lirismo amargo, graças ao texto urgente e preciso de Vitor Martins. Parceiro regular de Ivan Lins, um dos expoentes do MAU, de quem Verocai arranjou o álbum de 1971 para o selo Forma, Martins armou-se de metáforas e manobras estilísticas para dar ao álbum homônimo do maestro um tom sublime de denúncia.

Em entrevista (leia, na íntegra) a este repórter, horas antes de apresentar no Brasil o repertório do álbum de 1972 pela primeira vez, no início de 2011, Arthur enfatizou o viés político das letras de Vitor: “Como a censura estava no auge e a barra pesadíssima, ele escreveu letras bem metafóricas, como Pelas Sombras, que dizia ‘Quem viaja nas sombras / Por trás dos seus ombros / Por trás dessa blusa de lã’, ou Presente de Grego (da frase “Na garganta um nó underground, ferido”), que eram exatamente o que significava a ditadura para o povo brasileiro: um presente de grego. Ninguém entendia nada do que Vitor queria dizer. Nem a censura, que liberou tudo. Um troço desse, que ninguém entendia, não podia mesmo vender”.

Ouça abaixo, na íntegra, o álbum epônimo de Arthur Verocai

Em tempo:

Em 2011, a produtora Mochilla, a mesma que reverenciou Verocai na série Timeless, lançou uma mixtape organizada pelo DJ Nuts, um dos mais devotos pesquisadores da música brasileira da segunda metade do século 20. Nela, o DJ compila todos os trabalhos realizados por Arthur. Ouça

Originalmente publicado no site da revista Brasileiros em 9.1.2014

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