Brasileiros

Airto Moreira: de Itaiópolis para o mundo

Cultura
- Quintessência'

Lançado em 1973 nos Estados Unidos, 'Fingers' consagrou o músico catarinense como um dos mais influentes percussionistas do jazz moderno
Marcelo Pinheiro
Publicado em: 06/12/2017 - 14:03Alterado em: 07/12/2017 - 03:33
Detalhe da capa do álbum "Identity", lançado pelo percussionista brasileiro nos Estados Unidos em 1975. Foto: Divulgação / Arista Records Inc.

Logo após lançar Fingers, seu quarto álbum autoral produzido nos Estados Unidos, o baterista e percussionista Airto Moreira foi laureado com honraria das mais relevantes: os críticos da revista Downbeat (espécie de “bíblia” do jazz e do blues norte-americano, que saiu do prelo, pela primeira vez, em 1934) se reuniram para discutir os nomes que estariam no topo da lista de melhores músicos de 1973 e chegaram à conclusão de que, em meio ao verdadeiro “quem-é-quem” da premiação, havia nela uma séria lacuna. Foi então que decidiram criar uma nova categoria, Melhor Percussionista. E o primeiro prêmio foi dedicado a Airto Moreira, catarinense, nascido na pequena Itaiópolis, que conquistou o mundo. 

Profissional, desde os 13 anos, quando, vivendo em Curitiba, no Paraná, passou a integrar conjuntos de bailes e de jazz, como baterista, percussionista e cantor, àquela altura da premiação da Downbeat, aos 31, Airto tinha milhares de horas de palco e estúdio, no Brasil e no exterior. Currículo que, por aqui, conferiu trabalhos prestados a combos instrumentais históricos – o Sambalanço Trio, de Cesar Camargo Mariano, o Sambrasa Trio, de Hermeto Pascoal, e o Quarteto Novo, que reunia Airto, Hermeto, o contrabaixista Théo de Barros e o grande guitarrista Heraldo do Monte.

Em território estrangeiro desde 1967 – quando partiu para os Estados Unidos com sua mulher, a cantora Flora Purim – Airto passou a ser convocado para tocar com grandes nomes da cena local, como o trombonista J.J. Johnson, o pianista Cedar Walton e o contrabaixista Walter Booker. E foi justamente Booker que, no final de 1969, recomendou Airto a um certo trompetista chamado Miles Davis, criativamente imerso, à época, num caldeirão de experimentações com fusões rítmicas. Foi servindo ao gênio do jazz norte-americano, que legou obras-primas como Miles Ahead, Bag’s Groove e Kind of Blue, que Airto passou a ser referência e curinga de outros grandes músicos.

Ao participar das gravações de Bitches Brew e do show feito por Miles em 1970 durante o tradicional festival britânico da Ilha de Wight (na ocasião, o percussionista apresentou Jimi Hendrix a Gilberto Gil, conforme relembrou o baiano em entrevista a Brasileiros), Airto despertou também instintos comerciais de executivos de gravadoras especializadas em jazz contemporâneo.

Naquele mesmo ano, a convite do selo Buddah Records, ele entrou em estúdio para registrar seu primeiro álbum solo, Natural Feelings. Em 1971, o sucessor Seeds on The Ground foi lançado pelo selo Cobblestone. O álbum registra o encontro de Airto com o gigante do contrabaixo Ron Carter e músicos brasileiros do primeiro-time: Dom um Romão (bateria), Flora (aliás, ex-mulher de Dom Um, antes de se casar com Airto) e, uma unânimidade, o bruxo Hermeto Pascoal.  




Capa do álbum "Fingers". Foto: Divulgação / CTI Records

Em 1972, ocasião do lançamento de Free, dos trabalhos mais celebrados da carreira solo de Airto, o percussionista experimentou outros três momentos divisores: o ingresso nos supergrupos Weather Report, de Jaco Pastorius, e Return to Forever, de Chick Corea (neste, ao lado de Flora); e sua estreia no requintado selo CTI – sigla para Creed Taylor Incorporated em referência ao ex-produtor da Verve Records e fundador da Impulse!, que criou o novo selo, verdadeiro celeiro de grandes experimentações,  que acolheu parte significativa da vanguarda do jazz naquele início de anos 1970.  Com o lançamento de Fingers e a distribuição generosa da CTI, Airto tornou-se cada vez mais popular nos EUA.

Bem menos introspectivo do que seu antecessor, energético e rico em sonoridades brasileiras, Fingers é dos álbuns mais cultuados na difícil seara do jazz-fusion (geralmente afetada por virtuosismos e tecnicismos excessivos). Produzido pelo próprio Creed Taylor, no mítico Van Gelder Studios, em abril de 1973, Fingers conta com a guitarra afiada de David Amaro – americano, de ascendência mexicana, que também toca violão de 12 cordas – e marca também parceria das mais felizes com três músicos do quarteto uruguaio Opa.

Radicado nos EUA no início dos anos 1970, o Opa era formado pelo grande percussionista, cantor e compositor Rubén “El Negro” Radá (autor da faixa que dá título ao disco, gravada por ele no grupo El Totem), o baixista Ringo Thielmann, e os irmãos Jorge Fattoruso (bateria) e Hugo Fattoruso, que além de tocar órgão, sintetizador e harmônica, é também autor de três dos sete temas do disco.

Além de Fingers, Paraná, Wind Chant e Romance of Death (as três composições de Hugo) o álbum reúne um tema de Flora, San Francisco River, outro dela em parceria com o marido, Merry Go-Round, e um clássico escrito por Airto, Tombo In 7/4, que até hoje inspira um sem-número de releituras.

A partir do segundo ano de existência do prêmio de Melhor Percussionista, além dos críticos, a votação da Downbeat, como é praxe para as outras categorias, passou a contar também com a opinião dos leitores. Nos últimos 40 anos, divergindo ou coincidindo com o crivo de ambos, Airto já esteve no topo da lista por mais de 20 vezes. Em 2010, na edição comemorativa de 75 anos da publicação, foi laureado com a honraria “Percussionista Número 1”.

Quando foi recomendado à Cesar Camargo Mariano para a formação do Sambalanço Trio, o baixista, Humberto Clayber disse ao amigo Cesar, no primeiro encontro dos dois, em um inferninho da Rua Major Sertório, no centro de São Paulo, que havia acabado de chegar, de Curitiba, “o maior baterista do mundo”. Incrédulo e vaidoso com seu brilhantismo no piano, Cesar não deu muita bola, mas depois teve de rever sua opinião.

“No primeiro som que saiu daquele trio, eu me arrepiei. Nunca escutei nada igual. Continuamos tocando. Um entrosamento maravilhoso. O Clayber era uma fera no baixo-acústico e o Airto era mesmo um fenômeno! Fiquei emocionado escutando aquilo, já imaginando o que poderíamos fazer juntos”, descreveu o pianista paulistano em sua autobiografia.

Absolutismos à parte, assim como Airto é unanimidade, também é indiscutível: o Brasil sempre foi território fértil para o surgimento de grandes percussionistas – Rubens Bassini, Pedro “Sorongo” Santos, Djalma Corrêa, Paulinho da Costa, Robertinho Silva, Naná Vasconcellos, e tantos outros, que o digam. Em entrevista à Brasileiros, o maestro Julio Medaglia defendeu: “O maior legado da influência africana em nossa música é a sincopa. Ela está no samba, no choro, no xaxado, no baião, e é essa a nossa supremacia em relação à música americana, que vem destruindo suas raízes africanas e, hoje, é majoritariamente baseada nessa coisa do tempo forte e das variações simétricas”.

Por fim, caro leitor, vale lembrar: em meio a tantos êxitos e reconhecimento, 1974 não foi ano dos mais felizes para Airto, haja vista que Flora foi presa em flagrante portando cocaína e amargou 18 meses na prisão. Graças a articulação de grandes músicos solidários a ela, e de veículos de imprensa especializados em jazz (Flora também esteve, por várias vezes, no topo da lista da Downbeat) a cantora foi beneficiada com o regime de liberdade condicional, caso contrário, a pena prevista seria de 12 anos! Ao sair da prisão, ela lançou o álbum Open Your Eyes, You Can Fly (que em tradução livre sugere uma ode à liberdade, porque significa algo como “abra seus olhos, você pode voar”).

A partir daí o caminho desses dois grandes brasileiros voltou aos eixos da normalidade e a música mundial recebeu deles outras grandes contribuições.

Boas audições e até a próxima Quintessência! 

Originalmente publicado no site da revista Brasileiros em 12.12.2013

Ouça, na íntegra, o álbum Fingers

 

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