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'Antes, o Verão': uma reflexão sobre o amor, segundo Carlos Heitor Cony

Cultura
- Memória

Pouco lembrado, o romance foi escrito nos dias turbulentos do início da ditadura militar e compôs um retrato da angústia ao nascer da revolução sexual. Corpo do jornalista e escritor, falecido aos 91 anos, será cremado na próxima terça-feira (9), no RJ
Da Redação
Publicado em: 07/01/2018 - 14:32Alterado em: 07/01/2018 - 14:38
O jornalista e escritor Carlos Heitor Cony. Foto: Divulgação / ABL

Falecido às 23h da última sexta-feira (5), aos 91 anos, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony foi vitimado por falência múltipla de órgãos, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do Hospital Samaritano, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, onde estava internado.

Ocupante da cadeira nº 3, eleito em 23 de março de 2000, na sucessão de Herberto Sales e recebido em 31 de maio de 2000 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier, Carlos Heitor Cony foi redator da Rádio Jornal do Brasil. De 1958 a 1960, tornou-se um dos jovens escritores que colaboram no SDJB (Suplemento Dominical do Jornal do Brasil), com contos, ensaios, traduções. Em 1961, começou a trabalhar no Correio da Manhã, do qual foi redator, cronista, editorialista e editor

Assim que foi informado do falecimento de Carlos Heitor Cony, Marco Lucchesi, presidente da Academia Brasileira de Letras, determinou o cumprimento de luto de três dias e que a bandeira da Academia fosse hasteada a meio mastro.

“Carlos Heitor Cony integra a família dos grandes escritores do século XX. Criou um continente literário fascinante, sagaz, imprevisível. Homem de vasta cultura, jamais se desligou do presente, do Brasil e do mundo. Quase memória é um de seus livros mais visitados e redesenha a figura do pai na literatura brasileira”, afirmou Lucchesi.

Colaborador por mais de 30 anos na revista Manchete, Cony também foi diretor das revistas Fatos & Fotos, Desfile e Ele Ela. De 1985 a 1990, foi diretor de Teledramaturgia da Rede Manchete, produzindo e escrevendo sinopses das novelas A Marquesa de Santos, D. Beja, Kananga do Japão. Em 1993, substituiu Otto Lara Resende na crônica diária do jornal Folha de S. Paulo, da qual era membro do Conselho Editorial. Foi comentarista diário da rádio CBN, participando do programa “Liberdade de Expressão”.

Entre seus prêmios estão: o Prêmio Manuel Antônio de Almeida, com os romances A Verdade de Cada Dia, em 1957, e Tijolo de Segurança, em 1958; Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, em 1996; Prêmio Jabuti de 1996, da Câmara Brasileira do Livro, pelo romance Quase Memória; Prêmio Nacional Nestlé de Literatura, de 1997, pelo romance O Piano e a Orquestra; Prêmio Jabuti de 1997, pelo romance A Casa do Poeta Trágico; Prêmio Jabuti 2000, concedido ao Romance sem Palavras; Os romances Quase Memória e A Casa do Poeta Trágico ganharam o Prêmio “Livro do Ano”, em 1996 e 1997, conferido pela Câmara Brasileira do Livro.

O corpo do jornalista e escritor será cremado na tarde da próxima terça-feira (9) no Memorial do Carmo, no Rio de Janeiro.

Leia a seguir a resenha de Antes, o Verão. Pouco lembrado, o excepcional romance foi escrito nos dias turbulentos do início da ditadura militar e compôs um retrato da angústia ao nascer da revolução sexual.

(com informações da Academia Brasileira de Letras)

Uma reflexão sobre o amor, segundo Cony*




Capa do romance publicado em 1964.
Foto: Divulgação / Civilização Brasileira

Carlos Heitor Cony foi um dos primeiros jornalistas a desafiar abertamente os generais que derrubaram o presidente João Goulart (1917-1976), no levante de 31 de março de 1964. Pelas páginas do jornal “Correio da Manhã”, chamou o movimento golpista de “a revolução dos caranguejos” – para ele, o conservadorismo inato aos “revolucionários” faria com que o País “caminhasse para trás”. Como cronista, Cony despertou a ira dos militares ao se transformar na voz de oposição no calor da hora, quase solitária, pois boa parte da imprensa aderiu ao golpe. Queria fazer com que milhares de leitores praticassem o “exercício vital de oxigenação” do cérebro. 

Autor até então de cinco romances e um livro de crônicas – “O Ventre” (1958), “A Verdade de Cada Dia” (1959), “Tijolo de Segurança” (1960), “Informação ao Crucificado” (1961), “Matéria de Memória” (1962) e “Da Arte de Falar Mal” (1963) –, ele discutia os rumos da “nau” política, social e econômica do País, em meio ao inusitado e preocupante quadro que surgiu com a militarização do poder. No dia 2 de abril, por exemplo, quando Goulart viajava para o exílio a fim de evitar derramamento de sangue, na sua coluna “Da salvação da pátria”, Cony anotou: “Posto em sossego por uma cirurgia e suas complicações, eis que o sossego subitamente se transforma em desassossego: minha filha surge esbaforida dizendo que há revolução na rua”. O jornalista seria processado e preso e amargaria momentos terríveis nos porões da tortura.

Um período intenso em que, surpreendentemente, coincide com a conclusão e o lançamento de um dos seus grandes romances, até hoje pouco lido, nunca citado como um dos melhores textos de ficção da literatura brasileira e um dos que captam com intensidade a atmosfera de uma época febril: “Antes, o Verão”, que a Civilização Brasileira mandou para as livrarias ainda em 1964. Como Cony conseguiu escrever algo tão lírico e pungente sobre o amor, ao mesmo tempo que vivia momentos tão tortuosos, é algo que todo fã do livro gostaria de perguntar a ele, certamente. Na verdade, o conjunto de sua obra, marcado por uma singularidade ousada e original, ainda espera seu merecido reconhecimento. O modo como ele adentra as entranhas da infância em “O Ventre” – história revista com benevolência em “Quase Memória” (1995) – ou a relação de um homem com seu pênis decepado e guardado em um pote com formol em “Pilatos” (1974), são exemplos da força de sua ficção.

Cony é, também, um artesão irrepreensível do gênero romance. Não vacila na estrutura e na precisão, não é um narrador irregular. Seus livros são tecnicamente perfeitos. Mas há muito de especial nesse “Antes O Verão” que o diferencia dos demais, quando destila certo lirismo, na simples história do fim de um casamento. Os protagonistas são Luís e Maria Clara, que chegam à maturidade da relação – 16 anos de casamento – no instante em que realizam o antigo sonho de ter sua casa de praia, em Cabo Frio, Rio, onde poderiam passar os verões com os dois filhos adolescentes que, no restante do ano, estudam em um colégio interno. Aos 40 anos de idade, Luís é um advogado bem-sucedido que sustenta a família sem a ajuda do sogro, um rico empresário que sempre foi contra a união com a filha. Os dois, no entanto, dão-se conta de que o casamento acabou no primeiro verão que passam juntos na casa de praia que construíram com tanto esforço. O conforto da casa em contraste com os ventos fortes carregados de areia e sal e a erosão que cerca o lugar reflete o seu estado de espírito e o fim de um ciclo de sua vida.

O livro começa de modo cinematográfico, com um motorista que anda na chuva em alta velocidade, descontrolado e está prestes a viver uma tragédia, enquanto um segundo narrador lê a carta de amor de despedida que Luís escreveu para Maria Clara, carregada de pesar pelo amor que se acaba, juntamente com a estação mais quente do ano: “Fomos perfeitos – digamos mais uma vez – neste verão que se acaba. Combináramos mais umas férias assim, nossos filhos viriam do colégio, esperaram o ano todo pelo verão, seria cruel negar-lhes isso – e fizemos o sacrifício juntos e juntos estivemos esses meses, como se tudo fosse outra vez durar para sempre, o verão e seus ventos, o mar e suas areias. Seu sal. Tudo passou depressa, parece que foi ontem que aqui chegamos e abrimos essas janelas que agora fecharemos e que tão cedo não se abrirão – e serão mãos estranhas que abrirão essas janelas para outros rostos receberem outros ventos.”

I tom poético de um Cony inspirado marca todo o romance: “Agora é diferente. Dezesseis anos amorteceram o medo, afrouxaram a responsabilidade, tudo correra bem, o amor e a vida, e ali está, seguro, inaugurando a casa nova, sua conquista, sua fortaleza, sua posse. Lá dentro, a mulher espera por ele para ser mais uma vez sua, como naquela primeira noite, mais e melhor até, pois somente agora, com a chegada da meia-idade, ela começa a despertar para os sentidos. Só depois dos partos, depois da certeza de que não mais poderia ter filhos — e ela temia morrer de parto, como a avó — é que começara a corresponder, a tomar as iniciativas, a se superar, dia a dia, noite a noite, posse a posse.”

Adaptado para o cinema em 1968 pelo diretor Gerson Tavares, com Norma Bengel e Jardel Filho nos papéis principais, Antes O Verão, em sua versão escrita, tem um atmosfera que lembra o clima dos melhores filmes da Nouvelle Vague francesa da época, especialmente as histórias de amor intensas e desenfreadas de François Truffaut (1932-1984) ou cerebrais de Eric Rohmer (1920-2010). É cinema puro, visual, eloquente, inquietante e em estado de febre em que imagens se formam com surpreendente nitidez na imaginação de quem lê. Apesar de tratar do fim de uma relação, do ruir de um casamento, é, claro, um livro sobre o amor em toda a sua amplitude e o desafio de encarar uma situação assim. Para o crítico de arte Otto Maria Carpeaux (1900-1978), “Antes, o Verão” colocou seu autor na corrente existencialista de Sartre, Beckett e Moravia. Precisa dizer mais?

* Por Gonçalo Junior, jornalista e escritor

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