Brasileiros

Documentário celebra a arte transgressora da escultora Maria Martins

Cultura
- Cinema

Codirigido por Francisco C. Martins e Elisa Gomes, “Maria – Não Esqueça Que Eu Venho dos Trópicos” reconstitui obra e vida de uma das mais importantes artistas brasileiras dos século 20
Marcelo Pinheiro
Publicado em: 16/11/2017 - 15:39Alterado em: 17/11/2017 - 01:55
A escultora Maria Martins em seu ateliê. Foto: Divulgação / Pandora Filmes

Realizada em 1947 na Galeria Julian Lévy, a mostra Maria levou ao público nova-iorquino as impactantes criações da escultora Maria Martins. Assinado pelo surrealista André Breton, o texto do catálogo especialmente criado para a exposição enaltece a identidade brasileira inerente ao trabalho da artista e dimensiona a força transgressora de suas esculturas.

“Maria, e atrás dela – quer dizer, nela – o Brasil maravilhoso onde sobre os mais vastos espaços ... paira ainda a asa do irrevelado. A porta imensa apenas entreaberta sobre as regiões virgens onde as forças intocadas, completamente novas, do futuro, se escondem. (...) As angústias, as tentações, as agitações, mas também as auroras, as felicidades e mesmo de vez em quando as puras delícias, eis o que Maria, em bronzes como YaciBouina e Yemanjá, soube captar como ninguém em sua fonte primitiva. (...) Ela não deve nada à escultura do passado ou do presente”, defende Breton.

A despeito do reconhecimento internacional, Maria Martins (1894 – 1973), também gravadora, escritora, desenhista e jornalista, segue desconhecida de muitos brasileiros. Lacuna histórica que acaba de ser reparada com o lançamento do documentário Maria – Não Esqueça Que Eu Venho dos Trópicos. Codirigido por Francisco C. Martins e Elisa Gomes, o filme, em cartaz nos cinemas do País a partir desta quinta-feira (16), revela uma personagem fascinante e, com o perdão do clichê, demasiadamente à frente de seu tempo.

No atual cenário sociopolítico do País, com a retração ao conservadorismo que, entre outros alvos, cerceia a autonomia do pensamento feminino, como recentemente vimos no episódio da passagem da filósofa norte-americana Judith Butler pelo Brasil, celebrar a memória de uma mulher transgressora como Maria Martins, mais que um alento, é um exercício de elevação por meio do pensamento crítico, evolutivo e libertário.

Embaixatriz

Nascida em Campanha, no interior de Minas Gerais, Maria Martins cresceu no Rio de Janeiro, onde seu pai, o jurista e político João Luiz Alves, ex-ministro do STF e ex-deputado federal e senador, atuou como secretário de Estado. Exercendo este último cargo, em 1920, Alves foi responsável pela recepção do Rei Alberto da Bélgica, em visita à capital fluminense. No encontro, também esteve presente o diplomata Carlos Martins. Na ocasião, Maria era casada com Octávio Tarquínio de Souza, com quem teve seu primeiro filho. Apaixonado por Maria, Martins foi o pivô da separação da futura artista com Tarquínio de Souza, advogado e historiador prestigiado entre intelectuais brasileiros da envergadura de Gilberto Freyre e Sergio Buarque de Hollanda.  

Abordado no documentário por Nora Martins Lobo, filha de Maria e Martins, e Graça Ramos, autora de Maria Martins: Escultora dos Trópicos, o desquite teve forte impacto emocional na vida da artista, devido à perda da guarda de sua primogênita, Lúcia, decisão apoiada até mesmo pela família de Maria Martins.

“Um padrão de mulher que choca a figura tradicional de mãe, num País ainda muito conservador, sendo que ela foi casada com um intelectual de muito peso, o Tarquínio, que foi muito correto em criar a filha, mas que ficou com a guarda dela e isso formou uma imagem negativa de Maria durante muito tempo”, observa Graça Ramos.

Ao lado de Carlos Martins, que então atuava como embaixador do Brasil na Bélgica, Maria inicia os estudos de escultura em 1926, e aperfeiçoa sua técnica naquele país com Oscar Jespers, ícone do expressionismo. Radicada em Washington D.C. a partir de 1939, Maria decide alugar um apartamento em Nova York, transformado o espaço em seu ateliê, ao mesmo tempo em que dá continuidade aos estudos em bronze com outro mestre da escultura, o cubista Jacques Lipchitz.

Em 1941, também em Nova York, Maria Martins realiza sua primeira mostra individual, na Corcoran Art Gallery. A repercussão positiva da exposição aproxima a artista de alguns pontas-de-lança do surrealismo e do dadaísmo, como Max Ernst, Michel Tapiè, André Masson e Marcel Duchamp.

A despeito da associação com protagonistas dos dois movimentos de vanguarda, como atesta um documento escrito por ela e narrado no filme, Maria era pouco afeita à rótulos. “Sou anti-ismos. Dizem que sou surrealista, mas não aceito nenhum dos ismos tão procurados hoje em dia. É um erro crasso achar que a arte moderna obedece necessariamente a leis pré-estabelecidas ou a estilos pré-definidos. À arte não importa em qual estilo ela foi criada, desde que seja impregnada do espírito do seu tempo e expressa em sua própria linguagem, refletindo uma força tamanha, que se torna trágica, menos na aparência do que em sua essência profunda”, defende a artista.

Em 1948, Maria parte com o marido, em nova missão diplomática, para Paris, Na capital francesa, amplia sua rede de contatos com artistas e intelectuais. Amplamente documentada em Maria – Não Esqueça Que Venho dos Trópicos, a intensa relação com Marcel Duchamp, que extrapolou a esfera da amizade, demonstra o caráter transgressor da inspiradora personalidade de Maria Martins.

Avessa à convenções e protocolos sociais, a artista extraiu de sua relação com Duchamp a plenitude que pode haver no encontro entre figuras de rara exuberância. Teve, inclusive, o despudor de servir como modelo para algumas criações de seu amante, como a obra Prière de Toucher, de 1947, que apresenta o seio de Maria esculpido em gesso, e a instalação Étant Donnés, último trabalho realizado pelo artista – ambas apresentadas no filme, como dezenas de outras esculturas.   

De volta ao Brasil em 1950, retorno em definitivo que amargurou Marcel Duchamp até sua morte em 1968, Maria Martins foi decisiva para a organização da primeira Bienal Internacional de São Paulo, realizada em 1951, e para a fundação do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

A contribuição de Maria Martins para o desenvolvimento do meio artístico no País, no entanto, não a poupou de ser recebida com incompreensão por seus pares. Em meio à consolidação do construtivismo e da arte abstrata no País, o viés surrealista das esculturas metamórficas de Maria, foi classificado como obsoleto por muitos críticos da época, com exceção de dois notáveis que saíram em sua defesa, Mario Pedrosa e Murilo Mendes. Este ambiente hostil levou ao precoce fim da carreira de Maria Martins, que fez sua última mostra no MAM-RJ em 1956.

A artista também é autora de dois livros produzidos em meio à itinerência diplomática do marido e celebrados por apresentar uma visão poética e particular sobre a China (Ásia Maior: o Planeta China) e a Índia (A Índia e o Mundo Novo). Cronista de mão cheia, a escultora também foi colunista do jornal Correio da Manhã. Devido a uma insuficiência cardíaca, a artista faleceu em 27 de março de 1973, aos 78 anos.  

Por meio de depoimentos (alguns deles conduzidos pela atriz Malu Mader) de, entre outros, Michael Taylor (do Museu de Arte da Virginia, EUA), Carolyn Christov-Bakargiev (curadora da dOCUMENTA 13), Veronica Stigger (escritora e crítica de arte) Mário Cravo Filho (artista plástico) e Miguel Rio Branco (fotógrafo e artista plástico), Maria – Não Esqueça Que Eu Venho dos Trópicos, título emprestado de uma das obras de Maria Martins, cumpre um papel essencial: recuperar a história de uma das personagens mais inspiradoras da cultura brasileira do século 20.

MAIS

Leia, a seguir, uma breve entrevista com Francisco C. Martins e Elisa Gomes. 

Como foi despertado o interesse de vocês pela obra e a vida de Maria Martins? A partir desse interesse recíproco, como e quando foi idealizado o projeto do documentário?

Elisa Gomes: Esse é um desejo de mais de 10 anos. Conhecia bem a sua incrível história e suas obras transgressoras através de um contato próximo com a família. A ideia sempre foi resgatar e iluminar Maria. Um trabalho de valorizar a memória de uma artista, mulher brasileira, tão importante e tão desconhecida do público.

Francisco C. Martins - Em 1971, vi pela primeira vez O Impossível e me deixou bem surpreso saber que a obra era de uma artista brasileira da qual eu nunca tinha ouvido falar antes. Quando Elisa Gomes me convidou para fazer um documentário sobre Maria Martins, essa memória, de 40 anos antes, ressurgiu. Aceitei imediatamente.   

Depois de concluído o filme, mudou a forma como vocês mensuram o papel de Maria Martins para o Brasil do século 20 – tanto no âmbito artístico como personagem pioneira na defesa das liberdades individuais da mulher?

EG e FCM - Do ponto de vista exclusivamente artístico, embora já admirássemos sua obra, quando juntamos as imagens de todos seus trabalhos ficamos ainda mais impressionados com a força, originalidade e qualidade do conjunto. Compreende-se facilmente que não é à toa que hoje esteja sendo considerada a maior escultora brasileira da primeira metade do século XX. Paralelamente Maria Martins foi uma artista e mulher radical. Talvez não tenha sido uma feminista no sentido militante do termo, uma vez que foi uma excessão. Passou boa parte de sua vida fora do Brasil, de certa forma isolada na comunidade diplomática e artística internacional. Portanto, sua trajetória foi individual mas exemplar, por sua coragem em desafiar e vencer as convenções e o patriarcalismo dominantes em sua época.

A representação artística de subjetividades inerentes à sexualidade – um dos aspectos mais marcantes da obra de Maria Martins – tem despertado, no atual contexto da sociedade brasileira, reações inflamadas de grupos conservadores. Com a estreia do documentário em meio a esse “fogo cruzado” da opinião pública, que contribuições vocês acreditam que o filme pode trazer para esse debate?

EG e FCM - A história ocidental dos últimos cem anos está marcada pelo crescimento da emancipação e protagonismo feminino, e só isso já bastaria para atestar a atualidade de Maria Martins. Mas o desejo - que tem papel central em sua obra - desafia o conservadorismo defendido pelos movimentos reacionários no mundo inteiro e especialmente no Brasil atual. Maria se definia como uma "artista livre e libertada” e essa afirmação, a nosso ver, é cada vez mais necessária.

Veja o trailer oficial de Maria - Não Esqueça Que Venho dos Trópicos

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