Brasileiros

A empatia como experiência estética

Cultura
- Ensaio

“Os limites de nossa capacidade de empatia são também os limites de nossa experiência de linguagem, de nossa forma ótica e mais ainda, de nossa própria condição”, observa, em novo artigo, o psicanalista Christian Dunker, colunista do Página B!
Christian Dunker
Publicado em: 09/12/2017 - 06:00Alterado em: 12/12/2017 - 14:43
Reprodução da obra "Verdächtiger Rauch" (década de 1860, em tradução livre "Fumo Suspeito"), de Carl Spitzweg. Foto: Reprodução

Na recente mostra organizada pelo Museu da Empatia*, em curso no MAM de São Paulo, pessoas são convidadas a vestir sapatos aleatoriamente oferecidos. O visitante é então convidado a andar enquanto escuta histórias dos virtuais donos dos sapatos. A ideia é uma espécie de literalização da expressão “walk with other shoes”, isto é colocar-se nos sapatos do outro, no lugar do outro e assumir seu ponto de vista.

A experiência inclui-se em uma série de iniciativas que procuram trazer o universo museológico mais perto das pessoas, diminuindo a impressão popular de que a apreciação de obras de arte é uma tarefa para pessoas muito cultas. Trata-se de tentar reverter a expectativa média de que aqueles que não dominam elementos de história das artes, sociologia, filosofia ou crítica social estão confinados a uma experiência estética na qual apenas confirmarão sua exclusão de classe, de raça ou de origem. Uma atitude similar, ainda que inversa, ocorre quando o encontro com a obra de arte resulta apenas em um relato inautêntico usado apenas como signo de pertinência de classe ou como espetáculo de consumo.

É fato que a experiência com a arte contemporânea pelo público não especialista é frequentemente vivida como um confronto com o incompreensível confirmando o sentimento de inferioridade cultural. É certo também que desde o renascimento tal experiência adquiriu esta função de marcador simbólico das classes altas.

Particularmente a partir das revoluções francesa e americana e da queda do antigo regime, baseado na nobreza e na aristocracia, a capacidade de ler, entender e possuir obras de arte tornou-se um fato de distinção de classe. Um sinal confirmador que confere autenticidade e legitimidade social para a riqueza que se possui. Não basta mais ser filho de ou neto de uma linhagem familiar, é preciso também possuir dotas de educação e cultura, e isso se exprime ao modo de um saber.

Pierre Bordieu mostrou: assim como o capital financeiro tende a se concentrar, reproduzindo-se de modo acumulativo, o capital social, formado pelos laços, amizades e relações de pertinência e o capital cultural seguem esta mesma rota reprodutiva. Isso pode nos ajudar a entender a recente onda de repúdio a certos artistas e suas exposições (como a Queermuseu de Porto Alegre), de ódio aos intelectuais e professores, (como a fogueira pública na qual a imagem de Judith Butler foi queimada como “bruxa”), de ataques a universidades e centros de pesquisa (com redução de verbas e sucateamento programado).

Tudo se passa como se estivéssemos atacando posições, que têm por dever de ofício fornecer meios e cuidar dos processos de tratamento de conflitos. Esta é a função das diferentes formas de curadoria, termo que associamos com a prática da montagem de exposições museológicas, mas que tem uma origem filosófica antes de se tornar uma metáfora médica. A cura é antes de tudo cuidado consigo.

Uma das vertentes que formaram a noção de cultivo, educação ou de formação são justamente as práticas de cuidado.  Cuidar é cuidar do conflito, não é suprimi-lo ou silenciá-lo. Cuidar é um percurso, não uma condição ou um ato isolado. Cuidar e controlar podem andar perigosamente juntos, difícil saber quando uma prática está parasitando a outra.                

O termo empatia foi introduzido por Robert Vischer em Sentimento ótico da Forma (1873), definido como “projeção do sentimento humano para o mundo da natureza”. Foi na tradução ao inglês que o psicólogo Tietchner, passou o termo alemão “Einfüllung” introduzindo assim a derivação grega de pathos, em “empathy”.  É certo que pathos em grego remete tanto a paixão, quanto sofrimento e ainda capacidade de afetar-se com o outro, contudo o termo alemão acrescenta o radical ein (um) ao verbo fullen (sentir) o que nos leva o sentimento de unidade.

Vischer tentou discernir este sentimento de unidade de experiências conexas como o sentir com (Mifüllen), o sentir junto (Zuzamenfüllen) e o sentir próximo (Nachfüllen). Ele também tentou separar sentimentos (Füllen) de sensações (Empfindung). A participação do corpo, a presença do humor comum e a compaixão ficam pouco representadas quando olhamos para a separação mais tradicional entre a empatia e a simpatia. A simpatia envolve o processo de identificação e simultaneidade, sentir junto ou o mesmo que o outro.

A polêmica terminológica seria apenas um preciosismo senão atentássemos para a importância da diferença entre estes processos. Uma cultura da simpatia dissemina-se pela popularização de imagens digitais e pela condição, cada vez mais importante, de uma afinidade estética preliminar como condição para a produção de sentimentos de admiração, respeito e interesse. Mas o que podemos esperar da simpatia é a experiência moral da tolerância pela partilha das identificações. Substância que anda em falta, mas parece muito pouco para tratar nosso cenário de conflitos.

Sabe-se que Freud leu Lipps, que leu Vischer, e que o fundador da psicanálise usava amplamante o termo Einfüllung para designar os encontros mais promissores entre analista e analisante. Mas como aprender a desenvolver esta aptidão tão necessária para o cuidado, para a curadoria e para a cura?

Poderíamos pensar na empatia, combinando sua versão alemã com a inglesa, como um percurso. Ela não é uma feto, mas uma pequena gramática do encontro com o outro. Uma gramática que é ao mesmo tempo psicológica, política e estética.

Notemos que a definição de Vischer parte da ideia muito simples, ainda que poderosa, de que a empatia é a atribuição de traços humanos a natureza. Longe de referir-se apenas à expressão do ideário romântico, no qual Vischer bebia, ele introduz como primeiro passo da empatia o reconhecimento de si naquilo que é inumano por definição, a natureza, com suas expressões paisagísticas, com seus mares convulsivos, com suas naturezas mortas.

Este é um critério importante, pois a empatia não é apenas colocar-se no lugar do outro, (another shoes) mas perceber o outro como outro e não apenas como um duplo de si mesmo. Colocar-se no ponto de vista do outro confia demais na noção perspectiva de ponto de vista. Ponto de vista é um ponto geométrico, ele não tem corpo, não tem pedras no sapato ou calos que você não percebe quando se translada ao ponto de vista reflexivo do outro.    

Tomemos a pintura de Carl Spitzweg (1808-1885) que exemplifica a paisagem estética que Vischer tinha à sua disposição. Ele consegue despertar extrema simpatia ao produzir a ilusão de um mesmo ponto de vista quando o espectador também contempla solitário as nuvens e a paisagem distante. O franco contraste com as plantas que mimetizam a vida no campo, estabelecem a saudade como sentimento empático projetado na natureza. Uma vida simples, com relações orgânicas, sem tanta preocupação, despertará certamente simpatia. 

 




"Der Bücherwurm", pintura em óleo sobre canvas, de Carl Spitzweg (1857). Foto: Reprodução  

A mesma solidão que se perceberá nesta tela, na qual o personagem é esmagado pelo peso dos livros e por sua improvável posição de leitura em cima de uma escada. Mas ocorre que ele não se percebe em perigo, absorto que está em sua tarefa. Colocar-se no ponto de vista do outro, sim, mas para depois separar-se dele, enigmatizá-lo, perceber que ele mesmo não percebe seu ponto de vista, nem o olhar de quem o espreita em sua privacidade

O terceiro movimento da empatia refere-se ao retorno dos traços de não identificação, os traços inumanos ou desapercebidos ao próprio sujeito.  Aqui está a relação com este outro que Lacan chamou de inconsciente. O Outro no outro, e não o outro do Outro. Isso retroage sobre o espectador produzindo distância ou aproximação, envolvendo uma primeira fase do que pode ser compartilhado. É o que se observará nas telas que fazem da paisagem uma estratégia de aproximação entre os personagens.

O quarto tempo da empatia é a retribuição do percurso ao próprio outro que se produziu nestas três passagens anteriores. A partilha do sensível não é necessariamente uma partilha amorosa, nem mesmo de admiração ou aprovação. Empatia é justamente uma experiência que envolve um momento de “desidentificação” e estranhamento. Este último momento envolve, portanto, uma espécie de crítica do juízo, uma suspensão da determinação que encerra o outro em sua imagem.




"Dirndln auf der Alm", óleo sobre canvas, de Carl Spitzweg (1870). Foto: Reprodução

Um recurso ou sinal de que isso se efetua pode ser encontrado na emergência do humor e do cômico. Afinal é em sua teoria sobre os chistes que Freud desenvolve a noção de empatia (Einfüllung). Não seria por outro motivo que o quadro preferido dos alemães, em uma recente enquete, é justamente a obra de Spitzweg chamada “Pobre Poeta” (1839):

Reduzido a um cubículo com goteiras, com sua caneta e seu roupão amarrotado ele tem uma face compenetrada, que nos faz pensar no ridículo da situação daquele que quer pensar os problemas mais grandiloquentes tendo diante de si as mais óbvias e iminentes limitações.

Mas não é essa a condição e todos nós?  Vê-se assim como a empatia parte do particular, descobre dentro dele a sua singularidade própria para terminar em um movimento de universalização, que bem se expressa na vertente da compaixão.




"The Couple on the Bench" (1860), de Carl Spitzweg. Foto: Reprodução 

Os limites de nossa capacidade de empatia são também os limites de nossa experiência de linguagem, de nossa forma ótica e mais ainda, de nossa própria condição. Por isso quando encontramos uma figura grotesca, meio homem, meio mulher, meio velha tentando se fazer jovem, macrocéfala com mãos desproporcionais e vestuário inapropriado, estamos aí sim diante da ocasião para a construção estética da empatia.

Esse era também o desafio que a arte bruta, transformada por Hitler em arte degenerada, propunha. Este, aliás é um dos aspectos mais interessantes da teoria de Judith Butler, a saber, a ideia de que longe de existirem apenas dois gêneros há muitos gênero indiscerníveis, gêneros que foram historicamente tratados como abjetos. O quadro de Quinten Metsys (1465-1530), provavelmente retrata uma pessoa que sofria de osteíte deformante, informação que parece bastar para mudar nosso sentimento inicial com a personagem. 

Aqueles que queimam bruxas em nossa época, valendo-se do cristianismo para perseguir formas novas de empatia, aqueles que veem pedofilia em qualquer nudez, ou os que julgam uma pintura pelo seu tema, estão destruindo a experiência mais extensa da empatia. Com isso se privam de um recurso fundamental para tratar conflitos em geral de modo a torná-los produtivos. O cuidado é difícil de ensinar, mas sabemos quando ele está sendo maltratado.




"The Ugly Duchess" (circa 1513), de Quentin Massys. Foto: Reprodução

* Acesse mais informações sobre a mostra no site da Intermuseus, instituição que representa o Museu da Empatia no Brasil

Assine e Colabore

Precisamos do seu apoio. Por menos de um café com pão de queijo, você garante jornalismo com rigor editorial.

X

Acesso restrito a assinantes e cadastrados

Você atingiu o limite de 5 REPORTAGENS por mês

Identifique-se para continuar e ler 10 Reportagens por mês

Cadastre-se

ou

Conecte-se com o Facebook

já sou cadastrado

Colabore conosco!
Colabore com o futuro do jornalismo de qualidade.
Assine agora e tenha acesso ilimitado

Aproveite nossa promoção de lançamento e pague apenas R$ 1,90/mês*

Quero Assinar * Promoção válida até 31 de Dezembro de 2017