Brasileiros

'É Ferro na Boneca!', o chute na porta do Novos Baianos

Cultura
- Quintessência

Gravado em 1970 com os músicos do Leifs, banda que revelou Pepeu Gomes, o álbum de estreia do quarteto foi um dos embriões da intensa movimentação contracultural brasileira
Marcelo Pinheiro
Publicado em: 18/01/2018 - 01:37Alterado em: 19/02/2018 - 12:46
Luiz Galvão, Baby Consuelo, Paulinho Boca de Cantor e Moraes Moreira, a formação inaugural do Novos Baianos. Foto: Divulgação / Philips

“Entre o primeiro elepê e esse agora, quase dois anos, os Novos Baianos sumiram muitas vezes. Transaram todas, da TV, do Chacrinha, até essa última de filme (No Final do Juízo, um curta-metragem de Luiz Galvão) e dos novos shows e disco. O primeiro elepê gravado na Philips, não pintou como eles merecem. Tem muito angu por aí, disse-me-disse, e nem eles nem a Philips ficaram contentes. O elepê também não mostra a dupla de compositores que é Moraes e Galvão, nem o cantor que é Paulinho Boca de Cantor, nem a explosão de Baby Consuelo. Pra não falar de Pepeu, no Jorginho, em todo mundo.”

As aspas que abrem o texto de hoje em Quintessência são de Hamilton Almeida Filho, o HAF, um dos mais brilhantes repórteres da geração que afrontou o poder dos militares e abriu trincheiras de resistência ao silêncio imposto pelo AI-5 em veículos da imprensa nanica que marcaram o início dos anos 1970 no Brasil, publicações como O Pasquim, Flor do Mal, O Verbo, JA–Jornal de Amenidades, Presença, ex-, Ovelha Negra, O Sol, Grilo e Pato Macho

Publicado na revista Bondinho, o texto de HAF foi escrito em março de 1972. Criada em outubro de 1970 pela rede Pão de Açúcar de supermercados, a revista era distribuída gratuitamente para os clientes. Entre reportagens culturais, a publicação trazia amenidades, como guias de serviços e roteiros culturais. No início de 1972, a revista foi transformada em um projeto independente, com 13 edições de sobrevida e conteúdo editorial dos mais instigantes, majoritariamente dedicado a retratar a nascente e efervescente contracultura brasileira (em 2008, a Azougue Editorial publicou o livro Entrevistas Bondinho, título imperdível e ainda disponível em algumas livrarias).

A visita de HAF aos Novos Baianos – o encontro aconteceu na praia de Itapoá, em Santa Catarina – flagra a banda em momento transitório. Eles haviam acabado de lançar um compacto (e não um LP, como afirmou HAF) pela Philips, depois de deixar a RGE, que, em 1970, lançou É Ferro na Boneca!.

Com quatro canções, o compacto duplo da Philips, Novos Baianos & Baby Consuelo No Final do Juízo traz a primeira versão do clássico Dê Um Rolê. O biscoitinho foi às lojas quando o grupo maturava o repertório da obra-prima Acabou Chorare – lançado no final de 1972, pela Som Livre, e eleito, em 2010, pela revista Rolling Stone, o mais importante álbum da história da MPB.

Absolutismos à parte (eu, por exemplo, adoro Acabou Chorare, mas sou bem mais afeito ao sucessor, Futebol Clube), HAF foi certeiro e justo ao dizer que o compacto duplo e É Ferro na Boneca!, tema de hoje em Quintessência, estavam aquém do poder de fogo da trupe riponga – afinal, a exuberância musical dos baianos, registrada nos discos posteriores com a rapaziada do A Cor do Som, parceria que teve início em No Final do Juízo, confirma o prognóstico do jornalista.




Capa do LP lançado em 1970 pela RGE

Mas é preciso não relegar ao álbum de estreia dos Novos Baianos um papel secundário na discografia do grupo. Pelo contrário, tanto na qualidade das letras do poeta Galvão quanto na fórmula musical, acrescida da energia do Leifs (grupo anterior de Pepeu Gomes e de seu irmão, o baterista Jorginho, que acompanha o quarteto), É Ferro na Boneca!, como o título sugere, é álbum ousado e radical, especialmente se considerarmos seu ano de lançamento, 1970 – vale lembrar: muito popular na Bahia, a expressão que dá nome à estreia dos Novos Baianos foi cunhada pelo radialista e apresentador de TV França Teixeira.

Com o lançamento do primeiro LP do trio paulistano em 1968, os Mutantes reinaram absolutos na seara do rock antropofágico consolidado com o advento da tropicália. Cosmopolitas, performáticos e cerebrais, os roqueiros da Pompeia tornaram-se ícones da juventude que protagonizou os primeiros dias de nossa contracultura, especialmente no eixo RJ/SP. Mas, justiça seja feita, quem, dois anos mais tarde, de fato deu o chute na porta e incitou jovens dos grandes centros urbanos de todo o País a experimentar o desbunde e formas libertárias de encarar o mundo a sua volta foram mesmo os Novos Baianos.

Como recomenda o refrão de É Ferro na Boneca! “necas de olhar para trás” seria palavra de ordem para muitos rapazes e garotas daquela geração. Àqueles que não quisessem se entregar a uma vida de resignado conformismo ou aos que estivessem fatigados de tanto resistir, atentos e fortes, como recomendou Gil e Caetano em Divino Maravilhoso, o ultimato seria sair pela tangente, fugir pelas margens e reinventar a própria existência de forma alternativa e coletiva como fizeram os Novos Baianos, que segregaram suas intenções com uma trupe de amigos em um sítio instalado em Jacarepágua, no Rio de Janeiro.

Pouco antes de partir para Londres e enfrentar dois anos de exílio ao lado do amigo Gil, Caetano foi conferir de perto o tão falado Desembarque dos Bichos, Depois do Dilúvio Universal – o anárquico espetáculo que apresentou o Novos Baianos à juventude de Salvador. Em um gesto afetuoso e motivador, Caetano sentenciou: “Vocês me pedem que eu os apresente. Mas eu estou indo embora e só aceito deixar um bilhete para vocês. Estive esse tempo aqui, e vi que vocês estão respondendo à nova Bahia com o mesmo humor terrível que ela questiona. Mandem brasa, Brasil!”

O texto supracitado foi reproduzido na contracapa de É Ferro na Boneca! e compilado com outros excertos que compõem a apresentação do LP, assinada por Augusto de Campos, poeta, tradutor e crítico musical dos mais serenos que, como foi dito em outros textos desta coluna, em seu clássico livro Balanço da Bossa, foi pioneiro em defender a vanguarda da nova geração de artistas baianos. “Há algum tempo, quando Caetano e Gil eram itens proibidos, eu adverti: ‘É preciso olhar para eles’. Sem se deixarem intimidar ou hipnotizar, os Novos Baianos olharam para eles. Viram o que tinham de ver e partiram em busca de seu próprio caminho”, sintetizou Augusto no verso da capa do biscoito fino. 

Não vou me ater aqui a descrever canções – abro apenas um parêntese para reverenciar as estupendas Colégio de Aplicação e Curto de Véu e Grinalda – tampouco a reconstituir a história dos Novos Baianos a partir do encontro entre Moraes e Galvão, em 1967. A quem interessar possa, leitura mais que obrigatória é Anos 1970: Novos e Baianos, do próprio Galvão.

Para entender como toda essa efervescência cultural baiana eclodiu nos anos 1960 outro título essencial é Avant-Garde na Bahia, livro de Antônio Risério que narra a incrível trajetória de do reitor Edgard Santos à frente da Universidade Federal da Bahia.

Ao levar para a UFBA intelectuais europeus que fugiam do Pós-Guerra, como a arquiteta italiana Lina Bo Bardi e o maestro alemão Hans-Joachim Koellreutter, Santos revolucionou a UFBA e realizou o sonho de devolver à Bahia seu protagonismo cultural no País, influenciando diversas expressões artísticas. Gil, Caetano, Tom Zé, Gal, Bethânia, Os Novos Baianos, Glauber Rocha, Helena Ignez, Rogério Duarte, e tantos outros ícones da cultura brasileira no século 20, devem muito ao “Reitor Extraordinário”, como Edgar Santos era carinhosamente chamado.

Originalmente publicado no site da revista Brasileiros, na coluna Quintessência, em 16.1.2014

 

Assine e Colabore

Precisamos do seu apoio. Por menos de um café com pão de queijo, você garante jornalismo com rigor editorial.

X

Acesso restrito a assinantes e cadastrados

Você atingiu o limite de 5 REPORTAGENS por mês

Identifique-se para continuar e ler 10 Reportagens por mês

Cadastre-se

ou

Conecte-se com o Facebook

já sou cadastrado

Colabore conosco!
Colabore com o futuro do jornalismo de qualidade.
Assine agora e tenha acesso ilimitado

Aproveite nossa promoção de lançamento e pague apenas R$ 1,90/mês*

Quero Assinar * Promoção válida até 31 de Dezembro de 2017