Gilberto Mendes e a cadela Mel que, segundo ele, não o faz viajar ao exterior nem para tocar com a Filarmônica de Berlim. Foto: Luiza Sigulem

*Da coleção de excelentes entrevistas e reportagens de Marcelo Pinheiro!

A menos de um mês de completar nove décadas de uma vida intensa, o compositor Gilberto Mendes recebe nossa reportagem, em Santos. Arejada pelo vento que rasga as janelas  frontais, a pequena e aprazível cobertura onde ele mora fica a dois quarteirões de uma das praias da cidade litorânea que deu ao mundo o clube de futebol que eternizou o Rei Pelé. Gentil, Gilberto aguarda na soleira da porta. Esbanja lucidez, astúcia e bom humor. Predicados que jamais o abandonaram, nos mais de 70 anos em que ele vem atuando como figura luminar em sua arte.

Autor de obras centrais, pioneiro da música experimental aleatória no País e inventor de peças de teatro musical – com intervenções dramáticas, muitas vezes, aliadas ao canto, quase happenings –, Gilberto é também diretor artístico do festival Música Nova e um dos signatários do manifesto de mesmo nome, lançado em 1963. Carta de intenções do movimento, o texto foi publicado na revista Invenção, dos poetas concretistas Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos.

Criado por Gilberto um ano antes da publicação do manifesto, o festival defendia uma ruptura com a música nacionalista, de forte acento folclórico, e acaba de completar 50 anos da realização de sua primeira edição. Ao se lembrar desses dias, o compositor abre um parêntese para esclarecer sua relação com o maior nome de nossa música clássica: “Até hoje, o Brasil não soube mensurar a importância de Villa-Lobos. Ele é associado à coisa do nacionalismo, mas o que importa é a modernidade da música que ele fez e não o fato de ele ter ritmos brasileiros em sua obra. Se ele tivesse nascido na Finlândia, obviamente, usaria ritmos finlandeses. A organização moderna da linguagem dele é o que realmente interessa e o brasileiro ainda não entendeu isso. Algo natural, porque ele esteve muito tempo nas mãos de nacionalistas, retrógrados, que queriam uma música com base no folclore. A inventividade é o que interessa no Villa-Lobos”.

Atento às manifestações de vanguarda do Pós-Guerra,  Gilberto integrou um grupo de maestros e compositores sintonizados com o ímpeto modernista que impregnou as artes a partir dos anos 1950. Entre eles, Régis e o irmão Rogério Duprat, Willy Corrêa de Oliveira, Júlio Medaglia e Damiano Cozzella. Nomes reincidentes entre as melhores produções da música clássica e popular lançadas no Brasil a partir da segunda metade do século 20. Enquanto Willy e Gilberto, amparados pelas experiências radicais da poesia concreta, subvertiam linguagens clássicas, Rogério e Júlio davam embalagem estética ao tropicalismo e à MPB, nos ousados arranjos que escreveram para jovens artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa, Chico Buarque, Jorge Ben Jor e Ronnie Von que, submetido à batuta de Cozzella, lançou, em 1968, um irreconhecível álbum homônimo, psicodélico e cheio de experimentações, cultuado, hoje, por colecionadores.

Nascido em Santos, em 1922, Gilberto é filho do médico Odorico Mendes, que morreu quando ele tinha apenas 5 anos, e da professora primária Ana Garcia Mendes. Cresceu seduzido pelos encantos do mar, que desembocava na orla vizinha a sua casa, mas esteve breves períodos fora do País. Morou em Praga, na extinta Tchecoslováquia, onde aprofundou pesquisas e testemunhou os acontecimentos de 1968 (a Primavera de Praga). Nos Estados Unidos, lecionou na University Wisconsin-Milwaukee, no estado de Wisconsin, entre 1978 e 1979. Quatro anos mais tarde, voltou ao país para dar aulas na Universidade do Texas, em Austin. Gilberto acumula mais de 30 viagens internacionais para divulgar sua música, mas revela que jamais abandonaria a cidade natal. Vive com Eliane, sua companheira há mais de 30 anos, e a cadela Mel. Diz, sorridente, que deixou de viajar para o exterior com a mulher, há algum tempo, para não abandonar a fiel escudeira sozinha em casa: “Não saio de perto dela, nem se a Filarmônica de Berlim me convidar para executar uma peça minha!”, brinca, enquanto enche o animal de afagos.

 

Cinema, mar e música

Das memórias de infância, Gilberto lembra as frequentes idas com a mãe ao cinema e o fascínio dos primeiros filmes falados. Em 1992, quando se aposentou e defendeu seu doutorado na USP, onde passou a lecionar em 1980, proferiu um discurso em que ele se disse apaixonado por cinema, a ponto de pensar que se tornaria um cineasta em vez de músico. Mas que tipo de diretor teria sido ele? Experimental? Fiel à narrativa clássica? Meditativo, ele responde: “Antonioni, A noite”. Depois, fica em silêncio, divaga e diverge. Diz que queria mesmo era ser escritor. “Eu escrevia histórias e fazia o desenho para a capa dos meus livros. Reunia a turminha do bairro para contar histórias e as inventava na hora. Na maioria das vezes, tramas de detetives. Se eles desconfiavam quem era o assassino, eu dava um jeito de mudar o desfecho”, diverte-se.

Mas nas três horas que se seguem, ele volta a demonstrar obsessão pelo poder do cinema de contar belas histórias. Discorre sobre musicais alemãs da década de 1930,  a invenção do imaginário havaiano por Hollywood, cantarola sucessivas canções, com uma paixão explícita por elas, e até imita entusiasmado, repetidas vezes, o Carlitos de Chaplin. Muda de assunto e recorda, em seguida, que passeios furtivos pelo mar, em sua adolescência, também eram recorrentes: “Santos era um convite à vadiagem. Havia, na praia, duas canoas da minha família e não faltavam vagabundos pra colocá-las no mar comigo. Meu progresso musical poderia ter sido outro…”.

Para alguém que construiu uma trajetória como a dele, o comentário parece descabido. Não condiz com a reputação do compositor de obras cultuadas, como Motet em Ré Menor (música para coral, sobre poema de Décio Pignatari, originalmente intitulada Beba Coca-Cola, que inclui um arroto e teve o nome trocado para evitar problemas jurídicos), Santos Football Music (que propõe inusitadas intervenções da plateia e dos músicos, como gritos de gol, emissão de vogais e uma partida de futebol com direito a arbitragem e minitraves sobre o palco) e Nasce-Morre (música aleatória baseada em poesia concreta de Haroldo de Campos).

Humilde, Gilberto sugere que a iniciação tardia nos estudos musicais talvez tenha limitado seu potencial. Algo difícil de concordar, mas é fato que antes de embarcar na música, por dois anos ele insistiu que seria advogado. Cursou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da USP, até ser intimado por Miroel, casado com sua irmã Míriam, a questionar os rumos que tomava: “Botei a mão no piano pela primeira vez aos 20 anos. Comecei idoso. Meu cunhado foi quem falou: ‘O que você está fazendo estudando Direito? Você não percebeu que é músico?’. Ele recomendou que eu entrasse para o conservatório de Santos e também no clube de regatas, para nadar e tratar da minha asma. Vim para cá e me meti com política, com o velho partidão. Fazia trabalhos de difusão de cultura, mas debaixo da cultura havia certo veneno marxista. Perdi muito tempo, até que Erasmo, meu irmão mais velho, me deu outro pito: ‘Você deixou de estudar Direito, largou a faculdade pela metade e fica se metendo nisso. Você não ia ser compositor?’. Aquilo doeu em mim. Eu havia acabado de ver o filme Os Sete Samurais, do Kurosawa, e estava admirado com o domínio do ofício daqueles extraordinários espadachins. Fiquei pensando que eu, ao contrário deles, não tinha domínio nenhum sobre mim”.

A intimação do irmão surtiu efeito imediato. O caminho que o consagrou vem sendo perseguido desde então, há sete décadas, e Gilberto ainda está em plena atividade. Autor de dois livros dedicados à música – Odisseia Musical – dos Mares do Sul à Elegância Pop/Art Déco (1994), que registra sua tese de doutorado, e Viver sua Música: com Stravinsky em meus Ouvidos, Rumo à Avenida Nevskiy (2007), ambos publicados pela Edusp –, ele tem outras duas obras na manga. Uma coletânea de artigos publicados em jornais, que será lançada em 2013 pela Editora Perspectiva, e um primeiro romance, ainda sem título, que acaba de ter carta branca da Editora Algol para ser publicado. Gilberto também está na reta final de uma maratona de filmagens que faz com o filho Carlos Mendes, cineasta, que em 2005 lançou o documentário Gilberto Mendes, uma Odisseia Musical. Carlos decidiu aproveitar a entrevista e saiu de São Paulo para visitar o pai. Revela que decidiu compor a série de 90 microfilmes pela preocupação de fazer perpetuar a obra do pai para as futuras gerações. Os filmes vêm sendo lançados, capítulo por capítulo, e estarão todos disponíveis no YouTube, a partir de 13 de outubro, quando Gilberto completa 90 anos.

Multidirecional como o vento, aberto como o oceano

Durante o encontro, Gilberto relembra muitas das histórias narradas nas sete horas de entrevistas registradas por Carlos. Vêm à tona os encontros com Olivier Toni e Claudio Santoro, maestros que exerceram grande influência em sua carreira, os seminários com Pierre Boulez e Karlheinz Stockhausen, em Darmstadt, na Alemanha, berço da neue musik, que atravessou o Atlântico com ele e ganhou aqui acentos brasileiros, sob o nome, literal, Música Nova. Mas essas são histórias para serem descobertas, minuciosamente, nas dezenas de filmes feitos por Carlos.

Questionado sobre sua relação com a música popular, Gilberto (que durante a entrevista insiste que é um compositor múltiplo, capaz de escrever até música ruim), faz deliciosas revelações de seus primeiros contatos com dois nomes que revolucionariam a canção no Brasil e no mundo: “Ouvi Chega de Saudade, pela primeira vez, no rádio. Fiquei intrigado, pois era uma música muito bonita e completamente fora do que se fazia na época. No mesmo dia, fui comprar o compacto que tinha Desafinado do outro lado. Fiquei tão entusiasmado com João Gilberto quanto fiquei com os Beatles. Quem trouxe o primeiro disco deles foi o Carlos, o compacto de I Wanna Hold Your Hand. Ouvi e achei aquilo tão lindo quanto ouvir Chega de Saudade, uma coisa muito nova em termos de samba e ali estava algo novo em termos de rock, que para mim era porcaria, uma deturpação do blues e do boogie-woogie. Eu tinha horror ao som da guitarra nos tempos do Elvis Presley. Quando ouvi os Beatles, pensei: ‘Mas que esquisito, eles estão conseguindo fazer essa maravilha com uma guitarra?!’”.

Ao discorrer sobre a bossa nova, Gilberto parte em defesa de Tom Jobim, atribuindo a ele a invenção formal do gênero: “O Jobim frequentou aquele grupinho da Orquestra Sinfônica Brasileira ligado ao Claudio Santoro, que queria uma nova música para o Brasil, e isso incluía uma renovação da canção. O Santoro tem peças tipicamente bossa nova, mas que são eruditas. A bossa teve influência direta do jazz, mas, indiretamente, ela herdou a harmonia francesa do Debussy. Algumas das minhas primeiras canções também tinham essa característica e as pessoas vêm me perguntar se eu fui influenciado pela bossa, mas ela nem existia quando fiz essas canções. Teoricamente falando, a bossa é 100% Jobim”.

Minutos antes da nossa partida, a última pergunta pede a Gilberto Mendes que defina, às vésperas de completar 90 anos, quem é Gilberto Mendes. Ele observa que o vento  acaba de mudar de direção e explica que as novas rajadas vem do sudoeste. Diz que é um pouco como o vento, multidirecional, outro tanto como o mar, aberto para o mundo, e conclui: “Gilberto Mendes, cidadão santista. Filho de um médico e de uma professora primária. Uma pessoa marcada pelo lugar onde mora. Sempre tive essa coisa oceânica, dos mares, pois o mar é também uma abertura para o mundo. Sonhava com o Havaí e até realizei meu desejo de ir para lá. Na minha infância, havia, no mínimo, dois navios por semana que iam para a Europa. As linhas espanholas eram as mais baratas e você ainda podia ir de terceira classe, pois era ali que estava o lado intelectual do navio. Os estudantes e os professores pobres, que iam fazer graduação ou mestrado na Europa. O fino do navio era a terceira classe. Os jornais daqui tinham as duas últimas páginas repletas de anúncios de agências internacionais de turismo. Uma delas, japonesa, se chamava Osaka, e eu ficava fascinado só de pensar no Japão. Outras, levavam à Finlândia, à Inglaterra. Lembro também de uma companhia italiana de navios que se chamava Blue Star Line, o que, para mim, soava como um belo nome de canção”.

Percepção natural para alguém como Gilberto, que enxerga a vida pela lente sensorial da música. Nos despedimos, com a promessa de voltar para comemorar seu centenário. Ele sorri, tímido, e diz: “Combinado!”.

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