Brasileiros

A poética indizível de Sérgio Sampaio

Cultura
- Quintessência

Sucessor do clássico 'Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua', o álbum 'Tem Que Acontecer' reafirmou o talento ímpar do cantor e compositor capixaba
Marcelo Pinheiro
Publicado em: 14/02/2018 - 10:58Alterado em: 14/02/2018 - 11:02
O cantor e compositor capixaba Sérgio Sampaio. Foto: Reprodução / Facebook

O leitor mais atento já deve ter percebido que raramente utilizo aqui a sigla MPB, e que, mesmo quando fecho com a sigla, prefiro grafar tais iniciais por extenso. O principal motivo de minha oposição ao rótulo consolidado no início dos anos 1970 é que, em minha pretensa opinião, a tal etiqueta “MPB” atravessou as últimas quatro décadas associada a um imaginário um tanto quanto restritivo, se considerarmos a riqueza e a diversidade da expressão literal “música popular brasileira” e as distinções estéticas derivadas de seus inúmeros protagonistas no mesmo período. Convenhamos, a música brasileira vai muto além disso.

Respeitemos, pois, de 1945, por exemplo, um trabalho minucioso da etnógrafa e crítica musical Oneyda Alvarenga, que, naquele ano, publicou um livro que é referência para qualquer pesquisador ermo que tenha chagado depois da existência de Oneyda nos garimpos da vida, trabalho despojadamente intitulado pela própria discotecária e pesquisadora, assim mesmo, como Música Popular Brasileira. Folclorista, influenciada pelas incursões musicográficas de Mário de Andrade, Oneyda expôs ali a miríade de gêneros, ritmos e acentos musicais espalhados no extenso território de nosso País.

Hoje, pergunte a qualquer brasileiro alheio a essas questões: afinal, o que é MPB? As respostas certamente virão acrescidas de uma lista com o nome de artistas que habitam espécie de “Olimpo” da canção brasileira. Um território nobre, povoado por “deuses”, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Gal Costa, Maria Bethânia e Milton Nascimento.

Lógico, ninguém há de contestar a grandeza desses artistas, mas, é inegável também que desde o começo dos anos 1970, quando houve a consolidação deste conceito de MPB, outros artistas colocados à margem, como Taiguara, Jards Macalé, Sueli Costa e Hélio Matheus, foram eclipsados por esse mesmo absolutismo midiático. Enfim, é por essas e outras que me sinto satisfeito de escancarar que hoje é dia de reverenciar alguém tão subestimado como o cantor e compositor capixaba Sergio Sampaio.

Morto há exatos 20 anos, Sergio tomou de assalto as rádios de todo o País no Carnaval de 1973 com o estrondoso sucesso de Eu Quero é Botar Meu Bloco Na Rua. Mesmo não conquistando premiação na disputa do VII FIC – Festival Internacional da Canção, de 1972, a composição dividiu com Diálogo, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, um compacto da série As Melhores do VII FIC, biscoitinho que atingiu a impressionante marca de mais de meio milhão de cópias vendidas. Êxito em 7 polegadas, que fez com que a Philips, sob produção de Roberto Menescal, colocasse Sérgio às pressas em estúdio, com os músicos do Azymuth e o baterista Wilson das Neves, para gravar seu primeiro LP.

Mas, mesmo intitulada como carro-chefe de um compacto campeão de vendas, a estreia autoral de Sérgio, obra-prima deste notório excluído do rol de intocáveis da MPB, acabou sendo um fracasso comercial. Pífio em êxito comercial, o LP registrou apenas 5 mil cópias vendidas e motivou a saída imediata do compositor do selo holandês comandado por Andre Midani (por essas e outras, me incomoda a lógica excludente do pré-requisito de êxito de vendas para o ingresso no tal seleto grupo de estrelas do que se convencionou chamar MPB).

Natural de Cachoeiro do Itapemirim, conterrâneo de Roberto Carlos e Rubem Braga, Sérgio Moraes Sampaio nasceu em berço musical no dia 13 de abril de 1947. Filho do maestro e compositor Raul Sampaio e da professora Maria de Lourdes Moraes, ele sofreu forte influência do pai, que, além da música, tinha como principal ofício a confecção de tamancos. Na adolescência, quando arriscava suas primeiras composições e ajudava o pai na tamancaria, Sérgio era apaixonado por três ases da voz: Orlando Silva, Silvio Caldas e Nelson Gonçalves.

Aos 20 anos, em busca de se consolidar como compositor, o jovem capixaba partiu para o Rio de Janeiro e deu início a uma trajetória comercialmente instável, mas de incontestável regularidade criativa. Exagero algum afirmar que Sérgio, dono de uma poética das mais singulares, foi um dos compositores mais importantes de sua geração. 

No primeiro biênio carioca, entre 1968 e 1970, sua principal ocupação foi de radialista em empregos formais nas rádios AM Mauá do Rio de Janeiro, Carioca e Continental. A mudança para a Cidade Maravilhosa e o plano de se estabelecer como artista aproximaram Sérgio da boêmia dos bares em que se apresentava a noite, municiado de violão e voz, e das rodas de samba em morros como o Tuiuti, em São Cristovão e na Mangueira.

Em fevereiro de 1970, decidido a empenhar força máxima para a consolidação de sua carreira, Sérgio pediu demissão da rádio Continental. Escolha que, dada sua consequente instabilidade financeira, colocou o jovem em apuros por quase um ano. Sem dinheiro, chegou a dormir em bancos de praça. Mas a sorte cruzou seu caminho quando Sérgio conheceu o compositor Odibar, também parceiro musical de Paulo Diniz.

Acompanhando Odibar em um teste, no qual este último se apresentaria para a CBS, Sérgio acabou sendo submetido a uma audição com Raul Seixas, à época, produtor da gravadora. A empatia foi imediata, e Raulzito passou, então, a espalhar composições do capixaba, sob o pseudônimo Sérgio Augusto, entre os artistas do cast da CBS.

Caso de Vê Se Dá Um Jeito Nisso, Sol 40 Graus – esta última em parceria com o produtor Ian Guest e gravada pelo Trio Ternura – e Hoje é Quarta-Feira, registrada no álbum de estreia da dupla Tony, o soulman de codinome Bizarro, e Frankie, pseudônimo do cantor Fortunato Arduini.

Em 1971, com produção de Raul e arranjos de Ian Guest, Sérgio gravou seu primeiro compacto com as composições Coco Verde e Ana Juan – no registro duplo, já com o sobrenome Sampaio. Naquele mesmo ano, também integrou a Sociedade da Grã-Ordem Kavernista. O grupo formado por Raul Seixas, Sérgio, Miriam Batucada e Edy Star lançou então o anárquico álbum Sessão das Dez.

Reza a lenda, Raul decidiu gravar o LP em uma operação relâmpago à revelia de seu chefe, o diretor artístico João Araújo, que estava fora do País. Há alguns anos, a história foi contestada pelo próprio kavernista Edy Star, que garantiu, em texto publicado no seu blog, que tudo foi feito às claras, tanto que, Edy explica, Raul continuou a trabalhar para a CBS e produziu, inclusive, um compacto de Miriam Batucada com Diabo no Corpo, composição de Sérgio. Ainda em 1972, Sérgio encerrou sua estadia na CBS com o compacto que continha Classificados n° 1 e Não Adianta. Por recomendação de Raulzito, o amigo então ingressou na Philips, e logo após a contratação participou do VII FIC com Eu Quero é Botar meu Bloco Na Rua.

Como lembramos há pouco, apesar do sucesso arrebatador da composição e do LP, feito a toque de caixa, Sérgio sucumbiu à tímida aceitação comercial de sua brilhante estreia e foi demitido da Philips no começo de 1974. Acolhido pela Continental, ele enfrentou um hiato de quase três anos até o lançamento do sucessor de Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua.

Pelo novo selo, ele gravou o compacto simples, que contém Velho Bandido e O Teto da Minha Casa. Pela Philips, seu último registro foi o compacto simples que contém Foi Ela e Meu Pobre Blues, uma homenagem ao conterrâneo, Roberto Carlos, irônica com o romantismo exacerbado do repertório adotado pelo Rei naquela primeira metade dos anos 1970, como atesta a frase “E agora que esses detalhes já estão pequenos demais / E até o nosso calhambeque não te reconhece mais / Eu trouxe um novo blues / Com um cheiro de uns dez anos atrás / E penso ouvir você cantar”.

Essa mesma ironia, sagaz e elegante, está presente em Tem Que Acontecer. A começar pela composição que dá título ao álbum. A despeito de não trazer nenhuma referência clara ao fato, ela remete a frustração comercial de Sergio estar na Philips, ao que ele conclui, com a frase: “Mas não posso fazer nada / Eu sou sou (só) um compositor popular”.

Reunindo 12 composições, Tem Que Acontecer foi produzido por Roberto Moura e teve os arranjos escritos por João de Aquino e o maestro Lindolfo Gaya. Entre os músicos envolvidos na gravação, estão craques como o baterista Paschoal Meirelles, o baixista Luizão Maia, o maestro Laércio de Freitas, o clarinetista e saxofonista Abel Ferreira, o flautista Altamiro Carrilho, o bandolinista Zé Menezes, o gaitista Maurício Einhorn e os mestres da velha guarda do samba, Bide e Marçal.




Capa do LP 'Tem Que Acontecer'. Foto: Divulgação / Continental

Impecável, o repertório de Tem Que Acontecer é um retrato de Sergio Sampaio no auge de seus predicados de compositor. Além disso, traz uma preciosidade: o samba-canção O Que Pintá, Pintô, de autoria de Raul, pai de Sergio. Difícil destacar uma ou outra composição… Todas elas fundem melodias irretocáveis a letras de uma poética singular, mas canções como Cada Lugar na Sua Coisa, Quatro Paredes, Velho Bode (esta última, em parceria com Sérgio Natureza), Até Outro Dia e A Luz e a Semente são exemplares da maturidade artística atingida por Sérgio naqueles 23 dias de registro de Tem Que Acontecer, álbum gravado no Estúdio Level, no Rio de Janeiro, entre os dias 3 e 26 de maio de 1976.

Outra grande composição, Que Loucura presta reverencia ao poeta piauiense e grande letrista da Tropicália Torquato Neto. Uma das grandes influências para os caminhos trilhados à margem por Sérgio, Torquato se suicidou um dia após completar 28 anos.

Nosso herói capixaba teve também vida breve. Depois de empreender mais de duas décadas de abuso de álcool e drogas, morreu, aos 47 anos, vitimado por uma crise de pancreatite, há exatas duas décadas, em 15 de maio de 1994.

Intransigente com as ingerências de gravadoras e produtores com relação ao seu trabalho, Sérgio saiu da Continental e viu crescer sua fama de “difícil”. Com essa postura, somente foi gravar seu terceiro álbum em 1983. Intitulado Sinceramente, o LP foi lançado de forma independente e teve repercussão ainda menor, a despeito de apresentar mais uma leva de outras 11 grandes composições de Sérgio.

No hiato de 11 anos de ostracismo enfrentado pelo capixaba, um dos pontos altos de tentativa de resgate da importância de Sérgio foi organizado pelo diretor artístico Xarlô. Em 1988, ao longo de dez dias ele promoveu uma série de apresentações de Sergio acompanhado de outro grande artista ausente do panteão da MPB, o amigo Jards Macalé.

No final de abril último foi lançado na internet o site vivasampaio.com.br dedicado a vida e a obra de Sérgio Sampaio. Iniciativa do filho único do compositor, João Sampaio Breitschaft, a página contém, entre outras seções, um blog. No primeiro post do referido espaço, o amigo Xarlô deixou um forte testemunho, dimensionando o peso que o rótulo de “maldito” exerceu sobre a personalidade sensível do amigo.

“Essa nomenclatura/rótulo era uma das causas da sua tristeza. Esse peso minguou ainda mais o Sérgio. Fisicamente, espiritualmente, emocionalmente, causou uma ruptura na sua estrutura psicológica, maculou seu nome, sua autoimagem, seu lado de homem público”. Infelizmente, expediente dos mais comuns em nosso País, as iniciativas para valorizar a importância de Sérgio e tirá-lo dessa seara ingrata dos malditos só foi acontecer depois de sua partida precoce.

Em 1998, o amigo e parceiro de composição Sergio Natureza idealizou um CD em homenagem ao xará intitulado Balaio do Sampaio. O álbum reuniu, entre outros, João Bosco, Macalé, Luiz Melodia e Erasmo Carlos, que interpretou Feminino Coração de Deus, gravada pelo Tremendão no álbum Mulher (ouça), de 1981.

Meses antes de morrer, Sergio foi sondado por Luiz Calanca, dono da loja e do selo Baratos Afins, para lançar seu quarto álbum. Não houve tempo hábil para o registro ser finalizado, mas, em 2005, Zeca Baleiro, grande entusiasta da obra de Sérgio, remasterizou algumas gravações originais e acrescentou à elas outros instrumentos. O álbum foi lançado pelo selo de Zeca, Saravá Discos, sob o título Cruel.

Outra importante iniciativa de resgate da obra capital de Sérgio Sampaio veio em 2000, com o lançamento da biografia Eu Quero é Botar Meu Bloco Na Rua. Escrito pelo jornalista Rodrigo Moreira, o livro foi publicado pela editora niteroiense Muiraquitã. Ainda sem previsão de lançamento, está em produção um documentário assinado por Chico Regueira e Inês Garçoni. Outra homenagem relevante é o Cabine 103, idealizado por Julia Bosco (sim, filha daquele João), Gustavo Macacko e Juliano Raujah, conterrâneos de Sergio, o projeto apresenta, por meio das composições, as diversas facetas do artista: o compositor politizado, o cancionista primoroso e o romântico guiado por excessos.

No carnaval de 2014 o violonista e guitarrista Renato Piau – parceiro musical dos mais regulares, na trajetória de Sérgio e de Luiz Melodia – Chico Regueira e Inês Garçoni idealizaram mais uma ode ao capixaba, o bloco carnavalesco Meu Bloco Na Rua de Sérgio Sampaio. A concentração dos foliões acontece com uma roda de samba no Bar Botero, sediado na rua das Laranjeiras, no bairro de mesmo nome da zona Sul carioca.

Que o Bloco do Sampaio saia nos próximos carnavais! Que a cada novo ano mais e mais ouvintes se deixem seduzir pela grandeza deste compositor ímpar e, como recomendava ele em seu maior sucesso, que todos botem pra gemer!

Boas audições e até a próxima Quintessência!

Originalmente publicado no site da revista Brasileiros em 15.5.2014

Ouça, na íntegra, o álbum "Tem Que Acontecer"

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