Brasileiros

A revolução elétr(ôn)ica de João Donato

Cultura
- Quintessência

Lançado em 1970 nos Estados Unidos, A Bad Donato é um marco na carreira do pianista acriano. Psicodélico até a medula, repleto de experimentações com novos timbres e novas tecnologias, o LP abriu caminho para outras fusões do jazz eletrificado
Marcelo Pinheiro
Publicado em: 05/12/2017 - 07:51Alterado em: 05/12/2017 - 18:39
Detalhe da capa do LP "A Bad Donato". Foto: Divulgação / Blue Thumb

Mesmo consagrado como um alto-executivo a serviço da indústria fonográfica a partir de seu ingresso, no início dos anos 1960, na Decca Records, o americano Bob Krasnow, hoje com 79 anos, pode ser considerado, em seu meio, dessas figuras raras, pela sensibilidade que teve ao valorizar artistas dignos de seus tratamentos diferenciados e muito acertados.

A experiência adquirida na Decca fez com que ele, talvez em busca de um meio termo entre o executivo preocupado com a saúde financeira das companhias em que atuava e o ímpeto de alguém movido pela paixão pela música, se aventurasse, depois, em pequenos selos de sua propriedade, como a MK Records e a Loma Records. Incursão posterior de Krasnow, na Kama Sutra Records, como vice-presidente, propiciou ao produtor e diretor artísico a criação da subsidiária Buddah Records. Inquieto, em 1968, ele decidiu abandonar a dobradinha Kama Sutra/Buddah para novamente apostar em um projeto 100% autônomo, que ganhou o nome Blue Thumb Records.

Tendo como maior atrativo inicial o lançamento de Outta Season (1969), coletânea de Ike & Tina Turner, o selo acolheu também trabalhos solo de Marc Bolan, líder do T-Rex; Out Here, o quinto álbum de estúdio da banda californiana de rock psicodélico Love; o bluesman John Mayall que, na segunda metade dos anos 1970, lançaria seis álbuns pelo selo; e trabalhos de outros artistas brasileiros, como o grupo Bossa Rio, de Pery Ribeiro, que, desde 1969, embalado pelo sucesso do Brasil 66’ de Sérgio Mendes também tentava emplacar carreira internacional com o lançamento de um primeiro álbum nos EUA, lançado pela A&M Records.

Sem grande repercussão de sua estreia americana, o Bossa Rio acabou sendo acolhido pela Blue Thumb de Krasnow, que, havia anos, com o advento da Bossa Nova, era apaixonado por música brasileira. Produzido (não por acaso) por Sergio Mendes (que, coincidentemente ou não, teve um sexteto com o mesmo nome) o segundo álbum americano do Bossa Rio foi lançado nos EUA, via Blue Thumb, e ganhou o nome de Alegria! (recentemente os dois álbuns foram relançados no Brasil, na caixa Pery Internacional, do selo Discobertas). Composto de dez faixas, Alegria! traz músicas cantadas em português, entre elas, Zazuera e Que Pena e With Your Love Now, releitura, vertida para o inglês por Norman Gimbel, de Mustang Cor de Sangue, dos irmãos Marcos e Paulo Sergio Valle.

Reverberando expediente comum ao Brasil’ 66 de Sérgio Mendes, as canções internacionais incluídas no álbum, claro, foram extraídas das paradas mundiais de sucesso. Estão no segundo Bossa Rio, por exemplo, duas versões dos Beatles, Eleanor Rigby e Blackbyrd, além de outra música onipresente naquele ano de 1970, Spinning Wheel, composta por David Clayton-Thomas, um dos vocalistas do Blood, Sweat & Tears .

Se as escolhas de Krasnow e o Bossa Rio em Alegria! sugerem artifícios comerciais dos mais previsíveis, perspectiva diametralmente oposta é patente em outro título brasileiro da Blue Thumb lançado pelo selo americano em 1970, o álbum A Bad Donato, de João Donato, tema de hoje em Quintessência. À época, o pianista acriano vivia na Califórnia, estava casado com a atriz americana Patricia del Sausser e teve com ela uma filha, então com  7 anos, chamada Jodel.

Fascinado pela grande arte de Donato, Krasnow deu a ele carta branca para fazer o álbum como bem entendesse. A começar pelo orçamento de produção, generosamente engordado para que Donato pudesse se municiar do que havia de mais moderno no quesito “instrumentos de teclas”.

E o momento era propício para descobertas e experimentações. Afinal, começavam a surgir no mercado novos sintetizadores, pianos elétricos e órgãos compactos. A diversidade de timbres desses instrumentos é absolutamente perceptível em cada um dos dez temas instrumentais que compõem A Bad Donato. A carta branca de Krasnow, no entanto, tinha uma saudável “ingerência”, que também foi decisiva para a sonoridade vigorosa e vanguardista registrada no LP: ele pediu a João que atentamente ouvisse novos artistas e novos gêneros musicais, como o funk de James Brown e seus pares (a propósito, Krasnow atuou por um breve período como agente do Mr. Dynamite) e o rock de expoentes do psicodelismo, como o Experience, trio elétrico de Jimi Hendrix.

Em artigo dos mais coerentes, publicado em 1969 no jornal O Pasquim, o filósofo Luiz Carlos Maciel – colunista do tabloide, que mantinha nele a seção Underground, dedicada à contracultura – faz uma análise da importância de Hendrix no sentido de ele fomentar ambiente de maiores experimentações na seara da música popular por meio da eletricidade e da eletrônica. “Ao contrário da maioria de seus companheiros de viagem, Hendrix concentra suas experiências sobre o aparato elétrico de seus instrumentos. Até mesmo a distorção deliberada do registro elétrico de suas gravações foi amplamente utilizada. O que a música eletrônica aspirou a fazer, Hendrix realiza no âmbito da música popular”, defende Maciel no texto, intitulado Jimi Hendrix Está na Dele.

Tendo Donato como alquimista dessa incursão pela eletrônica e pela eletricidade, lógica similar devia passar na cabeça de Krasnow quando ele impôs a João as exigências de modernização dos instrumentos, além dessas novas e ousadas audições. Afinal, o que se ouve em A Bad Donato é João Donato embalado de forma quase irreconhecível, porém, como sempre, irresistível.

Claro, os melhores predicados de João – a riqueza melódica e a sutileza de seu ostinato para construir células rítmicas de entortar o esqueleto – estão presentes no álbum, mas revestidos em arranjos e sonoridades a anos luz das facetas que consolidaram Donato internacionalmente, primeiro como um dos artífices da Bossa Nova, depois, como requisitado músico de apoio de ícones do jazz latino como os percussionistas Tito Puente, Mongo Santamaria e o vibrafonista Cal Tjader.   




João Donato, na foto da contracapa de "A Bad Donato". 

Outra evidência de que Krasnow garantiu a Donato os melhores recursos possíveis para a gravação do disco foi a escolha de Eumir Deodato (que, na verdade, se ofereceu para realizar o trabalho logo que soube do novo projeto do conterrâneo) para escrever os arranjos, a quatro mãos, com Donato e conduzi-los durante todos os registros do LP.

Deodato estava radicado nos Estados Unidos desde 1967, quando lá chegou a convite de Luiz Bonfá (e jamais voltou). O menino prodígio da Bossa Nova ainda não havia lançado nenhum título autoral por lá – em 1973, ele faria estrondoso sucesso mundial com Prelude –, mas já havia assinado importantes trabalhos, como arranjador, para gravadoras de renome, entre elas a nascente Reprise de Sinatra, no álbum que marcou o encontro de Tom Jobim e Frank, Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim, lançado em 1967.

Além da escolha acertada de colocar Deodato para dividir e reger os arranjos, Krasnow também consentiu uma sugestão inusitada de Donato: registrar no álbum alguns instrumentos “dobrados” – dois trombones, dois saxofones tenores, dois saxofones barítonos, dois trompetes e duas baterias. Quanto aos músicos envolvidos (para a alegria de Donato, que era devoto do maestro desde a adolescência), parte deles integrou a orquestra de Stan Kenton, como os saxofonistas Ernie Watts, Jack Nimitz, Don Menza, Bill Hood, os trombonistas Jimmy Cleveland e Ken Shroyer, os trompetistas (e irmãos) Pete e Conti Candoli e Jimmy Zito. 

Além deles, o supergrupo ainda incluía Warren Klein (guitarra), Oscar Castro Neves (violão), Chuck Domenico (baixo), os bateristas Mark Stevens, Paulinho Magalhães e Dom Um Romão, os percussionistas Joe Porcaro e Emil Richards (este último também assina a produção de A Bad Donato) e o flautista Bud Shank (com quem Donato integrou, pelo selo Pacific Jazz Records, em 1965, outro belo álbum, Bud Shank & His Brazilian Friends, com repertório composto de vários temas do pianista brasileiro, além da participação de Rosinha de Valença).

Quanto ao repertório de A Bad Donato, LP que influenciou experiências de outros músicos norte-americanos naquele início de anos 1970 marcados pelo advento do fusion e do jazz-rock, o 12 polegadas lançado pela Blue Thumb ainda reúne dez temas inéditos, de grande unidade estética e de equivalência em qualidade. Desses álbuns que basta dar play ou inserir a agulha no primeiro sulco, e deixar rolar (lógico, comentário este válido apenas àqueles que tem a sorte de possuí-lo em LP, afinal, trata-se de obra nunca lançada no Brasil neste formato e que, portanto, um exemplar original da Blue Thumb é disputadíssimo nos círculos de colecionismo).

Regularidade de repertório a parte, algumas faixas se destacam à primeira audição, caso das ultra-dançantes Debutante’s Ball, Bambu, Celestial Showers e Lunar Tune – esta última, conforme revelou depois o próprio Donato, foi registrada sob efeito de LSD, segundo ele, a pedido de Krasnow, que gostaria que ele estivesse sob influência da substância lisérgica durante o registro do solo. The Frog, tema de abertura do álbum, que depois ganhou letra de Caetano Veloso, foi regravado na volta de João Donato ao Brasil em 1973, no clássico álbum Quem é Quem… É João Donato. Recentemente, Donato teve a felicidade de tocar o repertório do LP pela primeira vez, em São Paulo e no Recife.

Na ocasião, aproveitando o burburinho em torno dos shows de Quem é Quem…, Donato tirou uma preciosidade de seu baú de memórias, uma carta escrita para o amigo João Gilberto (os dois se conheceram em meados dos anos 1950, no Rio de Janeiro) falando de seu entusiasmo e de suas impressões sobre a nova cria. A correspondência também foi destacada quando publiquei aqui em Quintessência um texto sobre o álbum Muito à Vontade, de 1962.

A propósito, o leitor mais atento haverá de perceber que esta é a primeira ocasião em que recomendo um segundo álbum de um mesmo artista na coluna. Lógico, há muita gente boa que ainda não foi devidamente reverenciada aqui, mas nada mais justo do que tratar como exceção alguém da estatura de João Donato, que está em plena atividade e vive momento dos mais especiais, porque está às vésperas de completar 80 anos (em 17 de agosto). As celebrações, que maravilha!, deverão ser marcadas por uma série de shows e o registro de um álbum inédito.

Boas audições e até a próxima Quintessência!

Originalmente publicado no site da revista Brasileiros em 6.6.2014

Ouça, na íntegra, o álbum A Bad Donato

- Uma curiosidade: provavelmente inspirado no título de A Bad Donato, o guitarrista George Benson lançou em 1974, pelo selo CTI Records, um álbum chamado Bad Benson

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