Brasileiros

FHC e a missão histórica do PSDB

Opinião - Filosofia, educação e além

Dos principais nomes dentro do partido, apenas FHC e Serra estão perto dos princípios do PSDB. Alckmin é relativamente indiferente ao que eu chamaria de valores humanistas tucanos, Aécio mais ainda e Doria nem se fala
Renato Janine Ribeiro
Publicado em: 17/10/2017 - 15:32Alterado em: 14/11/2017 - 13:42
Fernando Henrique Cardoso (Foto: Renato Araujo/ABr)

Por volta de 1980, Fernando Henrique Cardoso tomou uma decisão importante. Ele tinha sido eleito suplente de senador em 1978, com votos que iam da esquerda para o centro. Estava no horizonte da época montar-se um "partido popular", que uns queriam que fosse uma grande coalizão dos setores progressistas, outros desejavam que fosse mais de esquerda – como acabou sendo, chamando-se Partido dos Trabalhadores.

Parte dos que apoiaram FHC em 1978 foi criar o PT. Mas FHC fez outra escolha. Penso que sua análise foi a seguinte: a direita brasileira é golpista. O que melhor posso fazer pela democracia é convencer a direita de que ela pode ganhar e conservar o poder dentro das regras democráticas. A oportunidade era de ouro: a ditadura, que a direita implantou em 1964, estava indo para a falência. Com o esgotamento do regime de força, dava para civilizar a direita. Era uma missão, uma tarefa histórica – que FHC cumpriu anos depois. Porque, ao se eleger presidente, ele submeteu a direita tradicional, egressa da ditadura, à liderança dos que combateram o regime militar e que formavam o núcleo do PSDB.

O surgimento de uma direita despudorada, agressiva, preconceituosa marca a dificuldade dos tucanos de continuarem liderando, a partir do centro, a direita

Além disso, é claro que não caberiam no mesmo partido FHC e Lula. Estava ficando claro que o sindicalista seria a escolha preferencial das esquerdas. Para FHC, era melhor capitanear um campo moderado, que atraísse a direita, embora lhe deixando uma posição subalterna.

A outra opção, por volta de 1980, era dar voz a quem não tem voz, aos novos protagonistas da cena política, a começar pelos trabalhadores em greve, liderados pelo jovem Lula, e pelos membros das Comunidades Eclesiais de Base. Essa tarefa, também uma missão histórica, ficou com o PT. E assim sucedeu que gente que esteve no mesmo palanque em 1978, que trabalhou junto anos a fio, se dividiu. Nas eleições de 1994, quando muitos queriam PT e PSDB formando uma chapa para mudar o País, o PT ficou liderando a pequena esquerda, enquanto os tucanos chefiavam uma ampla coalizão de centro-direita.

O que essa divisão causou de bom? O enfrentamento sempre repetido, às vezes por pessoa interposta, entre FHC e Lula tirou o espaço de qualquer aventureiro, no caso de direita, que quisesse concorrer à presidência. Collor foi o último a ocupar esse espaço – por sinal, ocultando cuidadosamente sua trajetória de apoio à ditadura. Os saudosos do regime militar não passariam de 10% numa eleição. Isso valeu durante vinte anos, de 1994 a 2014.




João Doria (Foto: PSDB-SP/Divulgação)

Mas essa missão histórica do PSDB continua – ou acabou? É crescente, dentro do partido, o número de pessoas, algumas delas bem votadas, que são hostis à pauta básica dos fundadores do PSDB, que defendia os direitos humanos às vezes mais até do que o PT. Dos principais nomes dentro do partido, apenas FHC e Serra estão perto dos princípios do PSDB. Alckmin é relativamente indiferente ao que eu chamaria de valores humanistas tucanos, Aécio mais ainda e Doria nem se fala. Uma das maiores realizações da vida de FHC – civilizar, democratizar a direita – entrou em crise séria. 

Com isso não estou fazendo o PT de vítima ou o PSDB de carrasco. Apenas constato que o surgimento de uma direita despudorada, agressiva, preconceituosa marca a dificuldade dos tucanos de continuarem liderando, a partir do centro, a direita. Os possíveis eleitores de Bolsonaro e mesmo de Doria votariam, uns anos atrás, em candidatos tucanos do campo democrático.

Onde isso fica mais visível? Na questão, em si mesma pequena, dos museus e das exposições de arte. Mario Covas bem podia dizer, quando decidiu criar a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a magnífica OSESP, que nunca comprara um disco de música clássica – mas ele fundou uma das melhores orquestras que o Brasil já teve, com destaque internacional. Nossos colecionadores refinados e muitos de nossos melhores artistas formaram entre os simpatizantes, ou mesmo membros, do PSDB. Este era um partido de lideranças requintadas – mas que foram, aos poucos, sendo substituídas por nomes mais populistas, mais conservadores.

Talvez o maior erro dos grandes nomes do PSDB original tenha sido uma certa tolerância com esse endireitamento do partido. Diante de um PT seguidas vezes reeleito, os líderes históricos aceitaram esses apoiadores que, com o tempo, tomaram o lugar dos nomes iniciais. E essa passagem à direita se consumou com a tola decisão de Aécio Neves, que para “encher o saco” do PT (palavras dele!) subordinou o partido que preside à extrema-direita, a direita que eu chamo de comportamental, e que teve por chefe Eduardo Cunha. O PSDB perdeu o protagonismo na política brasileira.

Uma linha divisória hoje se estabelece entre o que podemos chamar de campo democrático e de campo autoritário. Curiosamente, onde ela é mais visível não é tanto nas políticas sociais, mas sobretudo na liberdade artística e nas políticas de gênero

Afirmo aqui algo paradoxal: talvez o maior sinal desse sequestro do PSDB histórico pelas novas lideranças conservadoras, internas (João Doria) ou externas (MBL, em certa medida Bolsonaro) ao partido, seja o que está acontecendo em relação às artes. O QueerMuseu em Porto Alegre, a performance do homem nu no MAM paulista seriam apresentações que o velho PSDB entenderia e possivelmente apreciasse. Mas a nova e extrema direita não quer saber disso. Não é que não queira frequentar estas exposições: quer proibi-las. Ora, na arte contemporânea é impossível não haver, em algum momento, nudez (como, por sinal, na pintura e na estatuária clássicas). As obras com nus podem ser em número pequeno, mas sempre as haverá. Quem deseja proibir a arte contemporânea entra em choque com o que há de mais criativo no mundo atual.

Será essa uma linha divisória, no interior da direita, maior do que as posições sobre a economia e sobre a política? Pode ser. Na verdade, a divisão interna à direita – e digo mais, interna à sociedade – aparece na posição quanto às artes e quanto aos costumes. O respeito aos homossexuais, e mais amplamente a todas as identidades de gênero, é um divisor poderoso entre quem respeita a liberdade e quem não a respeita.

Vamos resumir rapidamente? Mais do que qualquer outro líder do PSDB, Fernando Henrique procurou atrair a direita para a democracia, mostrando-lhe que ela podia ganhar eleições. (Covas, Montoro e outros grandes nomes tucanos tinham mais reticência em relação a essa direita, tanto assim que nas eleições estaduais dos anos 90 a enfrentaram nas urnas). Essa democratização da direita foi uma das condições para uns vinte anos de paz política no Brasil. Contudo, esse tempo acabou. Não sei o que FHC sente a respeito, mas não deve estar contente com isso – embora, obviamente, possa culpar o PT e a esquerda por parte desse unhappy end que hoje vivemos. Mas uma linha divisória hoje se estabelece entre o que podemos chamar de campo democrático e de campo autoritário. Curiosamente, onde ela é mais visível não é tanto nas políticas sociais, mas sobretudo na liberdade artística e nas políticas de gênero ou, mais amplamente, em pelo menos alguns dos direitos humanos. Talvez esteja aí um meio de restabelecer a ponte entre os democratas brasileiros, hoje cindidos.

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