Brasileiros

Fim ou parêntese na democracia?

Opinião - Filosofia, educação e além

É como se tivéssemos dois países, um que é o dos três poderes e do noticiário político, outro que é o da sociedade. Coloco minhas fichas na sociedade
Renato Janine Ribeiro
Publicado em: 05/09/2017 - 09:01Alterado em: 05/09/2017 - 09:01
(Foto: Mídia Ninja)

Faz uns quinhentos anos que o mundo, primeiro ocidental depois o planeta quase inteiro, conhece um avanço rumo ao Estado de Direito, aos direitos humanos, à democracia. Mas, de dois ou três anos para cá, essa marcha triunfal parou - e até mesmo recuou. Sinais disso são a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, apesar de ter perdido no voto popular, e o governo Temer no Brasil, além do aumento do peso político da extrema direita na França e em boa parte da Europa.

A pergunta é: acabou esse processo de democratização? Pior que isso, estaremos recuando nele?

Porque os últimos trinta anos foram gloriosos. Desde o começo dos anos 1980, caíram as ditaduras de direita na América Latina e as ditaduras comunistas na Europa. A expectativa de vida cresceu significativamente. Todos os indicadores sociais mostram melhoras. A exclusão social decaiu. Isso, em países com governos bem diferentes. Ora isso foi conseguido pelos liberais, ora pela esquerda. Pela primeira vez na História, perto de metade da população mundial tem liberdade de expressão, de organização e de voto, isso na esfera pública, e na esfera privada a liberdade de fazer escolhas pessoais no amor, na religião, na profissão. 

Mas isso parou. No Brasil, não vivemos só os cortes em investimentos sociais. Assistimos também à sem-cerimônia com que isso tudo é feito. Minha primeira impressão, quando Temer tomou posse em abril de 2016, foi que tinham chegado ao poder as pessoas sem noção, que eu chamo carinhosamente de "notionless". Lembram a posse do ministério, sem nenhuma mulher ou negro? Isso, contrastando com o ministério que Justin Trudeau formou um pouco antes no Canadá: quando lhe perguntaram por que metade das pastas seriam chefiadas por mulheres, ele respondeu "Porque estamos em 2015". Em que data, em que ano estaria o governo brasileiro, com 0% de mulheres no primeiro escalão?

Há outra hipótese. É que esse seria o governo da vingança. Em vez de ser falta de percepção do mundo atual, o atual governo seria uma revanche contra os avanços das décadas anteriores. Era e é contra o PT, mas também contra o que fez a grandeza do PSDB histórico - a defesa de direitos humanos, políticas de inclusão social. É como se esfregassem na cara da sociedade: não gostamos de você. A escolha do dístico "ordem e progresso" como grife do novo governo foi sinal claro de que os relógios estavam atrasados no tempo. Convenhamos: nos símbolos nacionais, talvez as duas palavras de Auguste Comte sejam o que menos emociona.

Agora, seja por desconhecerem os valores da sociedade atual, seja por os detestarem, o governo que temos está em descompasso sério com o Brasil e com o mundo.  E o mesmo poderíamos dizer de Trump. Não há uma única causa do bem - o aumento da igualdade, a proteção do meio ambiente, políticas criativas para a educação e a saúde - que seja sua prioridade.

Isso significa o fim, ou apenas um parêntese, no longo processo de democratização do mundo, que datei de quinhentos anos para cá?

Porque esse meio milênio não foi um avanço ininterrupto. Embora olhando a longo prazo vejamos uma lógica democrática na história desse período, houve também retrocessos bem duradouros. Tivemos as revoluções inglesa, americana e francesa, mas também a restauração das monarquias no século XIX, com um viés antidemocrático claro.

O melhor, porém, é olhar o século XX. Começa razoavelmente bem, mas logo depois temos a chacina que foi a Primeira Guerra Mundial, em seguida, os fascismos, mais tarde a Segunda Guerra Mundial e algumas décadas de ditaduras em boa parte do mundo. Contudo, a maré começa a virar em 1945, com a derrota dos fascismos, e cresce mesmo nos anos 1980, que já mencionei. 

Em qualquer desses - longos - períodos de retrocesso se poderia dizer que tinha acabado a democratização do mundo. Assim, a década de 1930 viu o triunfo do totalitarismo em muitos países. Somente a vitória dos Aliados em 1945 deu sinais de que o mundo estava melhorando, e ainda assim eles racharam pouco tempo depois, com a guerra fria, o medo da catástrofe nuclear...

Porém, talvez o ponto distintivo da segunda metade do século XX tenha sido que, mesmo quando a América Latina e a Europa Oriental praticamente inteiras viviam sob regimes de exceção, as colônias europeias da África e Ásia ganhavam sua independência. Ou seja, nosso parêntese não foi um blackout total.

E hoje, onde estamos? Há elementos assustadores. Para mim, o pior é o desplante com que muita gente se sente à vontade para dizer barbaridades contra mulheres, negros, nordestinos, grupos LGBT.  Significa que não percebem o mundo à sua volta. Não têm consciência do que é justo e injusto.  Isso está bem mais forte hoje do que cinco anos atrás.

Mas também há fatores de esperança. Penso que estes pulsam na sociedade, mais que no Estado ou entre os políticos. A mudança nas formas de vida é um deles. Aumentou a liberdade pessoal. E, quando ela não aumentou, pelo menos o clamor por ela cresceu. Passamos hoje, no Brasil, por um período no qual essas novas formas de vida, bem como as novas formas de ação no plano público, não conseguem ainda tomar o poder. Vivem à parte do Estado. É como se tivéssemos dois países, um que é o dos três poderes e do noticiário político, outro que é o da sociedade. Coloco minhas fichas na sociedade. Mas ela precisa se organizar, propor suas utopias, conseguir um crescimento econômico com sustentabilidade ambiental para completar a inclusão social. Não é fácil. Porém, depende essencialmente de nós quanto tempo vai durar o parêntese. Quanto menos dure, melhor.

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