Brasileiros

A pioneira da internet no Brasil

Página B - Inovação

Responsável pelo primeiro livro sobre redes de computadores no País, pesquisadora gaúcha Liane Tarouco aposta em novas tecnologias, como realidade virtual, realidade aumentada, wearables e Internet das Coisas
Laíssa Barros
Publicado em: 08/03/2017 - 16:34Alterado em: 07/09/2017 - 08:33
Mãe das redes: a pesquisadora gaúcha Liane Tarouco (Foto: Arquivo Pessoal)
Mãe das redes: a pesquisadora gaúcha Liane Tarouco (Foto: Arquivo Pessoal)

Considerada uma das percursoras da Internet no Brasil, a gaúcha Liane Tarouco possui em seu extenso (e premiado) currículo o primeiro livro sobre redes de computadores do País, um verdadeiro trabalho de desbravamento sobre o assunto que a tornou conhecida como a “mãe das redes” no País – o “pai”, no caso, seria Demi Getschko, atual diretor-presidente do NIC.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR).

Fruto da sua tese de mestrado em Ciências da Computação na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), a obra, intitulada Redes de Comunicação de Dados (1977), acabou sendo usada como livro texto em muitos dos cursos de computação ou de tecnólogo em processamento de dados da época. “Por isso que ficou essa fama”, explica Liane, de forma tímida.

Nascida na pequena Cerro Largo, no Rio Grande do Sul, a pesquisadora morou em diversas cidades gaúchas durante a infância até chegar à capital Porto Alegre, seu lar desde os 12 anos de idade e onde se apaixonou pela computação quando ainda estudava Física na UFRGS.

“Na verdade, quando comecei tinha bem pouca gente trabalhando nisso. O que aconteceu foi que eu era estudante e também trabalhava na prefeitura de Porto Alegre, no Departamento Municipal de Água. Eles tinham um serviço de processamento de dados e estavam considerando comprar um computador próprio. Fui selecionada junto com alguns funcionários administrativos para fazer um curso de programação. Esse foi o meu primeiro contato. Me apaixonei de imediato, achei aquilo fascinante”, relembra a pesquisadora, para quem a presença das mulheres ainda é pequena no mundo da computação.

“A computação é uma área em que predominam os homens, isso é inegável. Hoje existem muito mais mulheres do que havia no início. Quando eu comecei eram raras as que trabalhavam na área. E mais ainda as que frequentavam eventos, congressos e publicavam, e assim por diante. Hoje isso mudou para melhor, mas ainda assim elas são minoria.” Em 1973, pouco após se formar e virar professora de Linguagens de Programação na UFRGS,

Liane teve um bom vislumbre do que podia vir a ser a Internet nas décadas seguintes ao participar de um curso no Rio de Janeiro ministrado pelo norte-americano Leonard Kleinrock, pioneiro da Arpanet (rede precursora da Internet) e então professor da UCLA (Universidade da Califórnia, em Los Angeles). “Ele mostrou o que era e o que podia ser o futuro das redes e eu fiquei fascinada. Estava ansiando por aquilo.”

Mas foi só alguns anos depois, em 1978, que ela pôde ver esse aguardado futuro mais de perto, ao visitar a UCLA, nos Estados Unidos. “Quando fui até lá, o campus conectado já existia. Já tinha estudantes de doutorado que trabalhavam de casa. Achei aquilo uma maravilha. Sonhava com o dia em que aquilo também iria chegar até nós. Eu sabia que iria chegar, só ficava esperando impacientemente que chegasse”, conta.

A computação é uma área em que predominam os homens, isso é inegável. Hoje existem muito mais mulheres do que havia no início. Quando eu comecei eram raras as que trabalhavam na área.

Enquanto isso não acontecia, Liane se virava para conseguir suprir a falta de acesso a informações sobre o assunto no Brasil, que aponta como uma das maiores dificuldades na época. “Cada vez que eu ia para o exterior, voltava com umas duas caixas enormes de papelão cheias de cópias de artigos e de dissertações. Entrava naquelas bibliotecas (das universidades) de Stanford, Cornell ou Carnegie Mellon e copiava, copiava, copiava, copiava enlouquecidamente aquelas coisas. Porque no Brasil não tinha onde pesquisar. Também comprava muitos livros (nas viagens), gastava muito dinheiro em livros.”

O tão esperado primeiro acesso de Liane em solo brasileiro aconteceu apenas no final dos anos 1980. “Em 1989, eu consegui o primeiro acesso através da Fapesp, um acesso bem primário ainda. A gente entrava pela Renpac (Rede Nacional de Comunicação de Dados por Comutação de Pacotes), com baixa velocidade. Mas pelo menos aquilo já me abriu portas porque eu podia participar dos fóruns que existiam na época”, explica a pesquisadora, que concluiu no ano seguinte o doutorado em Engenharia Elétrica-Sistemas Digitais, na USP (Universidade de São Paulo).

“Muito curiosa”, a pesquisadora diz que costuma ir atrás de qualquer novidade, como aconteceu com o primeiro computador em que trabalhou, o clássico IBM 1130, no final dos anos 1960, e com o primeiro PC pessoal ligado na rede da UFRGS, que comprou do próprio bolso. Está atenta às novas tecnologias que são apontadas como tendências para o futuro próximo e as vê com bons olhos, a exemplo de mobile learning e realidade virtual (VR) e aumentada (AR).

Até hoje professora titular da UFRGS, onde conta com o que chama de “alunos de segunda geração” (filhos dos seus ex-alunos), Liane também atua como coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Informática na Educação da mesma instituição e desenvolve um projeto de realidade virtual com mundos 3D, no estilo do “Second Life”. “A minha pesquisa consiste em recriar ambientes voltados para permitir que os alunos ou mesmo profissionais futuramente tenham a oportunidade de aprender a lidar com situações, contextos e ferramentas que seriam muito caros ou perigosos na vida real. Ou seja, recriar ambientes virtuais em que a pessoa, representada por um avatar, vai aprender, vai ser treinada para poder desempenhar as suas funções.”

Liane também se mostra bastante entusiasmada com outras tecnologias novas, como a Internet das Coisas (IoT) e os wearables. “Estou ansiosa pela computação de vestir. Gostaria de ter a minha vida enriquecida por informações o tempo todo”, revela, citando a vontade de usar relógios e óculos inteligentes – atualmente utiliza um pedômetro pendurado no pescoço como forma de incentivo para aumentar suas caminhadas. Sobre uma possível falta de privacidade por conta disso, a especialista destaca que vê o “lado bom de ter a tecnologia encostada no corpo da gente 24 horas por dia”. “Eu sei que tem o lado de perda de privacidade, entendo isso. Mas acho que isso é compensado pelos benefícios do bom uso da tecnologia de modo geral.”

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