Brasileiros

A morte de Fidel Castro, para além do reducionismo de opiniões polarizadas

Página B - Mundo

As condolências de Obama e os ataques de Trump, uma análise de Eduardo Galeano e a reação do filósofo Renato Janine Ribeiro atestam a complexidade de um dos personagens mais influentes do século XX
Silvia Bassi
Publicado em: 22/08/2017 - 12:20Alterado em: 25/08/2017 - 17:09
Morte de Fidel Castro e os diferentes estilos de pêsames globais (Foto: Acervo EBC)

Aos 90 anos de idade morreu Fidel Castro, em meados de 2016. Sua morte foi anunciada pela televisão estatal de Cuba por  Raul Castro, seu irmão e presidente do país caribenho:

“Querido pueblo de Cuba: Con profundo dolor comparezco para informar a nuestro pueblo, a los amigos de nostra América e del mundo, que hoy 25 de novembre del 2016, a las 10 e 29 horas de la noche, falleció el Comandante en jJefe de la Revolucion Cubana, Fidel Castro Ruz. En cumplimiento de la voluntad expresa del compañero Fidel, sus restos serán cremados”.

Fidel há tempos estava doente. Sua última aparição em público havia acontecido em agosto do ano passado, quando completou 90 anos.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, divulgou, através de sua assessoria, nota bastante protocolar e cuidadosa até porque trabalhou muito pela aproximação com Cuba:

“Neste momento do passamento de Fidel Castro, estendemos uma mão amiga ao povo de Cuba. Nós sabemos que este momento enche cubanos – em Cuba e nos Estados Unidos – de fortes emoções, relembrando os incontáveis caminhos em que Fidel Castro alterou o curso das vidas de indivíduos, de famílias e da nação cubana. A história vai registrar e julgar o enorme impacto de sua singular figura no povo e no mundo a sua volta”.

Já o presidente eleito, Donald Trump, não teve nenhum cuidado. Foi direto:

“Hoje, o mundo assiste a morte de um ditador brutal que oprimiu seu povo por cerca de seis décadas. O legado de Fidel Castro é o de pelotões de fuzilamento, roubos, sofrimentos inimagináveis, pobreza e negação dos direitos humanos fundamentais.”

Na mesma linha, o senador republicano pela Florida, o cubano-americano, Marco Rubio, que foi candidato a presidência, também foi direto:

”Por seis décadas, milhões de cubanos foram forçados a abandonar seu próprio país, e aqueles acusados de fazerem oposição ao regime eram rotineiramente presos e até mortos. Infelizmente a morte de Fidel Castro não significa a liberdade do povo de Cuba ou a justiça para os ativistas da democracia, os líderes religiosos e os opositores políticos que ele e seu irmão prenderam e perseguiram. O ditador morreu mas a ditadura continua”.

Enquanto Obama foi cuidadoso, Trump e os republicanos foram diretos. Diretos no fígado.

Vale ler o texto de Eduardo Galeano, do livro Espelhos, uma História Quase Universal, com tradução de Eric Nepomuceno. que está circulando pela internet:

“Seus inimigos dizem que foi rei sem coroa e que confundia a unidade com a unanimidade. E nisso seus inimigos têm razão. Seus inimigos dizem que, se Napoleão tivesse tido um jornal como o Granma, nenhum francês ficaria sabendo do desastre de Waterloo. E nisso seus inimigos têm razão. Seus inimigos dizem que exerceu o poder falando muito e escutando pouco, porque estava mais acostumado aos ecos que às vozes.

E nisso seus inimigos têm razão. Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História que abriu o peito para as balas quando veio a invasão, que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão, que sobreviveu a 637 atentados, que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus que essa nova pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo.

E seus inimigos não dizem que Cuba é um raro país que não compete na Copa Mundial do Capacho. E não dizem que essa revolução, crescida no castigo, é o que pôde ser e não o que quis ser. Nem dizem que em grande medida o muro entre o desejo e a realidade foi se fazendo mais alto e mais largo graças ao bloqueio imperial, que afogou o desenvolvimento da democracia à la cubana, obrigou a militarização da sociedade e outorgou à burocracia – que para cada solução tem um problema –, os argumentos que necessitava para se justificar e perpetuar.

E não dizem que apesar de todos os pesares, apesar das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta. E seus inimigos não dizem que essa façanha foi obra do sacrifício de seu povo, mas também foi obra da pertinaz vontade e do antiquado sentido de honra desse cavalheiro que sempre se bateu pelos perdedores, como um certo Dom Quixote, seu famoso colega dos campos de batalha. “

Aqui no Brasil, com seu habitual e consistente equilíbrio, o filósofo Renato Janine Ribeiro lembrou as ambiguidades do regime e postou em sua página no Facebook várias análises. Opiniões contrárias e opiniões favoráveis a Fidel Castro.

O filósofo também manifestou sua indignação no seguinte texto:

“Você tenta entender Fidel, sua ambiguidade: um revolucionário nacionalista com forte preocupação social que os EUA bloquearam, tentaram matar, praticamente jogaram nos braços do comunismo e que com isso puniram um povo todo. E o outro lado, o ditador, a repressão, muitas coisas, mas também ambíguas, porque foi o exército cubano que salvou Angola da invasão racista sul-africana. Um personagem ambíguo. Aí, retardados começam a dizer que foi apenas um assassino, do mal, que os verdadeiros cubanos estão em Miami, – e que eu estou defendendo Fidel. Pensar faz bem, sabem? Quem não gosta de pensar vá aos blogueiros e publicações apropriados.”

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