Brasileiros

“Por que algumas vidas são passíveis de luto enquanto outras não são?”

Página B - Mundo

Serra Leoa registra cerca de 400 mortos e 600 desaparecidos por conta de deslizamentos ocorridos no país em agosto. Leia a primeira reportagem de uma série especial sobre o tema
Carolina Piai
Publicado em: 14/09/2017 - 16:39Alterado em: 25/09/2017 - 14:00
(Foto: Denise Pimenta)

Há um mês, no dia 14 de agosto, Freetown era atingida por enchentes que deixaram aproximadamente 400 mortos e 600 desaparecidos. A cidade é a capital de Serra Leoa, pequeno país rico em diamantes na África do Oeste. Apesar da situação ter envolvido centenas de pessoas, não houve comoção global ou grande repercussão da notícia na mídia, como aconteceu no caso da enchente que atingiu o Texas no mesmo período e deixou 30 mortos, por exemplo.

Com vista a essa realidade, a equipe do páginaB! foi em busca de fontes para entender o que tem acontecido por lá. Denise Pimenta, doutoranda em Antropologia na USP, que tem vivido em Serra Leoa nos últimos meses (em trabalho de campo), aponta a problemática para outro fator: ainda que sejam escassas, existem notícias a respeito do caso, no entanto, registram apenas o sofrimento e o caráter trágico envolvido na situação e não ultrapassam esse ponto, quase nunca trazem a conhecimento quem são os serra-leoneses afetados e suas histórias. Assim, a pesquisadora trouxe a seguinte reflexão:

“Serra Leoa não é naturalmente um lugar perigoso, lugar do medo e das tragédias, esta imagem foi construída com elementos de uma realidade pouco conhecida. Mas se esta perversa imagem, que desumaniza e que faz com que estas pessoas não sejam corpos passíveis de luto, foi construída, ela não é impossível de ser desconstruída. Obviamente que isso requer um esforço analítico, mas também prático no que tange à produção de imagens e informações midiáticas. Talvez seja uma boa questão para pensarmos juntas, eu como antropóloga e você como jornalista: quais foram as questões práticas que te fizeram olhar seriamente para esta questão? Qual tipo de pensamento, informação e imagem queremos mostrar? Acho que concordamos em discordar das fixas imagens asfixiantes.”

A partir da provocação da pesquisadora, o páginaB! inicia uma série de reportagens sobre Serra Leoa, que traga à tona as vozes de serra-leoneses e discuta os temas intrínsecos a recente situação e que há muito tempo aparecem distorcidos na mídia brasileira. Começamos entendendo como a mídia atua e como está a situação da população de Freetown atualmente.

Confira abaixo trechos da entrevista com Denise Pimenta:

A mídia

Certamente não é apenas a mídia brasileira que atua desta forma, com raras exceções - e aqui destaco a séria e ética tentativa da AlJazeera de cobrir os eventos ao redor do mundo, isso obviamente enfrentando perdas e perseguições – a mídia internacional também dá pouco destaque a este tipo de acontecimento como o ocorrido em Serra Leoa. Mas sem dúvida, a maioria das empresas midiáticas no Brasil são extremamente autocentradas, dando destaque a fatos internacionais que envolvem países que possuem direta ou indiretamente relações político-econômicas com o país. A mídia brasileira em sua maioria não se entende como pertencente aos problemas e discussões do Sul Global, infelizmente, a meu ver, ainda se encontra muito distante de uma reflexão mais ampla, ainda se volta para as perspectivas do Norte Global.

Penso eu que repercussão e comoção estão relacionadas. Mas de uma forma um tanto quanto perversa. Não acredito que nossa comoção é mínima em relação a estes eventos porque não sabemos deles e que se, talvez, a mídia de forma geral melhor nos informasse, estaríamos nós mais comovidos, tocados, afetados. Preferiria estar errada, mas acredito que mesmo que a mídia se dedicasse 24 horas às perdas humanas e dos bens móveis e imóveis em Serra Leoa como casas, carros, objetos de toda sorte, ainda assim não nos comoveríamos o tanto quanto nos abalamos com acontecimentos, por exemplo, nos EUA e em alguns países da Europa. E por que isso se daria?

O outro exótico

A meu ver, não podemos fugir da filosofia para refletir sobre uma complexa questão como esta, e aqui, acho essencial a contribuição da filósofa feminista estadunidense Judith Butler, que questiona: por que algumas vidas são passíveis de luto enquanto outras não são? Por que as informações e imagens do atentado em Barcelona e da enchente no Texas nos comovem bem mais do que as referentes ao grande deslizamento de terra em Freetown com centenas de mortos? Até nos comovemos por alguns instantes, pensamos como a “África é sofrida”, mas não vamos muito além disso.

E, em relação aos acontecimentos na Espanha e nos Estados Unidos, investimos mais tempo e emoção a respeito. A resposta é simples, mas ao mesmo tempo muito complicada. Não nos identificamos com estas pessoas de Serra Leoa, da Nigéria, do Sul da Ásia [No mês de julho, enchentes atingiram a cidade de Suleja, na Nigéria. Pelo menos 13 pessoas morreram e várias desapareceram. Já no Sul da Ásia, de junho a setembro, enchentes tomaram Índia, Bangladesh e Nepal e causaram pelo menos 1200 mortes. Ambos os casos tiveram baixíssima repercussão midiática e comoção internacional]. Não as reconhecemos, não as enxergamos como um Outro possível, próximo e mesmo igual em afetos e direitos. A forma com que nos comovemos ou não com algum grupo social está relacionada com a forma como a representação deste outro nos é passada. Pois onde está a nossa sensibilidade e nossa comoção? Obviamente que está onde a gente se reconhece, identifica-se ou ao menos se aproxima. E certamente não é o caso de Serra Leoa, não gastamos mais do que um breve suspiro com o ocorrido. Por isso, acabei de dizer que mesmo se a mídia se dedicasse muito mais ao que ocorreu em Serra Leoa, de nada adiantaria caso o enquadramento dado a este lugar e a estas pessoas continuasse sendo o mesmo.

E qual a moldura, o retrato midiático que temos de Serra Leoa? Sempre digo que apesar de ser um país pequeno do oeste africano, Serra Leoa não possui o “privilégio do esquecimento”. Vou te dar um exemplo, até hoje pessoas que podem ser consideradas bem informadas me perguntam: “e como está a guerra lá?” (uma Guerra Civil que teve seu fim há 15 anos) ou, “você não tem medo?”, “dizem que lá é tão perigoso”. Cito estes poucos exemplos, de uma imensa quantidade de mal-entendidos em relação ao país e a sua população, para demonstrar exatamente como estes são vistos, entendidos, classificados. O enquadramento é do Outro distante, exótico, perigoso, que traz a marca da guerra e também da doença. Assim, pela marca do enquadramento da violência, o Outro africano serra-leonês se distancia e se desumaniza.

O outro possível

Pois bem, Serra Leoa foi emoldurada tanto pelos “fatos” quanto pelo entretenimento (filmes como “Diamantes de Sangue” e “Senhor das Armas”) como lugar perigoso, e esta forma de perceber este lugar está inserida em uma cultura do medo e do terror. O pouco que se sabe do país faz referência a momentos de conflitos, tensões, as chamadas “tragédias”. A imagem de Serra Leoa foi cristalizada como lugar do perigo e mesmo da barbárie. Quais são as referências que nos são passadas? Uma guerra civil violenta da qual nada se sabe a não ser uma superficial informação sobre meninos soldados, exploração e tráfico de diamantes e amputação de mãos.

Obviamente que nada disso é mentira. Mas também não pode ser considerada a fotografia definitiva de um país que possui 18 etnias, que se orgulha de ser um dos países com a maior tolerância religiosa do mundo, que se orgulha de viver em paz na visão de seus próprios cidadãos. Enquadrar por si só é uma violência, ainda mais quando a própria imagem é violenta, isso cristaliza uma ideia que dificilmente será desconstruída ou demorará muito tempo para ser suplantada, a exemplo da Colômbia. A moldura em que a mídia enquadra Serra Leoa destrói toda a possibilidade dela aparecer aos nossos olhos como algo diferente, como algo possível. Esta imagem propagada da violência, do perigo e do medo não nos deixa perceber uma outra imagem, esta da refeitura dos mundos, da resiliência.




Coveiros do "Cemitério do Ebola", onde foram enterrados também os atingidos pela enchente (Foto: Denise Pimenta) 

Pessoas, suas histórias e a espetacularização da tragédia

A quantidade de imagens de covas abertas, mulheres desesperadas chorando e se jogando ao chão, as imagens de uma imensa quantidade de caixões empilhados; ao final, não comove, desumaniza. Talvez, em outro contexto, espaço e tempo isso pudesse gerar grande comoção, mas não num lugar “retrato da violência”. Informar e reafirmar que várias pessoas morreram e que foram enterradas sem terem sido identificadas, pontuar que muitas foram mutiladas e foram enterrados membros não identificados em grandes covas coletivas, não é mentira. Mas registrar apenas este tipo de imagem e informação quando se fala de Serra Leoa é apenas reforçar a desumanização e o distanciamento, não permitindo de maneira alguma que este Outro venha a se tornar possível para nós.

E muitas das coisas registradas são fatos realmente. Mas sem história, sem narrativa. Recentemente fui ao cemitério, vi as covas, sem identificação em nenhuma delas, um amontoado de terra. Mas em um monte de terra, em uma cova havia um enfeite azul e branco, o que pode ser comparado à nossa coroa de flores. Ou seja, alguém esteve ali, no meio de um grande número de covas, colocou a homenagem exatamente naquela. Alguém, ou uma família inteira, identifica aquela cova não identificada e desumanizada outrora pela mídia. Alguém conta aquela história e tece uma narrativa. Assim como os coveiros contam outras histórias, planejam organizar e limpar o lugar logo antes que setembro acabe, importam-se em conferir certa dignidade àquelas pessoas.

Quando fui ao campo dos desabrigados, aqueles que além dos parentes, perderam suas casas, o que não é coisa menor e que se pode recuperar facilmente, na fala de Mariama, uma desabrigada: “Aqui a pessoa sem casa não é nada”; vi algumas cenas que muito me fizeram refletir sobre a reprodução de uma moldura fixa da tragédia. Enquanto as pessoas da comunidade afetada de Regent Road corriam para se registrar como vítimas do deslizamento para que pudessem ter acesso a doações, faziam filas para os mais variados propósitos, um jornalista estrangeiro; homem, ocidental e branco tirava muitas fotografias de um grupo de mulheres sentadas, exauridas. Como se esta fosse a única realidade possível.

Enquanto isso, dentro do prédio, outras muitas mulheres, algumas que perderam toda a família, improvisavam uma cozinha, pilavam a pimenta, cozinhavam o arroz, pois afinal é preciso preparar a comida para muitas pessoas, dentre elas, crianças. O que estou tentando dizer é que há uma glamourização do desastre, uma romantização do desastre que foca apenas na dor e não na agência das pessoas. Para mim isso não permite que Serra Leoa saia do mapa-múndi imaginário e imaginado do terror. E de forma nenhuma estou diminuindo a dimensão do ocorrido, apenas dizendo que há muito mais coisa para além da tragédia. As pessoas inclusive possuem suas próprias histórias sobre o terrível ocorrido, o que não aparece quase em lugar algum, apesar de existir uma imprensa internacional cobrindo a enchente.

Números de mortes causadas pelos deslizamentos

Estes dados não estão em nenhum lugar exatamente e estão em todos os lugares. O que existe é uma disputa e complementaridade de dados oficiais e de dados não oficiais, ambos sendo narrativas, nenhum deles sendo mentira ou verdade. Isso não apenas para os dados da enchente, mas também do Ebola e da guerra. Muitos dos corpos enterrados em valas coletivas eram apenas de membros que foram mutilados pelo deslizamento de pedras. Assim, mesmo no cemitério e nos hospitais não se têm clareza da quantidade de mortos, desaparecidos e mesmo doentes e desabrigados.

Existe um esforço de registrar desaparecidos e sobreviventes, mas é necessário entender que estas pessoas estão dentro de um fluxo e nem sempre são contabilizadas. A quantidade de mortos está em torno de 400 pessoas, talvez um pouco menos, mais covas foram abertas no cemitério do que o realmente necessário, justamente por não se saber a quantidade de mortos.

Existem muitos desabrigados e órfãos, que estão sendo encaminhados para tendas em um novo campo de desabrigados. O que quero apontar é que estas são narrativas do evento, construindo as histórias e a História. Talvez o mais interessante seja nos atentarmos para o que nos conta esta constelação de narrativas. E ainda pensando sobre este número, lembrei-me da narrativa que são em torno de 600 desaparecidos.

Apesar das buscas por sobreviventes terem sido encerradas, tenho minhas dúvidas se mortos e desaparecidos podem estar na mesma classificação, e penso isso na medida em que foi lançado um tributo aos desaparecidos com uma música chamada “Usai u dae?”, em krio, língua mais falada do país, “Onde você está?”. Mesmo que provavelmente estas pessoas estejam mortas e suas famílias até possam dá-las por mortas, são desaparecidos, o que ainda abriria outra reflexão sobre o status de desaparecido num fenômeno como este.

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