Brasileiros

O Sergio Mendes que o Brasil desconhece

Cultura - Música

Subestimado por muitos, à frente do sexteto Bossa Rio, o pianista niteroiense foi decisivo para os caminhos tomados pela música instrumental brasileira a partir de 1963
Marcelo Pinheiro
Publicado em: 06/01/2018 - 04:48Alterado em: 06/01/2018 - 05:35
Detalhe da capa do álbum "Você Ainda Não Ouviu Nada". Em sentido horário: Sergio, o saxofonista Hector Costita, o contrabaixista Tião Neto, o trombonista Ed Maciel. o baterista Edison Machado, Ed, Sergio, Tião e Raul de Souza. Foto: Divulgação / Philips

Se você engrossa o coro de milhares de brasileiros que insistem em atribuir a Sergio Mendes o papel de vilão com epítetos reducionistas e preguiçosos como “diluidor da bossa nova”, “pasteurizador da música brasileira”, dispa-se de seus preconceitos e perca (ou melhor, ganhe), alguns minutos do seu dia para conhecer e ouvir o álbum lançado por ele, em 1964, na companhia luxuosa do poderoso sexteto Bossa Rio.

O título superlativo do LP adverte: Você Ainda Não Ouviu Nada!. Por mais cabotino que possa parecer, ouvintes brasileiros e músicos de todo País não haviam mesmo escutado algo de fato semelhante a esse inspirado registro do pianista nascido em Niterói, em 1941.

Além do time de craques que Sergio reuniu para a gravação, o LP teve o auxílio luxuoso de ninguém menos que Tom Jobim. Ao lado de Sergio, o maestro carioca assinou, a quatro mãos, todos os arranjos de Você Ainda Não Ouviu Nada!.

A epifania promovida pelo time de feras do Bossa Rio, que por oito meses ficou trancafiado no estúdio carioca da Philips para concluir o registro iniciado em 1963, justifica o ineditismo defendido no título do LP.




Capa do LP "Você Ainda Não Ouviu Nada!". Foto: Divulgação / Philips

A orquestração de Jobim e o piano econômico e preciso de Sergio, em reverência à imponente unidade sonora de seu combo, também se tornaram referência para centenas de músicos que surgiriam depois.

Como um livro didático e atemporal, Você Ainda Não Ouviu Nada! é objeto de estudo em conservatórios dentro e fora do País. Sem incorrer no risco de cometer exagero, sucessivos críticos e pesquisadores também atribuem ao LP o mérito de ele ter sido um dos títulos que ajudou a definir os estatutos do nascente samba-jazz, reconhecido, por isso, como um dos mais importantes álbuns para a história da música instrumental popular do País na segunda metade do século 20.

Obcecado pelas teclas brancas e pretas do piano desde a primeira infância, quando iniciou os estudos com a professora Carmelita Lago, Sergio amadureceu precocemente como músico.

Em seus primeiros dias de adolescência, já era consumido pela percepção de que a crescente paixão pelo jazz o levaria a se dedicar muito mais à música popular do que à formação clássica que todo pai e mãe, como os seus, aspiravam para seus rebentos.

Em 1960, aos 18 anos de idade, Sergio passou a frequentar a boemia do Beco das Garrafas e era assíduo nas jam sessions do histórico Little Club, o inferninho dos empresários e irmãos italianos Alberico e Giovanni Campana, espaço que foi decisivo para a construção do mito em torno do estreito beco da Rua Duvivier, em Copacabana.

No ano seguinte, liderando o Hot Trio e inspirado por grandes pianistas do hard bop como Horace Silver e Bill Evans, Sérgio também passou a ser músico dos mais requisitados no não menos histórico Bottle’s Bar (também de propriedade dos irmãos Campana).

Naquele mesmo ano, com outro de seus combos, o Brazilian Jazz Sextet, o pianista participou do III Festival Sul-Americano de Jazz, em Punta Del Este, no Uruguai. Respeitado por seus pares e pelos frequentadores do Beco, não tardou para que Sergio também despertasse o interesse das gravadoras.

Em 1962, com o Hot Trio e a convite do diretor artístico e produtor da Philips, Armando Pittigliani, Sergio lançou seu primeiro LP, Dance Moderno. Meses mais tarde, em novembro, liderando a primeira formação do sexteto Bossa Rio – Paulo Moura (sax), Pedro Paulo (trompete), Octávio Bailly Jr. (contrabaixo), Dom Um Romão (bateria) e Durval Ferreira (violão) – Sergio se apresentou na histórica noite da bossa nova no palco do Carnegie Hall, em Nova York, onde brilharam as estrelas de João Gilberto e Tom Jobim. 

Em 1963, ainda mais próximo de Pittigliani e reverenciado pelo poderoso chefão da Philips, o pianista reformulou o Bossa Rio para iniciar as longas sessões de estúdio de Você Ainda Não Ouviu Nada!. Foi então que o combo passou a ser integrado pelo saxofonista tenor argentino Hector Costita, o contrabaixista Tião Neto, o baterista Edison Machado (a poderosa cozinha do Bossa Três, do pianista Luiz Carlos Vinhas), e os trombonistas Raul de Souza e Ed Maciel.

Em dois temas do LP, Coisa N° 2 (Moacir Santos) e Noa Noa (do próprio Sérgio), há também a participação do saxofonista tenor Aurino Ferreira. Além desses dessas duas composições, o álbum é repleto de clássicos da bossa nova que ganharam arranjos até então inimagináveis, especialmente no vigor dos solos e nos ataques dos metais, de uma beleza sem precedentes.

Também estão em Você Ainda Não Ouviu Nada! releituras de: Ela é Carioca, O Amor em Paz e Garota de Ipanema (Tom e Vinicius); Desafinado (Tom e Newton Mendonça); Corcovado (Tom); Nanã (Moacir Santos); e Neurótico, pérola do samba-jazz composta pelo maestro J.T. Meirelles, líder do Copa 5. Primitivo, outra inspirada composição de Sergio e um legítimo standard do samba-jazz, completa os dez temas. 

Chover no molhado é falar sobre o sucesso experimentado por Sergio Mendes depois de 1966, quando, radicado nos EUA, o pianista lançou pelo selo A&M Records, Herb Alpert Presents Sergio Mendes & Brasil’ 66.

Impulsionado pelo sucesso da versão de Mas, Que Nada! , do amigo e colega de gravadora Jorge Ben, Sergio ultrapassou de maneira fugaz a vendagem de mais de um milhão de cópias e, assim, pavimentou o caminho de sucesso que fez dele uma estrela mundial – caminho este que tanto desagradou aos milhares de brasileiros que mencionei no parágrafo de abertura deste texto, muito embora Sergio tenha sido uma espécie de embaixador para ouvidos estrangeiros da boa música feita no País, além de, generoso, ter aberto o caminho para o sucesso mundial de outros dois gigantes, o próprio Ben Jor, já mencionado, e Marcos Valle, de quem ele regravou, com a cantora Wanda Sá, o solar tema Samba de Verão.  




Sergio e a equipe de carpinteiros, Harrison Ford à dirreita, que trabalhou na construção de sua
mansão em Los Angeles. Foto: Arquivo pessoal

Aos 72 anos, o pianista já lançou quase 40 álbuns autorais e um sem-número de coletâneas. Sergio, que se apresentou no réveillon de 2007 na praia de Copacabana, vive até hoje em Los Angeles, onde, no início dos anos 1970, construiu uma imponente mansão com direito a um belo estúdio de gravação que teve como carpinteiro, pasmem, um jovem aspirante a ator chamado Harrison Ford. Nos anos 1980, como bem sabemos, Ford tornar-se-ia uma das maiores estrelas de Hollywood, ao personificar o aventureiro Indiana Jones.

Em 2002, por insistência de um ilustre fã, o cantor e compositor Milton Nascimento, Você Ainda Não Ouviu Nada! foi relançado em CD, pelo selo Dubas. Na contracapa original do LP, em um texto reverente, Tom Jobim afirma "não sou profeta, mas creio que este disco, produto de muito trabalho e amor, abrirá novos caminhos no panorama de nossa música". Profeta ou não, pra variar, Tom estava certo. 

Ouça abaixo, na íntegra, o álbum Você Ainda Não Ouviu Nada!

 

Boas audições e até a próxima Quintessência!

Originalmente publicado no site da revista Brasileiros em 24.10.2013

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