Brasileiros

O decoro parlamentar e a cueca samba-canção

Opinião
- Coisas da História

Primeiro deputado cassado no Brasil perdeu o mandato por posar sem a parte de baixo do fraque. Depois, escreveu a peça “O mundo em cuecas”
Luiza Villaméa
Publicado em: 30/11/2017 - 12:31Alterado em: 30/11/2017 - 12:31
Barreto Pinto, cuja história saiu até na revista americana “Time”. Foto: Jean Manzon / "O Cruzeiro"

Falta de decoro parlamentar é um problema antigo. Getulista de carteirinha, Edmundo Barreto Pinto, do PTB, foi o primeiro deputado cassado por comportamento inidôneo. Era reincidente. Da primeira vez, ele posou de torso nu, embaixo de um chuveiro, para reforçar declaração de que “era Getúlio Vargas até debaixo d’água”. Passou quase despercebido.

O impacto foi diferente quando a revista “O Cruzeiro” chegou às bancas no final de junho de 1946. A semanal ilustrada estampou o parlamentar de casaca, cueca samba-canção e pose de imperador romano. Era a abertura da reportagem de 11 páginas intitulada “Barreto Pinto sem máscara”. Escândalo total. Repercutiu até na revista americana “Time”.

A primeira reação de Barreto Pinto foi anunciar que havia sido enganado por um turco e um francês, alegando que as fotografias tinham sido “preparadas com o engenho do ‘truc’ ”. Autor da reportagem, o jornalista David Nasser não gostou da referência. “O senhor Barreto Pinto sabe muito bem que não sou turco”, disse, lembrando que nascera em Jaú (SP).

Já o francês Jean Manzon, que fez as fotos, garantiu que as imagens não tinham passado por nenhum tipo de manipulação. Em seguida, colocou os negativos à disposição da Assembleia Constituinte. A contestação parou aí. Os dois jornalistas não responderam quando o deputado disse ter sido convencido de que apareceria na fotografia apenas da cintura para cima.

Natural de Vassouras, Barreto Pinto era um homem que chegara ao poder com um certo esforço, uma dose de sorte e muita picaretagem. O esforço envolveu estudar Direito no Rio ao mesmo tempo que trabalhava. Formou-se quando era deputado classista, uma categoria escolhida pelos sindicatos de trabalhadores, com os mesmos direitos dos outros parlamentares.

O mandato foi interrompido com a decretação do Estado Novo, em 1937. Oito anos depois, com Getúlio afastado do Palácio do Catete, os partidos políticos começaram a se reorganizar. O PTB não tinha assinaturas suficientes, mas conseguiu o registro na graças a manobras de Barreto Pinto, que era secretário do presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

A generosa dose de sorte veio em 1950. Barreto Pinto tinha sido cassado no ano anterior, depois de processo de quase três anos. Candidato a deputado federal, ele recebeu votação pífia, mas acabou beneficiado pelo sistema eleitoral da época. Assumiu uma cadeira no lugar de Getúlio Vargas, que havia sido eleito por vários Estados, outra possibilidade do período. 

Naquela altura, Barreto Pinto já se apresentava como advogado, jornalista e escritor teatral. Uma de suas peças, “O mundo em cuecas”, reforçou uma conversa persistente nos bastidores da política: na busca pela fama, o deputado teria feito um acordo com Davi Nasser e Jean Manzon para torná-lo muito conhecido, nem que fosse às custas de uma pose heterodoxa..




Sem recorte, a foto de Jean Manzon que abriu a reportagem "Barreto Pinto sem máscara"

 

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