Brasileiros

Quando meninos são fichados como terroristas

Página B
História - Reportagem

Presos com a avó e os pais, os brasileiros Ernesto, Zuleide, Luis Carlos e Samuel conheceram os cárceres do regime militar, foram enquadrados como subversivos e banidos do País. O mais novo tinha 2 anos e 3 meses. O mais velho estava para completar 9 anos
Luiza Villaméa
Publicado em: 10/12/2013 - 00:00Alterado em: 20/09/2017 - 17:54
Presos com a avó e os pais, os brasileiros Ernesto, Zuleide, Luis Carlos e Samuel conheceram os cárceres do regime militar

A ficha de Ernesto Carlos Nascimento nos arquivos do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (Deops), em São Paulo, não deixa dúvidas: o “elemento” é subversivo. Informações detalhadas sobre suas ações terroristas podem ser obtidas nas pastas 30Z-160-9633 e 30Z-160-9636. Junto com Zuleide, Luis Carlos e Samuel, Ernesto foi banido do País por decreto do general-presidente Emílio Garrastazu Médici, em junho de 1970. O decreto teve como base o Ato Institucional número 13, que permitia “banir do território nacional o brasileiro que, comprovadamente, se tornar inconveniente, nocivo ou perigoso à segurança nacional”. Ocorre que Ernesto, Zuleide, Luis Carlos e Samuel são as quatro crianças da fotografia da página anterior, tirada na Base Aérea do Galeão, no Rio de Janeiro, minutos antes de serem embarcadas em um Boeing 707 da Varig rumo a Argel, capital da Argélia. Ernesto, o mais novo, tinha apenas 2 anos e 3 meses. Samuel, o mais velho, completaria 9 anos dali a quatro meses. Os 40 adultos que aparecem na imagem são presos políticos do regime militar instaurado no País entre 1964 e 1985, que deixou pelo menos 357 mortos e desaparecidos, além de tratar meninos como terroristas. Na fotografia, a pessoa mais conhecida é o jornalista Fernando Gabeira, que está de camisa branca, ao lado de Samuel. Para as crianças, quem mais importava era a avó, a costureira Tercina Dias de Oliveira.

Tercina, a senhora de óculos da fotografia, marcou época na resistência à ditadura militar. Semianalfabeta, ela era simpatizante do Partido Comunista do Brasil desde meados dos anos 1940. Nascida em Barreiros (PE), casou-se pela primeira vez aos 14 anos, pressionada pela família. Seis meses depois, ficou viúva. Mais três casamentos e mais três vezes viúva, Tercina morava em Osasco (SP) quando um de seus filhos, Manoel Dias do Nascimento, começou a trabalhar ainda adolescente como operário. Incentivado pela mãe, Manoel também passou a atuar no sindicato dos metalúrgicos. Pouco depois, casou-se com a operária Jovelina Tonello. Em 1968, ele estava na linha de frente de uma greve que estremeceu Osasco e provocou pesada reação dos militares. Reprimido o movimento, Manoel não teve outra alternativa a não ser sair de circulação. Na clandestinidade, aderiu à organização de luta armada Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).

Mãe de quatro filhos legítimos e dois de criação, Tercina não demorou a seguir os passos de Manoel. Ao entrar para a VPR, levou as três crianças que viviam com ela – Zuleide, Luis Carlos e Samuel. Na ocasião, o capitão do Exército Carlos Lamarca, que desertara do 4o Regimento de Infantaria para incorporar-se à VPR, estava montando um centro de treinamento de guerrilha em uma área de mata fechada, incrustada na Serra do Azeite, no Vale do Ribeira, no sul do Estado de São Paulo. Mais velha que a maioria dos guerrilheiros, Tercina logo começou a ser chamada de Tia, e foi uma das primeiras pessoas a serem deslocadas para o Vale do Ribeira. “O Lamarca adorava a Tia. Eles tinham uma relação de mãe e filho”, lembra o ex-sargento Darcy Rodrigues, que deixou o Exército junto com Lamarca e coordenou uma das bases da área de treinamento.

No Vale do Ribeira, Tercina tinha dupla função. Com as crianças e o sapateiro José Lavecchia, formava uma família de fachada, instalada em uma casa de pau-a-pique na entrada da área de treinamento. “Se aparecesse algum estranho, eu tinha de correr até a casa de cima e puxar a cordinha que fazia subir um pano branco”, conta Samuel, que era filho adotivo de Tercina, mas fazia as vezes de neto na família de fachada. A casa de cima à qual Samuel se refere era uma construção camuflada na mata que servia como depósito de mantimentos e munição. Bem perto, havia uma cachoeira. Na casa, tinha até uma geladeira movida a gás, onde ficavam guardados medicamentos e soro antiofídico.

A outra função de Tercina era fabricar os uniformes usados nos treinamentos, em uma oficina montada na mesma casa que servia como depósito. Para que as costuras resistissem à umidade da Mata Atlântica, ela usava sempre fios de nylon. As roupas eram similares às do Exército. “Mas tinham bolsos maiores, com prega macho-fêmea, que estufa e aumenta o volume’, diz o ex-sargento Darcy. “Nos bonés, de couro, ela pregava uma proteção para a nuca, que nem o Lamarca tinha visto quando serviu no Oriente Médio.” A diferença é que no Canal de Suez, onde Lamarca integrou as tropas de Paz da ONU em 1962, os soldados usavam o boné com protetor de pescoço para barrar a entrada de areia e evitar queimaduras de sol. Na mata, a ideia era poupar a nuca dos guerrilheiros das picadas de inseto.

Com pouca noção do que se passava no entorno, Zuleide, Luis Carlos e Samuel tinham na área de treinamento uma rotina de criança que não frequenta escola nem convive com outros garotos. Brincavam nas proximidades da casa de pau-a-pique, pegavam frutas no pé, tomavam banho de rio e lidavam com os muitos animais que Tercina levou para o sítio. Lá, havia criação de porcos e galinhas, mas Zuleide se lembra em especial de um gatinho e do pé de laranja-lima próximo à porta da cozinha. “Tinha também o meu avô, que me punha nos ombros e andava comigo para baixo e para cima”, conta Zuleide, hoje secretária em um escritório de advocacia em São Paulo. Como ela, Samuel tem ótimas lembranças do “avô” Lavecchia, o senhor de cabelos brancos e camisa listrada bem no meio da fotografia dos presos políticos na abertura desta reportagem. “Ele me ensinou a andar a cavalo, a pegar pato, a fazer estilingue. Era muito bacana”, diz Samuel, que atualmente trabalha como operador de empilhadeira em São João de Meriti (RJ).

Na cidade vizinha de Duque de Caxias vive Luis Carlos, que é encanador industrial, e também não se esquece dos tempos do Vale do Ribeira. Analisando em retrospectiva, Luis Carlos acredita que tanto ele quanto Zuleide e Samuel sabiam que participavam de uma situação excepcional, mesmo sem ter consciência do contexto político. “A gente tinha noção do que podia falar, do que não podia. Sabia que não podia olhar pela janela quando transitava de um aparelho para outro”, diz, referindo-se às casas clandestinas usadas pelas organizações de luta armada. Filhos de um filho adotivo de Tercina, Luis Carlos e Zuleide eram criados pela avó paterna desde muito pequenos, quando os pais se separaram. Ambos se recordam de uma cena que se repetiu na área de treinamento e revela uma faceta jocosa, pouco conhecida de Carlos Lamarca. Depois de muitos dias na mata, o líder da VPR às vezes aparecia na casa de pau-a-pique, sentava no chão da cozinha, tirava as botas fedidas e provocava Tercina:

– Ei, Tia, quer toucinho para o seu feijão?

Com exceção de Lamarca e de sua companheira Iara Iavelberg, que passou uma temporada no Vale do Ribeira, os guerrilheiros não frequentavam a casa de Tercina. Em geral, ficavam em duas bases rústicas montadas no meio da mata e às quais as crianças jamais tiveram acesso. Zuleide se recorda apenas de uma ocasião em que um dos guerrilheiros, Ariston Lucena, apareceu para se tratar de um corte de facão na perna. Nos meses em que moraram no Vale do Ribeira, Zuleide, Luis Carlos e Samuel também não se encontraram com Ernesto, que era chamado de Chezinho, em alusão ao líder guerrilheiro Ernesto Che Guevara. Neto de Tercina, filho de Jovelina e Manoel, aquele que esteve à frente da greve de Osasco, Ernesto passou por diferentes aparelhos no período. Antes, quando não tinha nem 2 anos, também serviu de fachada para Lamarca.

Com a fotografia estampada em cartazes de terroristas procurados, Lamarca ainda não tinha feito a plástica que alterou de leve sua fisionomia. Precisava se deslocar de São Paulo para a cidade litorânea de Mongaguá, onde aconteceria um congresso clandestino da VPR. “O bebê fez parte do plano para levar Lamarca em segurança”, conta Antonio Roberto Espinosa, que integrava o comando da organização e também estava nos cartazes de procurados.

“Saímos de São Paulo às 4 horas da manhã, para chegar no máximo às 5h30 no litoral. Imaginávamos que seria tranquilo”, diz Espinosa. Ele assumiu o volante de uma Rural Willys verde, simulando formar um casal com a integrante da VPR Ana Matilde Tenório da Motta, que ocupava o banco dianteiro de passageiro. Atrás, um outro casal – Lamarca e Jovelina Tonello, com o filho Ernesto no colo. Sem nenhum problema, eles passaram pelo pedágio e desceram a serra pela Rodovia Anchieta. A estrada estava vazia. Em seguida, pegaram a Rodovia Pedro Taques, que tinha pista única, com duas faixas e acostamento irregular. O dia não tinha amanhecido. De repente, depois de uma curva fechada, viram uma porção de luzes e viaturas estacionadas. Espinosa gelou. Conhecia a área dos tempos em que servira Exército e tivera de acampar à beira da Pedro Taques. Sabia que estava em uma região de lamaçal, difícil de escapar.

Jovelina, a mãe de Ernesto, não disse nenhuma palavra: “Só continuei a segurar o meu filho, enquanto jogavam luz de lanterna na cara de cada um de nós”. Espinosa desceu da Rural, enquanto um tenente examinava os documentos do carro, que estavam em nome de Eduardo Collen Leite, o Bacuri, também procurado pela repressão. Tentando aparentar tranquilidade, Espinosa disse que emprestara o carro de um amigo para deixar no litoral o tio doente, com problemas no pulmão. Explicou que o tio estava acompanhado pela mulher e pelo filho. Com jeitinho, falou da inconveniência de ser parado no meio da estrada. “É para a segurança de vocês mesmos, proteção contra bandidos e terroristas”, respondeu o tenente.

Ninguém sabe precisar quanto tempo durou a conversa entre Espinosa e o tenente. O fato é que pareceu uma eternidade. Todos imaginavam que, durante uma possível blitz, a presença de uma criança no carro representaria dispensa rápida. “Eu tinha tirado um revólver do porta-luvas e escondido na cintura. Estava usando um pulôver fino, não sei como o tenente não notou”, afirma Ana Matilde ao relembrar o episódio. Durante a blitz, Jovelina percebeu quando Lamarca passou o braço por detrás do banco e engatilhou uma arma. Era uma metralhadora Ina 45. A mãe de Ernesto achou que todo mundo iria morrer. A sensação aumentou quando pediram para abrir o porta-malas. Espinosa, porém, tratou de mostrar que eram apenas cobertores, levantando ele mesmo alguns deles, sem deixar à mostra o armamento que havia debaixo.

“No final, o tenente nos liberou. Andei um quilômetro, no máximo. Veio uma curva. Depois, uma reta. Tive uma taquicardia”, relata Espinosa. “Nós nunca conversamos entre nós sobre isso. Só o Lamarca reclamou. Ficou puto de eu apresentá-lo como um tio doente.” Com Jovelina, o líder da VPR foi mais efusivo: “Lá na casa, Lamarca levantou o Ernesto para o alto e disse: ‘Esse menino salvou a minha vida. Não deixe ele sofrer nunca’”. Mais tarde, deu um punhal dourado para a família entregar a Ernesto quando o garoto crescesse.

O punhal dourado estava em um aparelho do bairro de Vila Formosa, em São Paulo, quando uma equipe da temida Operação Bandeirantes (Oban) chegou para prender Jovelina na tarde da segunda-feira 18 de maio de 1970. Horas antes, seu marido Manoel havia sido capturado ao cobrir um ponto, como eram chamados os encontros clandestinos entre integrantes dos grupos de resistência ao regime militar. No bolso, Manoel tinha uma multa de trânsito, com o endereço de Vila Formosa. Ainda naquela segunda-feira, a família se reencontrou na sede da Oban, que havia sido instalada na rua Tutoia, na Vila Mariana, como lembra Jovelina:

– Trouxeram o Manoel com as mãos amarradas, arrastando o corpo pelo chão, apoiado nos cotovelos. O Ernesto desceu do meu colo, ficou passando a mão no rosto do Manoel e repetindo: “Não bate no meu paizinho”.

Levada em seguida para uma cela da Oban, Jovelina perdeu o contato com o filho. Dias depois, já nas dependências do Dops, foi retirada da cela e reunida ao marido em uma sala. Um torturador, que eles não sabem identificar, disse ao casal que não tinha filhos e queria adotar Ernesto. Diante das negativas do casal, o torturador comentou que eles ficariam sem alternativa, pois até Tercina, a mãe de Manoel, estava presa. De fato, um mês antes de Jovelina, Tercina e seus três netos haviam caído nas garras da Oban.

Eles já não estavam mais no Vale do Ribeira quando os homens da Oban chegaram. Uma série de prisões em São Paulo havia colocado a segurança da área em risco. Convencido de que, mais dia menos dia, a repressão arrancaria na tortura informações sobre o local, Lamarca decidiu acabar com o esquema de fachada. Incorporou Lavecchia, que fazia o papel de avô, às bases de treinamento na mata. Ao mesmo tempo, transferiu Tercina e as crianças para a cidade de Peruíbe, no litoral paulista. No começo, eles moraram em uma pensão chamada Samburá. Depois, a própria Tercina alugou uma casa de dois quartos na cidade, na qual chegou a hospedar Lamarca e Iara, que lá se reuniram com outros integrantes da VPR.

Uma madrugada, ela acordou com batidas na janela. Era Maria do Carmo Brito, do comando da VPR, que havia sido presa dois dias antes no Rio de Janeiro. Junto com Maria do Carmo, estava uma equipe da Oban chefiada pelo capitão Mauricio Lopes Lima, o mesmo que décadas depois seria reconhecido como um dos torturadores da presidenta Dilma Rousseff. Luis Carlos demorou para se dar conta do que estava acontecendo: “Minha avó mandou a gente se vestir e não falar nada. A gente era bem disciplinado, obedeceu. Percebi que era prisão em São Paulo. Foi quando desabei. Agarrei nela, mas eles me arrebataram e arrastaram a minha avó.”

Em seguida, as três crianças foram levadas para um casarão, onde só tiveram contato com uma mulher. “Era um casarão de luxo, com móveis antigos. A senhora não tratou mal a gente, mas era seca, não tinha costume de lidar com criança. E a gente tinha de ficar o tempo todo no quarto, não podia andar pela casa”, diz Luis Carlos. Samuel se lembra de que eles foram levados para esse casarão de madrugada. Depois de dois ou três dias, as crianças foram separadas. Com 4 e 6 anos de idade, Zuleide e Luis Carlos foram levados para o que acreditam ser dependências do Juizado de Menores. “Eu tinha o cabelo comprido. Lembro quando fizeram uma trança e cortaram o meu cabelo. Também tiraram meu brinco de ouro, mas não me lembro de ter apanhado. O Samuel, coitado, apanhou que nem gente grande. Como ele era mais velho, tinha quase 9 anos, colocaram junto com infratores”, diz Zuleide.

Como Zuleide e Luis Carlos, Samuel não sabe exatamente onde ficou: “Era uma espécie de reformatório, para menores com problemas. Só tinha pessoas más. Batiam muito. Para não deixar marcas, batiam na sola dos pés, com pedaços de madeira. Tentei fugir duas vezes, mas não consegui.” Ernesto, o mais novo dos quatro, não se lembra de nada desse período: “Tenho esse vazio na minha vida. Um trauma. Ninguém sabe direito o que aconteceu comigo naqueles dias. Sei que vi meu pai na tortura, mas eu era muito pequeno. Tinha 2 anos”. Em algum momento, ele foi levado para o mesmo lugar que Zuleide e Luis Carlos. Estavam juntos quando um comando guerrilheiro sequestrou no Rio o embaixador da Alemanha no Brasil, Ehrenfried Anton Theodor Ludwig Von Holleben.

A Seleção Brasileira de futebol disputava as quartas de final da Copa do Mundo de 1970, quando o governo Médici aceitou trocar o embaixador alemão por 40 presos políticos. Pela negociação, assim que os brasileiros desembarcassem na Argélia, o embaixador seria liberado no Rio. O nome de Tercina constava da relação de presos a serem trocados pelo embaixador, com direito a sair acompanhada pelos três netos que estavam em sua companhia no momento da prisão. Determinada como poucos, Tercina bateu o pé. Disse que só sairia do Brasil se fosse com os quatro netos. “Teve até companheiro tentando convencê-la a sair só com os três, pois ela estava atrasando as negociações. Havia o temor de que descobrissem o cativeiro do embaixador”, conta Jovelina, que se encontrava presa no Dops e também fez suas exigências: “Falei que só assinava a autorização para Ernesto sair do Brasil se eu visse o meu filho. Desde a prisão, um mês antes, eu não sabia dele.” Ficou chocada quando levaram o menino ao seu encontro. De esperto e falante, Ernesto havia se tornado um garoto retraído e calado, avesso ao contato com a própria mãe.

E foi assim, ainda com jeito de bebê, que Ernesto entrou para a lista de “elementos subversivos solicitados para resgate” que o delegado Alfeu Forte, do Dops, entregou para o coronel Erar Campos Vasconcelos, chefe da 2a Seção do II Exército, em 15 de junho de 1970. No dia seguinte, acompanhado por Tercina, Zuleide, Samuel, Luis Carlos e outros oito presos políticos encarcerados em São Paulo, Ernesto foi entregue a um tenente-coronel e a um major, piloto e copiloto do avião bimotor C47-Douglas, prefixo 2056, da Força Aérea Brasileira, que voou para o Rio. Na Base Aérea do Galeão, o grupo se reuniu a outros 31 presos políticos e, depois de posar para a fotografia que entrou para a história recente do Brasil, embarcou para a Argélia.

Um mês depois, Tercina exilou-se com os quatro netos em Cuba. Ernesto continuou calado e arredio por muito tempo. Se aparecia alguma pessoa estranha em sua casa, corria e se escondia debaixo da cama. Mordia quem tentava pegá-lo. “Eu também tinha pavor de polícia. A Damaris é quem ajudou nisso”, diz, referindo-se a Damaris Lucena, que também estava exilada em Cuba e é mãe de Ariston, o guerrilheiro ferido a facão no Vale do Ribeira. “Ela pediu a um policial que me entregasse um carrinho de plástico. Como os outros guardas de trânsito de Cuba, ele andava em uma Harley-Davidson enorme. Era antiga, mas linda. Ele me deu o carrinho e me colocou na moto. Daí em diante, eu achava que todo policial em cima de uma Harley-Davidson era meu amigo.”

Em Cuba, Tercina e os quatro netos dividiram por muitos anos uma casa com Damaris, que também estava na ilha com quatro crianças. Samuel, já com 9 anos, foi pela primeira vez à escola. Como os outros meninos, completou um curso profissionalizante. “Eu queria ser piloto de caça, mas não deixaram. Era uma carreira que só os cubanos podiam seguir”, diz. Ainda assim, ele acredita que ficou no lucro. Nascido no bairro do Éden, em São João de Meriti, Samuel vivia em situação de risco. Morava com a mãe e as irmãs, que trabalhavam fora e precisavam deixá-lo sozinho o dia inteiro. Sensibilizada com a situação do garoto, Tercina, que antes de se radicar em Osasco passara uma temporada na Baixada Fluminense, pediu à mãe de Samuel para criá-lo. “Foi a minha sorte. Eu ficava o tempo todo na rua ou em um cemitério da vizinhança. Se não fosse minha avó, teria virado traficante, teria morrido. Minha mãe era muito inocente, não sabia de nada que estava acontecendo no Brasil.” Quando voltou de Cuba, em 1982, Samuel procurou a família de sangue e assumiu o sobrenome Ferreira: “Quando a Tercina me levou, eu só era Samuel. Por isso, tinha ficado com o sobrenome dela nos documentos”.

Quatro anos depois, em 1986, assim que os netos terminaram os estudos, Tercina voltou ao País com Zuleide, Luis Carlos e Ernesto. Os dois mais velhos também tentaram então reencontrar a mãe biológica. A busca demorou, mas foi muito importante para Luis Carlos: “Eu adorava minha avó, mas precisava conhecer minhas raízes. Como meu pai também era filho de criação de Tercina, minhas raízes de verdade estavam com a minha mãe. Só sabia que ela se chamava Maria e que estava doente quando se separou do meu pai”. Em 2007, depois de 42 anos de separação, Luis Carlos reencontrou a mãe em São Vicente, no litoral paulista. Zuleide estava presente, também se emocionou com o reencontro, mas, criada com a avó desde os 5 meses de idade, não sentiu o mesmo impacto que Luis Carlos. “Perdi minha mãe no dia em que enterrei minha avó”, afirma, referindo-se a Tercina, que morreu de câncer aos 88 anos, em março de 2003.

Até completar 18 anos, Ernesto morou a maior parte da vida com a avó. Só no ano passado conseguiu validar o diploma de técnico em projetos mecânicos e ferramentas tirado em Cuba, no decorrer de uma ação impetrada junto à Comissão de Anistia do governo federal. Como os irmãos, para conseguir trabalho, muitas vezes precisou omitir do currículo que tinha vivido e estudado na ilha. Hoje, é consultor na área de Tecnologia Industrial e de Informação. Seus pais, Jovelina e Manoel, foram banidos do Brasil em janeiro de 1971. Passaram pelo Chile, fizeram treinamento de guerrilha na Coreia do Norte, e também moraram em Cuba. Na volta ao Brasil, o casal se separou. Manoel continua sindicalista atuante em Cotia, na Grande São Paulo. Jovelina aposentou-se como enfermeira, mas ainda pratica uma técnica de massagem conhecida como acupuntura coreana das mãos em Guarulhos, também na Grande São Paulo.

Quanto ao punhal dourado que Lamarca deu de presente a Ernesto, o paradeiro é incerto. Jovelina já tinha se esquecido do documento, mas a reportagem da Brasileiros localizou nos arquivos do Deops uma petição feita por ela ao diretor do Presídio Tiradentes, Olyntho Denardi, no dia 7 de julho de 1970. Com ousadia surpreendente para uma presa política, então sem perspectiva de deixar a cadeia, Jovelina pedia a devolução de 47 objetos retirados pelos homens da Oban de sua casa na Vila Formosa. Entre eles estava o punhal dourado. Passadas mais de quatro décadas, ela continua sem nenhuma resposta.

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