Brasileiros

Jaime Lauriano e a desmistificação da democracia racial

Arte - Sociedade

Um dos vencedores do Prêmio Marcantonio Vilaça, o artista cria obras que trazem novos olhares sobre a história
Mariana Tessitore
Publicado em: 25/09/2017 - 16:18Alterado em: 28/09/2017 - 14:37

Dominar novos territórios. Segundo Jaime Lauriano, essa é a estratégia para que “cada vez mais negros ocupem espaços que antes lhes eram negados”. O artista, diga-se de passagem, tem se saído muito bem nessa empreitada. Com seu jeito agradável e opiniões politizadas, Lauriano se infiltrou na bolha da arte contemporânea. Somente nesse semestre, ele participa de mostras em instituições importantes como Sesc 24 de Maio, Itaú Cultural e Videobrasil. Para completar a boa fase, Lauriano também foi um dos vencedores da edição deste ano do Marcantonio Vilaça, principal prêmio de arte do País.

Em seu ateliê, o artista comenta a repercussão do trabalho: “Sinto que tenho uma responsabilidade muito grande por ser um artista negro dentro de uma sociedade que, até hoje, prega a democracia racial e a meritocracia como pilares fundadores”. Com o intuito de rever esses valores, Lauriano propõe novos olhares sobre a história, evidenciando as disputas pelo passado.

Em uma das obras, por exemplo, apresenta uma releitura do primeiro mapa do Brasil, feito em 1519. Exibido na mostra Agora Somos Todxs Negrxs?, no Videobrasil, o trabalho foi desenhado na própria parede do espaço expositivo, tendo uma grande escala, de cerca de 9 m de comprimento por 5 de largura. Desde 2015, os mapas são objetos de referência para o artista. “Em meu trabalho, mostro como as representações cartográficas e as próprias fronteiras foram construídas de forma violenta a partir da escravização de corpos, primeiro indígenas e depois africanos. No fundo, desde a formação do nosso estado-nação, predomina uma associação problemática entre exploração do solo e exploração do corpo”, comenta o artista.

Em suas obras, ele reprocessa esses mapas, agregando novas camadas de significado. No lugar das palavras contidas originalmente, como os nomes dos oceanos, o artista coloca novos termos como genocídio, apropriação cultural e invasão. Lauriano comenta que nenhuma dessas expressões podem ser encontradas nos livros de autores canônicos como Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Junior. “Queria tencionar essa ausência. Até hoje não empregamos os termos corretos. O que aconteceu aqui no Brasil foi um genocídio, a maior diáspora de pessoas do mundo. Precisamos falar sobre isso”, pontua.

Essas obras são feitas pelo artista com a pemba, giz em forma esférica utilizado na Umbanda. Nos terreiros, a pemba é considerada um elemento divino, sendo empregada para traçar pontos e captar as forças dos espíritos. Assim, ao refazer esses mapas com a pemba, Lauriano atribui um tom ritualístico ao trabalho, numa espécie de revisão da história e dos símbolos da colonização. Esse elemento da Umbanda também foi utilizado pelo artista em sua obra mais recente, exibida na exposição São Paulo Não é Uma Cidade.

Concebido especialmente para a mostra no Sesc 24 de Maio, o trabalho reproduz um mapa histórico. Trata-se da última representação cartográfica do centro de São Paulo feita antes da abolição dos escravos. “Utilizando a pemba, eu recrio esse documento de 1840, destacando 12 lugares que foram utilizados para escravização e tortura”, conta. Ao lado do desenho, há o mapa atual da região para que o público possa “fazer a justaposição e perceber que esses lugares foram apagados”, destaca Lauriano.

Um dos lugares que mais chama atenção na obra é o atual bairro da Liberdade. No mapa, é possível ver que a principal praça da região abrigava, na época, o chamado Largo da Forca, onde os escravos considerados infratores eram eliminados. Em frente ao largo, havia a Igreja da Nossa Senhora dos Enforcados, na qual se rezava uma missa para os condenados. De lá, os corpos eram levados para o Cemitério dos Aflitos, destino onde indigentes eram enterrados.

O artista ressalta que poucas pessoas se lembram dessa história: “No início do século XX, esses vestígios foram apagados e o bairro passou a receber a migração japonesa, tida como desejável”. Para quem quiser saber mais sobre o tema, Lauriano disponibiliza cerca de 40 publicações ao lado da obra. Ele também organizará uma série de debates e intervenções durante a mostra.

O artista defende que o Brasil “precisa criar uma cultura da memória”. Ele cita o exemplo da Alemanha que, depois do nazismo, criou inúmeros museus e centros culturais que tratam desse período histórico traumático. “O Brasil, por sua vez, não debate esses assuntos. Nós temos duas leis de reparação muito problemáticas: a Lei Áurea e a Anistia. Ambas foram feitas pelos opressores para apagar os conflitos. Foi como se dissessem: ‘morreu aqui, cada um fica quietinho no seu canto’. Essa falta de memória é uma questão muito séria, que possibilita que o Bolsonaro, por exemplo, dedique o seu voto no Impeachment ao Brilhante Ustra, um dos maiores torturadores durante a ditadura”, pontua.

Recentemente, o artista concebeu a ilustração da capa da Ilustríssima, caderno especial do jornal Folha de S. Paulo que sai aos domingos. O desenho era, como nas obras anteriores, um mapa histórico com a inserção dos termos “genocídio”, “invasão”, entre outros. Ele conta que, logo após a circulação do diário, recebeu inúmeros e-mails.  Alguns elogiavam o trabalho, dizendo que “nunca tinham pensado sobre aquilo”. Outros, por sua vez, questionavam o artista: “Recebi várias mensagens de pessoas dizendo que meu trabalho estimulava tensões e conflitos raciais no País. Muitos também alegavam que a democracia racial foi benéfica para o Brasil”, conta.

TRAJETÓRIA

Com seus óculos grandes e o contorno do continente africano tatuado no braço esquerdo, Lauriano toma um gole de café enquanto relembra sua infância passada em Quitaúna, na periferia de Osasco, município da Grande São Paulo. Seus pais se separaram cedo, quando ele tinha cinco anos. “Eu morava com a minha mãe de favor na casa de um tio. Ela trabalhava muito. A imagem que mais tenho desse período é dela cansada”. Hoje com 33 anos, Lauriano começou a trabalhar desde os 15 para ajudar na renda familiar. “Tudo que eu queria era sair daquela situação. E para isso havia duas saídas: o estudo ou o crime”.

Preocupado em driblar o discurso da meritocracia, Lauriano afirma que não entrou para o crime “por sorte”. “Eu também era meio bundão, tinha medo”, diz rindo.  Sério, o artista reflete sobre o contexto no qual cresceu: “Não que eu romantize o crime, mas é uma saída. Só quem vive isso sabe como é treta não ter perspectiva nenhuma”.  Ele conta que, aos 17, queria cursar Economia, já que sempre se deu bem com os números. Enquanto estudava para o vestibular, começou a dar aulas como voluntário em uma ONG que ensinava arte e tecnologia para jovens.

 “Na época, eu não sabia nada de arte, tinha visitado algumas exposições, mas nada além disso. Lembro que quando fui na Bienal do Herkenhoff, em 1998 (a Bienal de São Paulo daquele ano, com curadoria de Paulo Herkenhoff), não entendi muita coisa. Mas algo que já, naquela época, me marcou foi o Livro de Carne do Artur Barrio. Eu vi a obra e pensei: caramba, alguém fez um livro com um bife e está numa exposição?” , relembra rindo. Foi depois de passar pela ONG que ele decidiu estudar artes. Cursou a faculdade na Belas Artes, “que era a mais barata na época”.

A partir de então, Lauriano entrou em contato com um novo universo, conhecendo artistas e teóricos que o encantaram. Entre idas e vindas, sua produção deslanchou em 2015, quando apresentou a individual Autorretrato em Branco Sobre Preto na Galeria Leme. “Foi ali que eu de fato nasci como artista”, afirma. Na mostra, Lauriano exibiu a instalação Nesta Terra Em Se Plantando Tudo Dá, composta por uma muda de Pau Brasil plantada em uma estufa. Uma metáfora das contradições do País, a obra foi adquirida pela Pinacoteca de São Paulo, o que aumentou a projeção do artista.

Desde então, prêmios e novas aquisições vieram. Com uma carreira conhecida, Jaime continua reforçando a importância dos negros ocuparem lugares de destaque. Indagado sobre os riscos do mercado se apropriar da causa, ele responde: “No primeiro momento, houve de fato uma tentativa de fetichizar a obra do artista negro. Mas acredito que já passamos dessa fase. Hoje o que está acontecendo é um incômodo. É impossível fazer uma exposição sobre o Brasil sem ter a presença de artistas negros e negras. No fundo, estamos construindo outras visualidades que não são baseadas apenas na visão eurocêntrica. Isso é uma vitória enorme”.

 

 

Assine e Colabore

Precisamos do seu apoio. Por menos de um café com pão de queijo, você garante jornalismo com rigor editorial.

X

Acesso restrito a assinantes e cadastrados

Você atingiu o limite de 5 REPORTAGENS por mês

Identifique-se para continuar e ler 10 Reportagens por mês

Cadastre-se

ou

Conecte-se com o Facebook

já sou cadastrado

Colabore conosco!
Colabore com o futuro do jornalismo de qualidade.
Assine agora e tenha acesso ilimitado

Aproveite nossa promoção de lançamento e pague apenas R$ 1,90/mês*

Quero Assinar * Promoção válida até 31 de Dezembro de 2017