Brasileiros

Não basta enfrentar o preconceito, é preciso acabar com o racismo

Opinião - Um preto de alma preta

A não ruptura com a hierarquia social escravocrata, como demonstra o sociólogo Clóvis Moura, e a permanência do racismo como estratégia de dominação são fatores analisados por intelectuais negros na busca para melhor responder, “o que é Brasil?”.
Pedro Borges
Publicado em: 01/02/2018 - 17:14Alterado em: 01/02/2018 - 17:14
Contra as reformas de Michel Temer, o Movimento Negro toma as ruas de São Paulo. Foto: Pedro Borges

No primeiro texto que escrevi para o páginaB!, trouxe as reflexões do sociólogo Clóvis Moura para explicar porque raça não é apenas um fator identitário, mas também um marcador estruturante da sociedade brasileira.

A não ruptura com a hierarquia social escravocrata, como demonstra Clóvis Moura, e a permanência do racismo como estratégia de dominação são fatores analisados por intelectuais negros na busca para melhor responder, “o que é Brasil?”.

O professor da Universidade de São Paulo (USP), Kabengele Munanga, uma das grandes referências teóricas do movimento negro na atualidade, e a ex-ministra da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), Nilma Lino Gomes, são duas figuras que se debruçaram sobre as relações raciais existentes no país.

Ambos trabalham com os conceitos de “preconceito”, “discriminação” e “racismo”, para esmiuçar como as relações de raça se desenvolvem no Brasil.

Kabengele Munanga descreve em seu artigo Uma Abordagem Conceitual das Noções de Raça, Racismo, Identidade e Etnia que o preconceito nada mais é do que o “pré-conceito” que se cria sobre outro grupo. É uma imagem, para ele, universal e compreensível aos segmentos sociais. Tem-se preconceito do “outro”, do “diferente”, daqueles que pouco ou nada se conhece.

A professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Nilma Lino Gomes, na sua pesquisa, Alguns Termos e Conceitos Presentes no Debate Sobre Relações Raciais no Brasil: uma breve discussão descreve que o preconceito também gera uma inflexibilidade diante de fatos que o negam.

Exemplo disso vive o País. Como sustentar a ideia de que “negro é ladrão” em meio às sonegações bilionárias da elite financeira e aos casos de corrupção na política do País? Como costuma dizer Hélio Santos, o crime de colarinho branco no Brasil tem o pescoço branco.

A discriminação racial pode se manifestar de diversas maneiras. Ela pode ser simbólica, por meio de ofensas verbais e gestuais, física, como através de uma agressão, e também espacial, quando determinados ambientes são destinados de modo prioritário a alguns grupos raciais, caso do cárcere para a comunidade negra, e a universidade, para os brancos.

O preconceito e a discriminação em um país como o Brasil são direcionados a determinados segmentos, como negros e indígenas, mas não são restritos a eles. Outras coletividades também são alvo de preconceito, e até vítimas de discriminação.

O que é mais restrito é o racismo, o que para Kabengele Munanga é uma ideologia que vai permitir e naturalizar a hierarquia entre os conjuntos raciais. Mesmo com a negação científica da existência de diferentes raças, o imaginário social e o capital se utilizam dos traços fenótipos e culturais para fazer a manutenção dessas disparidades e explorar de maneira mais agressiva essas comunidades.

O racismo é observado pelas estatísticas oficiais que comprovam a desigualdade existente entre negros e brancos em todas áreas da vida. Disparidade, que de acordo com Nilma Lino Gomes, é fruto de uma estrutura racista.

“Aprendemos tudo isso na sociedade: família, escola, círculo de amizades, relacionamentos afetivos, trabalho, entre outros. A questão mais séria é: por que aprendemos a ver o outro e, nesse caso, o negro, como inferior devido a sua aparência e/ou atributos físicos da sua origem africana? A resposta é: porque vivemos em um país com uma estrutura racista onde a cor da pele de uma pessoa infelizmente é mais determinante para o seu destino social do que o seu caráter, a sua história, a sua trajetória. Além disso, porque o histórico da escravidão ainda afeta negativamente a vida, a trajetória e inserção social dos descendentes de africanos em nosso país”.

Ou seja, a manutenção de um alicerce escravista e a ação do racismo são determinantes para compreender as disparidades existentes no Brasil, por isso, temas tão estudados e debatidos pelo movimento negro.

Outro motivo para esse olhar atencioso é o reflexo desses fatores, que ao fim, alimentam e compõem o projeto de genocídio do povo negro, um ataque complexo, que busca a morte física, seja por meio da pobreza, do encarceramento, do extermínio, e a morte simbólica, seja por meio do apagamento de referenciais, do embranquecimento e do esvaziamento das tradições africanas.

A prática política

Essa diferenciação conceitual entre preconceito, discriminação e racismo é fundamental não só para o entendimento do sistema de dominação. Esses detalhes são importantes para a construção de uma estratégica política de superação das desigualdades sociais e raciais.

A partir desses elementos aqui apresentados, proponho uma reflexão sobre isso, à prática política.

Participei da construção do Coletivo Negro Kimpa, no campus da UNESP em Bauru, e acompanho de perto a movimentação de outros grupos com o mesmo perfil. Em 2016, participei da organização do Encontro Nacional de Estudantes e Coletivos Universitários Negros (EECUN).

Os coletivos negros, LGBTs e feministas são elementos novos dentro da política que ajudam a arejar o espaço universitário e os movimentos sociais, em ambos ambientes com propostas inovadoras. Alguns debates, no campo da comunicação, são organizados a fim de discutir o estereótipo, o imaginário, ou mesmo a representação desses grupos nos veículos de mídia.

Atentando-me de maneira mais particular à questão racial, é notável que essas discussões afrontam essencialmente o preconceito, ou seja, o imaginário construído em torno do descendente africano.

Elas podem também atingir a discriminação, na medida em que denunciam a violência simbólica contra o afro-brasileiro, e o racismo, se enfrentarem o passado escravista, as desigualdades raciais, e o genocídio negro.

Como estratégia de combate à discriminação racial, o movimento negro, desde pelo menos a década de 1980, apresenta as ações afirmativas nas universidades como uma ferramenta de inserção do descendente africano nesse espaço, a fim de acabar com as barreiras existentes nesse local de produção de conhecimento, exemplo clássico da segregação espacial.

Se nos EUA e na África do Sul existiam leis que proibiam a entrada de negros em determinados ambientes, no Brasil, outras estratégias foram utilizadas, com resultados ainda mais cruéis.

Quando entrei na UNESP, em 2011, apenas 3% dos estudantes se autodeclaravam pretos e pardos, o que segundo o IBGE, constitui o grupo de negros. Sem qualquer lei que impedisse essa entrada dos descendentes de africanos, a elite branca conseguiu o monopólio do único serviço público de qualidade ao qual ainda desfruta, a universidade.

Esse ingresso de jovens negros das periferias brasileiras é também uma maneira de enfrentar o racismo, na medida em que haverá um deslocamento da produção do conhecimento, e a criação de novas referências na luta contra a morte física e simbólica do povo negro.

O racismo em si, enquanto mantenedor das desigualdades, produtor da morte, é refletido de maneira nevrálgica quando as pautas relacionadas ao genocídio, ao cárcere, à morte simbólica, às disparidades sociais e raciais estão em discussão.

Acredito, porém, que tenhamos deixado de lado em nossas análises outros fatores do racismo, sinais esses que também vão alimentar o preconceito, a discriminação, e levar negras e negros ao cárcere ou à morte.

Como pontuei no primeiro texto para o páginaB!, reitero a importância de colocarmos raça, gênero e sexualidade não só como fatores identitários, mas também como estruturantes das sociedade em nossas discussões e práticas políticas.

Um exemplo é a importância de discutirmos a privatização do ensino no País. Refletir a educação pública básica, média e superior, e o sucateamento da universidade, ainda mais quando o movimento negro consegue emplacar nas principais instituições a política de cotas, é mais do que necessário.

Enfrentar o tema da educação no País, o desmantelamento do ensino público de qualidade é atacar em cheio o racismo. O não garantimento do ensino da Lei 10.639, que instituiu a obrigatoriedade de ensino da história africana e afro-brasileira, fortalece a evasão escolar, mais presente entre jovens negros, e alimenta a morte simbólica desse sujeito.

Como disse KL Jay, DJ do Racionais MCs, em entrevista ao Alma Preta ​sobre o genocídio, “a morte vem antes do tiro”. Ou seja, a morte também se dá na educação.

A educação é apenas uma das fronteiras possíveis a ser debatida. A mesma reflexão vale para a economia, cultura, saúde, entre outras.

Nós, negras e negros, agora de maneira mais representativa dentro da universidade, temos a possibilidade de popularizar uma discussão como nunca houve na história do país, na medida em que é da academia de onde saem parte das teorias que vão pautar e disputar os rumos da nação.

Temos a possibilidade de influenciar os grandes debates, mostrarmos na prática que raça é estrutural, e desmantelar, ao final, o racismo, a estrutura escravocrata do Estado brasileiro, e as desigualdades existentes no País.

Olhar a história do movimento negro é ter confiança desse processo. Da década de 1980 para cá, dominamos, por exemplo, parte das discussões sobre o racismo.

Em entrevista ao Alma Preta​, Jupiara Castro, fundadora do Núcleo de Consciência Negra da USP, contou como, em 1988, a universidade propôs a construção de um seminário para discutir os 100 anos da abolição da escravatura. Os convidados para as mesas eram todos brancos e na primeira fileira de espectadores estavam intelectuais como Milton Santos, Sueli Carneiro, Kabengele Munanga, Edna Roland, Dulce Pereira, Henrique Cunha Jr., e a própria Jupiara Castro.

Felizmente, isso está mais difícil de acontecer nos dias de hoje. Precisamos agora disputar os outros debates, afinal, somos a maioria da classe trabalhadora, e os agentes, por excelência, de uma transformação abrupta da sociedade.

Não podemos permitir que a comunicação, a saúde, a economia e a política desse País sejam pautadas sem a nossa participação enquanto maioria.

Não podemos aceitar que um debate sobre racismo e cotas seja composto por nós, e um sobre política, economia e educação sem nós. Mais do que a representação e os nossos rostos ali estampados, somos a garantia de que o marcador racial estará presente na análise social construída.

Precisamos denunciar a discriminação, o preconceito existente contra a comunidade negra, e não podemos deixar de lado os grandes debates nacionais, ou mesmo os considerar como “temas de branco”. Precisamos participar, organizar e exigir a nossa participação nesses encontros.

Para finalizar, vale destacar que experiências e organizações do movimento negro têm proposto isso. O Alma Preta noticiou como entidades do movimento negro participaram de maneira organizada dos atos contrários à reforma da previdência e trabalhista, duas medidas marcadas do início ao fim pelo racismo.

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