Brasileiros

Bife, filé de peixe e até costelinha: você vai comer a carne de laboratório?

Página B - Inovação

Em entrevista à Brasileiros, pesquisador e professor da Maastricht University explica o desenvolvimento de versão mais promissora da carne in vitro
Editor do Site
Publicado em: 07/04/2016 - 00:00Alterado em: 18/09/2017 - 12:21
Mark J. Post e seu hambúrguer feito em laboratório – Foto: Divulgação

Sabor artificial de carne? Nem pensar. Nenhum boi vai morrer, mas o bife que deve entrar no cardápio em alguns anos será bem real. Para alguns, o que parecia ficção científica está prestes a ganhar os supermercados: a carne artificial tem sangue e fibras porque, embora manipulada em laboratório, tem origem animal.

Sete anos foi o tempo de pesquisa que a equipe de Mark J. Post, professor e pesquisador da Maastricht University, na Holanda, levou para desenvolver o primeiro hambúrguer in vitro. Do laboratório para o mercado, serão quatro anos “mais alguns deles para ganhar os supermercados”, estimou o professor em entrevista à Brasileiros.

O primeiro protótipo foi apresentado em Londres em 2013 ao custo astronômico de 215 mil libras, mais de R$ 1,2 milhão. O tempo passou, o valor caiu, mas Post não revela quanto custou a última versão, mais vermelha, macia e saborosa. “Até que tenhamos escala de produção, ainda vai ser caro produzir”.

Ele mesmo explica o processo: “Nós extraímos as células de uma biópsia de um pequeno músculo de uma vaca. Expandimos as células para um grande número delas e a deixamos desenvolvendo o tecido por auto-organização. Essas fibras musculares têm dimensão 2,5 por 0,1 centímetros e são muito semelhantes, se não igual, à fibra de músculo fresco proveniente de uma vaca.”

Mas será que dá para fazer o mesmo com peixes ou aves? “Absolutamente. Outros pesquisadores já começaram a trabalhar nisso.” Será possível desenvolver até costelinha. “Mas requer uma tecnologia mais complexa, como a impressão 3D de várias células e vários biomateriais.”

Post não tem nenhuma dúvida de que muita gente vai substituir um bom pedaço de carne fresca por outro manipulado artificialmente. Essa será a opção daquelas pessoas que reduziram o consumo  em respeito aos “direitos dos animais” ou que se preocupam com os gases tóxicos liberados na atmosfera pela flatulência dos bovinos, a principal razão para o efeito estufa.  “Esse é o objetivo final”, afirma o pesquisador quando questionado a respeito. “As células que retiramos na biópsia podem levar à produção de toneladas de carne sem a necessidade de matar o animal.”

Como para produzir 1 quilo de carne bovina são necessários 15.400 litros de água, além de grandes áreas de pastagens – que reduzem áreas florestais –, o pesquisador acredita que sua pesquisa poderá ajudar a diminuir o uso de recursos naturais para a produção do alimento. “E a carne produzida será oferecida livre de doenças.”

Post garante que ninguém vai notar a diferença, mesmo depois que algumas pessoas reclamaram do gosto pouco convincente da versão apresentada há três anos. “Nós aumentamos a expressão de hemoglobina, que fornece a cor vermelha, mas também o ferro para sabor e valor nutricional. Isto é simplesmente feito por cultura das células sob condições de baixo oxigênio. Nós cultivamos tecido adiposo que é adicionado ao músculo para criar uma fatia mais realista.”

A  versão in vitro não deve incomodar a indústria da carne. Só no Brasil, o valor bruto da produção pecuária foi de R$ 195 bilhões em 2015, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil. Ao todo, foram 10 milhões de toneladas de carne produzidas, 2,1% acima dos 9,7 milhões em 2014.

 

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