A dialética cura.

Anos atrás, traduzi um artigo de Gérard Lebrun, no qual ele dizia que “a dialética pacifica”. Para ele, isso era uma critica, não um elogio. A dialética teria conflitos apenas de mentirinha, destinados a depois serem superados. Ela não dava valor suficiente ao conflito, sempre redutível, sempre curável. Sendo nietzschiano, Lebrun pensava o conflito como agônico, levando finalmente à morte, nunca à paz.

Na dialética, a fila anda. Ela cura o passado. Este foi lugar da tese e antítese, da qual o presente é, ainda que temporariamente, uma síntese. Nada restou do passado, tudo veio para a nova síntese. Não sobra resto, lembrança, saudade.

A dialética é bola para frente, por isso é terapêutica. Tudo o que ficou de ruim é dissolvido, como quando um bom massagista tira a dor muscular com um cotovelo forte e sabiamente aplicado. Dói muito! mas cura. A dor mata, sim, mas a dialética salva porque não deixa nódulos de dor nos músculos, na coluna.

Já para Nietzsche, o conflito é sempre agônico, antagônico. Nele temos uma guerra dura, severa. Temos o insuperável. Para os nietzschianos, negar que haja algo irredutível em cada singularidade é inaceitável. Sempre há algo que sobra, resta, não se dissolve. As singularidades são extremamente potentes.

isso vale para Hannah Arendt, para muitos cientistas sociais, para os psicanalistas de hoje.

Para Freud, porém, havia cura. A cura era tão importante que, no tardio “Análise terminada e análise interminável ” ele conta de um príncipe russo que tardava a sarar, até que por volta de 1913 Freud lhe fixou um deadline: é este ano. Seja o que for, este ano termina sua análise. E deu certo. O grão-duque voltou para a Rússia. Mas não deu certo, confessa Freud, porque uns anos depois o russo voltou a ele, e não estava bem. (O curioso é que tinha havido a Revolução Russa, ele perdeu título, riquezas e parentes, mas Freud pensava que, se estivesse mesmo curado, dispensaria nova análise: o que é obviamente um delírio de Freud; mas, se isso não é acreditar na cura, não sei o que seria).

Curar é superar, descartar os resíduos, quando o passado o trauma ficou realmente para trás. Mas os psicanalistas de hoje entendem que não ha cura, o passado está presente na identidade de cada um. Nunca uma crise é plenamente resolvida

Nesse resíduo nietzschiano há um elemento trágico, que lembra – curiosamente, dado que os dois se opõem em tudo – o trágico hegeliano. Para Hegel, a tragédia não é uma história triste, como na mascara da tragédia o rosto sorrindo (e rindo na da comédia). Ela é a situação em que duas particularidades opostas têm ambas razão, mas não chegam a uma síntese, não sobem a um patamar superior em que as duas se integram. Isso, que para Hegel é um fracasso, é uma incapacidade de síntese, é em suma a tragédia – e assim destoa da condição humana tal como esta deve ser – para Nietzsche é o que é: é a condição humana. Toda crença na síntese é uma enorme autoilusão.

O projeto dialético consiste em acabar com essa situação, em promover um encontro, uma conciliação não oportunista, que não se limita a superar dificuldades momentâneas, mas é uma efetiva resolução dos problemas. Na base de toda utopia reside uma dialética, ainda que não o saibam os utopistas. Mas, para os nietzschianos, o máximo a que temos acesso é à redução de danos, ao gerenciamento de crises e de perdas.

No fim da linha, a dialética sorri. Ao longo de toda a linha, Nietzsche pesa – algo muito pesado, que talvez seja chamado de responsabilidade. Para o nietzschiano, utopia, dialética e superação são apenas ilusões, que nos rondam, que nos enganam sobre o que somos. Para quem quer curar – mesmo – o mundo, uma dialética é necessária.

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