Brasileiros

A ditadura e a morte do reitor

Opinião - Coisas da História

Um dos fundadores da Universidade de Brasília (UNB), afastado pelos militares, Anísio Teixeira foi vítima de um “acidente” misterioso
Luiza Villaméa
Publicado em: 11/10/2017 - 12:09Alterado em: 11/10/2017 - 12:09
O educador, cujo corpo apareceu no poço de um elevador em março de 1971 (Foto: Reprodução)

Como aconteceu com outros brasileiros durante a ditadura, Anísio Teixeira desapareceu de repente. No final da manhã da quinta-feira 11 de março de 1971, ele saiu da Fundação Getúlio Vargas (FGV), na Praia do Botafogo, no Rio, para almoçar nas imediações, no Edifício Duque de Caxias, onde morava o dicionarista Aurélio Buarque de Holanda.

Reitor da Universidade de Brasília (UNB) afastado pelo golpe de 1964, o educador estava em campanha para a Academia Brasileira de Letras. O processo envolvia pedir votos aos imortais, como a seu amigo Aurélio. Ocorre que Anísio jamais chegou para o almoço. Mais tarde, também não chegou à Editora Civilização Brasileira, onde atuava como consultor.

Durante as buscas, a família e os amigos depararam-se com uma notícia preocupante: Anísio estava detido em dependências da Aeronáutica. A informação chegara, de forma separada, a dois amigos do educador: o escritor e ex-governador da Bahia Luiz Viana Filho e o poeta mineiro Abgar Renault. A fonte: o general Syzeno Sarmento, citado por Renault.

Na época, o comandante da Aeronáutica no Rio era o brigadeiro João Paulo Moreira Burnier, aquele que em 1968 tinha planejado explodir o gasômetro na hora do rush e culpar “os comunistas” pela mortandade. Menos de dois meses antes do sumiço de Anísio, o ex-deputado Rubens Paiva havia sido levado para a Aeronáutica e entrado para o rol de desaparecidos políticos.

Como Rubens Paiva, Anísio incomodava a ditadura. Nascido em julho de 1900 em Caetité, no alto sertão baiano, e formado em Direito no Rio, desde os 27 anos ele se dedicava à defesa de uma educação pública, laica e universal no Brasil. Junto com o antropólogo Darcy Ribeiro, tinha ajudado a criar a UNB, assumindo a reitoria em junho de 1963.

Afastado depois do golpe de 1964, Anísio lecionou na Universidade de Columbia, em Nova York, onde estudara no final da década de 1920. Também atuou como professor visitante nas universidades de Nova York e da Califórnia. De volta ao Brasil, desapareceu quando colaborava com um projeto da FGV de criar um Instituto de Estudos Avançados em Educação.

Dois dias depois do desaparecimento, o corpo de Anísio foi encontrado no poço do elevador do edifício onde deveria ter comparecido para o almoço. A suspeita é que ele tenha sido levado para o local, depois de sequestrado a caminho do edifício e morrido na tortura. Desde o primeiro momento, no entanto, a polícia tratou a morte como “acidente”.

Uma das evidências contrárias à versão de acidente é que o corpo não poderia ter caído do alto, pois não passaria entre duas vigas separadas entre si por cerca de 20 centímetros. Entre os que estudaram e contestaram o caso está o professor João Augusto de Lima Rocha, da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, autor do livro “Anísio em Movimento”.

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