Brasileiros

A incrível história de Liselot Kahns

Página B - Brasil

Alemã de origem judia, com apenas 23 anos ela ajudou na fuga de um dos principais adversários de Hitler. No ano seguinte, desembarcou no Brasil em pleno Estado Novo
Luiza Villaméa
Publicado em: 18/09/2017 - 16:33Alterado em: 18/09/2017 - 16:33
O passaporte usado por Lilo para fugir do nazismo levava seu nome de solteira (Foto: Reprodução)

Lilo não era mulher de se derreter de emoção, mas sentiu um baque ao ver o nome do largo que atravessava, perto da rua onde seu pai tivera uma das mais sofisticadas lojas de Berlim nos anos 1930: praça Rudolf Breitscheid. Ela já estava perto dos 70 anos. O que seria uma visita à cidade onde nascera, em janeiro de 1918, se transformou em uma viagem de décadas no tempo.

Diante da placa em homenagem a Breitscheid, Lilo se viu com 22 anos, no elevador do prédio em Paris onde ela e os pais se instalaram ao fugir da perseguição aos judeus na Alemanha nazista, usando um passaporte tcheco. Ela estava com a mãe, Dora, quando entrou no elevador um vizinho, um senhor “alto, bonitão”, como ela lembraria em depoimento nos anos 2.000, na casa onde morava, no Alto dos Pinheiros, em São Paulo.

“Minha mãe não falava francês. Eu falei com ela em alemão, bem baixinho, mas ele ouviu algumas palavras”, contou Lilo. Meia hora depois de as duas saírem do elevador, a zeladora do prédio tocou a campainha para perguntar se o senhor que encontraram no elevador poderia fazer-lhes uma visita. Pouco depois, ele se apresentou. Era Rudolf Breitscheid, líder do Partido Social Democrata alemão, que havia combatido a ascensão de Adolf Hitler, mas perdera a batalha e fora obrigado a deixar o país. “Breitscheid tinha sido o inimigo público número 1 de Hitler e estava na França sob a proteção do ministro Herriot”, lembrava Lilo. Era um paradoxo. Ex-presidente do Conselho dos Ministros, Édoaurd Herriot protegia o adversário do nazismo ao mesmo tempo que se alinhava com o marechal Philippe Pétain, aquele que, no comando da parte da França não ocupada, colaborava com Hitler.




Lilo, ao volante, passeia com amiga, nos arredores de Berlim, onde vivia até 1938 (Foto: Álbum de família)

O certo é que Breitscheid tinha sido alertado a abandonar Paris. Sabendo que a família de Lilo tinha carro, resolvera pedir ajuda, além de aconselhar os vizinhos a fugir, pois as tropas de Hitler não tardariam. “Naqueles dias não havia como se locomover. Não tinha condução, táxi, nada. Ele queria se encontrar com a família, no sul da França. Em compensação, ele conseguiria um salvo-conduto no Ministério do Interior para que nós também pudéssemos deixar Paris”, contou Lilo várias vezes para o filho Cláudio Kahns, produtor do filme Imagens do Estado Novo 1937-1945, que é dedicado a ela por sugestão do diretor Eduardo Escorel: “Minha mãe dirigia bem, desde os 14 anos. E levou Breitscheid para uma cidadezinha perto de Bordeaux, no Citroën da família.”

Lilo é como Liselot Kahns sempre foi conhecida. Naquela época, ela assinava o sobrenome de solteira, Schönberg. Quando ela e os pais, Dora e Heschel, deixaram Paris, seu irmão Oscar já se encontrava em Los Angeles, na Califórnia. Lá, Oscar preparava o terreno para a futura chegada da família e corria atrás do sonho de se tornar ator em Hollywood. Ficava cada vez mais evidente que na Europa dominada pelo nazismo não haveria espaço para judeus, a começar por comerciantes ricos como Heschel, peleteiro bem-sucedido tanto em Berlim quanto em Paris. O patriarca da família, no entanto, era o que mais resistia à ideia de abandonar a Europa.

Quando se preparava para deixar o apartamento de Paris, à margem esquerda do rio Sena, Lilo começou a separar alguns objetos que pretendia levar consigo: “Eram algumas peças, prataria do apartamento, mas meu pai não me deixou levar nada. Mandou deixar tudo para trás, dizendo que em 15 dias estaríamos de volta. Quinze dias. Ele nunca mais viu Paris”. Heschel não viu também as mercadorias que carregara junto com a filha para um galpão do interior da França, na tentativa de preservá-las dos bombardeios, cada vez mais frentes na capital francesa. Foram várias viagens, ida e volta que somavam 500 quilômetros, vencidos no mesmo dia, no Citroën preto que depois transportaria o político alemão Breitscheid.




Adepta de esportes, Lilo não se sentia discriminada por ser judia antes da subida de Hitler ao poder (Foto: Álbum de família)

Em cada deslocamento, um colchão era amarrado no teto do carro, para amortecer o impacto de possíveis projéteis, pois havia sempre o risco de uma aeronave alemã sobrevoar a estrada, dando rajadas de metralhadora. E foi assim que os Schönberg chegaram à cidade de L’Argent, no sul da França, onde alugaram um apartamento e aguardaram o desenrolar da guerra. Lá, chegaram a se encontrar com Breitscheid, que estava acompanhado da mulher e de uma sobrinha. Depois, perderam o contato com o político alemão. Entre eles e os muitos refugiados que circulavam pela região havia a esperança de que as tropas de Hitler fossem detidas em algum momento. As notícias que chegavam indicaram, no entanto, o contrário.

Os Schönberg teriam que continuar o êxodo, como Lilo costumava se referir ao período: “Meu pai, cada vez mais preocupado, tentava arrumar passagens em um navio para além mar. Antes, ele dizia que jamais queria deixar a Europa, mas não havia saída. Fugimos de Paris na última hora. Poucos dias depois, Hitler entrou na cidade”. Uma das imagens mais emblemáticas da vitória alemã sobre a França é a da chegada de Hitler a Paris no dia 23 de junho de 1940. Depois de fazer uma volta triunfante pela cidade, o líder nazista posou diante da Torre Eiffel com dois aliados: o arquiteto Albert Speer e o escultor Arno Breker.

Naquela altura, os Schönberg estavam instalados no sul da França. A fuga de Paris não fora a primeira da família, assim como a estadia na capital francesa não tinha sido novidade para Lilo. Quando ela fazia o colegial, as garotas da elite berlinense costumavam ser enviadas para estudar na Suíça ou na França. Lilo preferiu Paris: “Fiquei um ano e pouco, num colégio interno muito bom, no Sixième Arrondissement. Fiz também cursos na Sorbonne. Era tudo muito interessante. No colégio, tínhamos uma curadora de museus. Fomos ao Louvre duas vezes por semana, durante um ano. Acho engraçado quando as pessoas falam que estiveram em Paris e viram o Louvre. Eu fui duas vezes por semana, durante um ano, e não vi”.




Oscar Schönberg, irmão de Lilo, morreu durante jogo de polo em Los Angeles (Foto: Álbum de família)

Já na época de estudante, Lilo circulava pela Europa com o passaporte número 80, emitido em 1935 pela Tchecoslováquia, país que em 1993 foi dividido em República Tcheca e Eslováquia.  No documento, que Lilo conservou até o fim da vida, ela continuava com o nome de Liselot Schönberg, nascida em Berlim. O local de residência, no entanto, era falso: Bardejov, cidade perto da fronteira com a Polônia, que hoje pertence à Eslováquia. Assim, ainda em 1935 Lilo passou a viajar com o documento, passando pela Áustria, Itália, Inglaterra, França e Hungria.

“É que naquele tempo meu pai ficou meio apreensivo e, por via das dúvidas, decidiu providenciar passaportes estrangeiros. Não sei os detalhes, mas ele comprou por muito dinheiro esses passaportes, para nós podermos fugir quanto tivesse necessidade”, dizia Lilo. “Eu não sofria nenhum tipo de perseguição, mas diziam que não deixariam sair de Berlim os judeus alemães. Que iriam pegar e jogar em campos de concentração. O nosso medo era com meu pai, porque queriam pegar os homens mais influentes, mais abastados, para ficar com as posses deles”.

O clima, portanto, ficava cada vez mais tenso. Terminado o curso em Paris, em 1936, Lilo voltou para Berlim, onde tentou retomar o estilo de vida do passado. A família até frequentava uma sinagoga no centro de Berlim, mas não chegava a ser religiosa. Da mesma forma, o círculo de amigos a que pertencia era diverso, formado independentemente da religião de cada um. Para Cláudio Kahns, filho de Lilo, o sentimento de integração ao país era à época comum ao judeu alemão: “Antes de ser judeu, ele se percebia como alemão. Tinha uma coisa cultural mesmo. Tanto que na Primeira Guerra muitos oficiais do Exército alemão eram judeus”. Ainda assim, com as crescentes manifestações antissemitas por todo o país, Heschel, o pai de Lilo, achou melhor afastar a família do centro de Berlim. Mudaram-se para uma casa em Babelsberg, nas imediações da cidade, próximo aos estúdios da UFA, a rede cinematográfica mais importante da Alemanha entre 1917 e 1945.




Dora e Heschel, pais de Lilo, no Rio de Janeiro, pouco depois de chegarem ao Brasil, em 1941 (Foto: Álbum de família)

Marcelo Kahns, o outro filho de Lilo, fez questão de conhecer o lugar escolhido pelo avô para abrigar a família. A visita aconteceu quando a Alemanha se encontrava dividida em duas pelo Muro de Berlim: “Babelsberg era o bairro com as melhores casas da Alemanha Oriental. Nelas viviam os dirigentes mais bem posicionados no governo do país”. Lilo jamais se esqueceu de Babelsberg: “Era um lugar todo rodeado de verde, tinha um lago muito bonito. Um casal amigo do meu pai morava lá. Quem morava perto também, com a família, era aquele famoso Goebbels”, contava, referindo-se a Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda da Alemanha nazista. Ela, que dirigia desde a adolescência, circulava com as amigas pela região. E, de olho no futuro, começou a fazer um curso de fotografia: “Eu trabalhava com uma Rolleiflex, fazia do começo ao fim. Adorava. E me tornei uma excelente fotógrafa. Tirava fotografia de moda, de natureza, e depois fazia todo o trabalho laboratorial. Criei muitos amigos nesse grupo, mas infelizmente tive que deixar tudo de repente”.

A retirada ocorreu porque um funcionário de confiança de Heschel chegou com a informação de que o patrão estava na lista dos que seriam “buscados”. Naqueles tempos sombrios, a simples menção de o nome estar “na lista” representava uma espécie de sentença de morte. No mesmo dia, Heschel mandou a família fazer as malas, como se fossem viajar para Cortina D’Ampezzo, uma concorrida estação de esqui da região do Vêneto, na Itália. Depois de fazer recomendações de rotina aos empregados das lojas e da casa, os Schönberg saíram de Babelsberg como se estivessem viajando para uma temporada de esportes de inverno, como faziam todos os anos. Na bagagem, predominavam as roupas e equipamentos para esquiar.

Pouco depois de os Schönberg deixarem Berlim, aconteceu o ataque maciço que entrou para a história como Kristallnacht, Noite dos Cristais Quebrados, uma referência aos cacos de vidro amontoados pelas ruas depois que fachadas de casas, lojas, sinagogas e centros comunitários judaicos foram estilhaçadas. Estima-se que, na noite de 9 para 10 de novembro de 1938, em toda a Alemanha e na Áustria ocupada, 267 sinagogas foram destruídas, 7,5 mil lojas judaicas vandalizadas e cerca de 30 mil judeus detidos e deportados para campos de concentração. Os Schönberg escaparam por pouco. Alguns de seus amigos não tiveram a mesma sorte.




Carimbo registra o desembarque de Lilo no Brasil, que envolveu pagamento de propina na imigração (Foto: Reprodução)

Em Cortina D’Ampezzo, a família de Lilo se deu conta de que não voltaria para casa. A situação não parava de se agravar. Três dias depois da Kristallnacht, a Alemanha nazista anunciou oficialmente o Anschluss, como ficou conhecida a anexação da Áustria, convertida em província do Terceiro Reich, situação que perdurou até o final da guerra. Heschel decidiu estabelecer-se então na França, como contava Lilo: “Em Paris, meu pai comprou os negócios e o apartamento de outro peleteiro israelita, que foi mais esperto e tratou de ir embora para Estados Unidos. Abandonou a Europa. Era um apartamento na rua Cognac Jay, atrás do Quai D’Orsey, um dos lugares mais bonitos de Paris. Quer dizer que perdemos duas vezes. Perdemos a casa em Berlim e o apartamento em Paris”.

No sul da França, onde a família se instalou depois de fugir de Paris, Heschel só pensava em formas de abandonar a Europa. A ideia era embarcar no primeiro navio que saísse do continente, mesmo que não fosse para os Estados Unidos, onde pretendia recomeçar a vida. Naquele momento, o importante era escapar do destino traçado por Hitler para cidadãos de origem judaica. Depois de muito negociar, o patriarca conseguiu comprar passagens para a família no vapor Alsina, que saiu da cidade francesa de Marselha, na costa do Mediterrâneo, em 10 de janeiro de 1941. Quatro dias antes, Lilo tinha completado 23 anos. O passaporte que usava para viajar estava válido até 21 de maio de 1942, como indicava carimbo da representação diplomática da República da Tchecoslováquia em Paris.

“A viagem, prevista para durar 20 dias, acabou demorando mais de oito meses”, conta Marcelo. Lilo, por sua vez, usava o termo “viagem interminável” toda vez que falava sobre a trajetória percorrida entre Marselha e o Rio de Janeiro. Apenas em Dakar, no Senegal, o navio Alsina ficou retido por seis meses, devido ao bloqueio naval imposto pela Grã-Bretanha a embarcações saídas da França ocupada pelo nazismo. Depois, voltou à Casa Branca, no Marrocos Lilo não demorou a se enturmar com os passageiros da sua idade e guardou boas lembranças da parada forçada: “Meus pais jamais deixaram o navio, mas nós, a juventude, tínhamos um grande grupo e descíamos do navio, passeámos pelas praias, pela cidade. A bordo, comíamos lagosta todos os dias. E nunca comi frutas tão deliciosas como as de lá.”




Mais de 50 anos após salvar Rudolf Breitscheid, Lila visita o prédio onde viveram em Paris (Foto: Álbum de família)

A alimentação exótica e farta era, na realidade, um privilégio dos passageiros embarcados na primeira classe. No momento em que Hitler avançava sobre toda a Europa e campos de concentração e extermínio funcionavam em diversos pontos do continente, o Alsina estava repleto de passageiros que deixaram tudo para trás, com muito pouco dinheiro no bolso. “Estavam todos com fome. Eu pegava comida, fazia sanduíches e levava para eles”, conta. Entre os refugiados destacavam-se os poloneses de origem judia, como Zbiegniew Ziembinski, que pouco tempo depois se tornaria um dos fundadores do teatro moderno brasileiro.

Grande apreciadora de música e de teatro, Lilo tinha se aproximado dos passageiros da terceira classe justamente por meio de Ziembinski, que promovia noites culturais e chegou a produzir uma peça a bordo. “Fizemos uma apresentação para a Armada Francesa que estava estacionada em Dakar”, costumava recordar Lilo. O espetáculo aconteceu antes de o Alsina retornar a Casablanca, onde deveria aguardar autorização para seguir viagem para a América do Sul. Da cidade marroquina, os passageiros foram levados para uma região desértica e abrigados em um campo de refugiados da Legião Estrangeira.

Neste meio tempo, o visto de entrada no Brasil dos Schönberg venceu e Lilo teve de viajar com os pais até Cadiz, na Espanha, onde o consulado, com muito custo, renovou o documento. Quanto ao Alsina, jamais recebeu o sinal verde para continuar a navegação. Para continuar a fuga da Europa estraçalhada pela guerra, os passageiros tiveram de empreender uma nova batalha, atrás de vagas em outros dois navios: o Cabo Horns e o Cabo da Boa Esperança, ambos de bandeira espanhola. Lilo desembarcou do Cabo Esperança no Rio de Janeiro numa quinta-feira, 25 de setembro de 1941. Com a família, hospedou-se em um pensionato em Copacabana. A ideia era ficar no Rio apenas o tempo necessário para providenciar nova documentação e seguir para os Estados Unidos.




(Foto: Álbum de família)

“Poucos dias depois sobreveio a notícia da morte de meu irmão em Los Angeles. Foi terrível. Minha mãe ficou tão desesperada que queria se jogar pela janela. Tivemos que tomar uma enfermeira para cuidar dela”, confidenciava Lilo. O irmão, Oscar Schönberg, que adotara em Hollywood o nome Michel Belmont, tinha caído do cavalo durante uma partida de polo. “Já estive no cemitério dos atores em Los Angeles, onde ele está enterrado”, diz Cláudio. Ele também conta que só depois do fim da guerra a família voltou a ter notícias de Rudolf Breitscheid, o antigo líder do Partido Social Democrata alemão que Lilo tirara de Paris. Souberam que ele tinha sido preso no sul da França e não sobrevivera ao nazismo.

Com a morte de Oscar, 76 anos atrás, os Schönberg decidiram permanecer no Brasil, onde Lilo se casou e adotou o sobrenome do marido, o empresário lituano Ruvens Kahns. Em São Paulo, ela teve dois filhos, atuou como tradutora e frequentou por décadas as quadras de tênis do Clube Paulistano. Morreu em setembro de 2015, aos 97 anos, quando Cláudio se encontrava em plena produção do documentário Imagens do Estado Novo 1937-1945, que é dedicado a ela. Um detalhe crucial: quando Lilo e os pais chegaram ao porto do Rio estava em vigor o decreto secreto do governo Getúlio Vargas que proibia o desembarque de judeus no Brasil. Só não foram deportados para a Europa dominada pelo nazismo porque Heschel Schönberg, o patriarca, tinha dinheiro suficiente para pagar a propina exigida pela autoridade da imigração.

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