Brasileiros

Ataques à performance no MAM fazem parte de agenda anti-humanista

Arte - Idéias e Provocações

O colunista Fabio Cypriano reflete sobre as acusações contra uma performance realizada no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo
Fabio Cypriano
Publicado em: 29/09/2017 - 19:02Alterado em: 05/10/2017 - 11:21

É absolutamente descabida a acusação de pedofilia atribuída à performance “La Bête”, realizada pelo artista Wagner Schwartz na abertura do 35o Panorama da Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), na última terça-feira (26).

De forma sistemática, ativistas neoliberais iniciaram nos últimos meses uma série de ataques a exposições com temáticas ou conteúdo sexuais, como forma de questionar artistas, justamente o segmento que de forma mais clara tem atacado as políticas antissociais do governo em exercício, seja no campo da cultura, do meio-ambiente, do trabalho, indígena ou tantas outras em condição de ameaça no atual cenário.

Segundo os ataques na internet, seria imoral Michelangelo ter instalado um homem nu, como a estátua de Davi, em frente a sede de governo de Florença, em 1504

O ataque moralista não diz respeito, portanto, aos conteúdos. O caso do MAM é exemplar. A performance de Schwartz está longe de se aproximar de algo que pode ser sequer considerado escandaloso, afinal, seja no carnaval, nas novelas ou na internet, a nudez é presente de forma permanente. No caso da arte, então, isso é uma prática de séculos.




Museu de Arte Moderna está no centro da discussão sobre os ataques moralistas à arte contemporânea (Foto: Divulgação)

Segundo os ataques na internet, seria imoral Michelangelo ter instalado um homem nu, como a estátua de Davi, em frente a sede de governo de Florença, em 1504. Ou seja, é totalmente estúpido atacar a nudez no contexto da arte, onde mestres como Goya ou Picasso também despiram seus modelos. Até os nazistas glorificaram a nudez, seja com a criação de campos de nudismo, seja nos filmes da cineasta Leni Riefenstahl (1902 – 2003) sobre as Olimpíadas de Berlim, em 1936.

Há mais de 60 anos, artistas da performance vêm realizando ações com seus corpos nus, como forma de questionar os valores da sociedade. São trabalhos radicais, que buscaram apontar para como a sociedade contemporânea buscou anestesiar os corpos, retirando deles toda sua força vital. Por isso, muitos deles se cortam, se masturbam, se manipulam, buscando reativar uma sensibilidade perdida e reprimida.

Nada disso ocorreu no MAM. Eu vi a performance de Schwartz. Ele se deixava manipular pelo público sem sequer trocar palavras com quem interagia na obra, sua cara tinha um olhar distante, como se ele fosse apenas um objeto, um boneco a ser manuseado pelo público. A nudez não é vista como algo perverso para a criança, a maldade está no pensamento dos adultos.

Muitos ingênuos replicam as acusações à performance sem terem visto o que de fato ocorreu, sem entender seu contexto, apenas deixando-se levar pelas ondas de ódio que as redes sociais tão facilmente criam.

Contudo, quem está por traz dessa orquestração não é ingênuo e tem uma agenda clara: é apenas danificar a imagem dos artistas, porque são eles que ainda se posicionam de maneira enfática pelos valores de humanismo, de dignidade da pessoa humana.

Esses ataques atuais apontam que há uma reação em marcha, que une, não por acaso, as famosas bancadas da Bíblia, do Boi e da Bala. São falsos moralistas, que em nome dos bons costumes querem acabar com a diversidade

Há cerca de duas décadas, em uma palestra na Faculdade de Direito da USP, o professor Antonio Candido (1918 – 2017) via com otimismo como o discurso contra o preconceito, contra os direitos humanos perdia espaço na sociedade brasileira. Ele defendia que havia um humanismo incontornável, antes presente na literatura, e que nos anos 1990 começavam a se propagar.

É fato que a tolerância hoje ganha espaço entre os jovens. Há mais respeito, por exemplo, entre universitários com seus colegas de orientação sexual distinta da norma. Mas esses ataques atuais apontam que há uma reação em marcha, que une, não por acaso, as famosas bancadas da Bíblia, do Boi e da Bala. São falsos moralistas, que em nome dos bons costumes querem acabar com a diversidade. Eles espalham mentiras, apregoam o caos, apontam para os que consideram devassos, mas na verdade escondem muito mais malas de dinheiro que o apartamento de um deputado pode conter e que os ingênuos que os seguem conseguem imaginar.

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